Nos bastidores do Fracking

José Luís Lezama.

A tentação é grande e não é unicamente de natureza econômica.

As companhias petrolíferas dos Estados Unidos não só têm em suas mãos um campo de negócios de alta rentabilidade mas este e outros países querem ver neste a possibilidade da independência energética, um assunto de natureza política. Os americanos quiseram liberar-se do petróleo do conflitivo Oriente Médio e também do contaminado de política e ideologia proveniente de América do Sul.

O gás de fracking parece poder realizar este sonho. Os altos preços do petróleo e o desenvolvimento de uma nova tecnologia de perfuração horizontal tornou rentável a exploração dos milhões pés cúbicos de petróleo e gás aprisionados nas profundidades rochosas do subsolo de muitos países do mundo, incluindo o México.

A fraturação hidráulica ou “Fracking”, técnica que se usa nos Estados Unidos desde os anos 40, consiste na perfuração do subsolo rochoso onde está aprisionado o gás ou petróleo, particularmente rochas de xisto ou lousa. Posteriormente se injeta água a alta pressão, areia e poderosas e tóxicas substâncias químicas para fraturar as rochas o que permite a liberação do gás ali acumulado.

Os Estados Unidos possuem reservas deste gás e petróleo que, segundo os promotores desta indústria, poderiam oferecer eletricidade barata aos lares estadunidenses durante os próximos 50 anos.

O aparente êxito econômico da exploração do gás de xisto nos Estados Unidos contagiou diversos países, sobretudo da Europa Ocidental, de uma espécie de euforia combinada com o desejo profundo de buscar a independência energética e sobretudo, livrar se da incomoda dependência do gás russo.

Entretanto, alguns países como a França e a Romênia proibiram sua exploração por razões ambientais. Outros países enfrentam intensos protestos de grupos ambientalistas e residentes que se opõem a sua extração pelos riscos de contaminação, os impactos ao meio ambiente e à saúde humana que, se supõe, estão associados com as substâncias químicas utilizadas, muitas das quais estão proibidas, enquanto outras permanecem em segredo.

O presidente Obama lançou em maio uma iniciativa para regular a exploração do gás de xisto, na qual ratificou às companhias petrolíferas e químicas o direito de manter em segredo as substâncias utilizadas.

Algo de que ninguém quer falar muito para não parecer estraga-prazeres, quando a fortuna parece sorrir é sobre os milhões de litros de água que cada poço perfurado requer para o fracking, as venenosas substâncias tóxicas utilizadas na fratura das rochas, que ameaçam de contaminação os aquíferos, a matéria radiativa que pode sair para a superfície com a perfuração das rochas, a atividade sísmica que se gera, o problema de escassez de água que regularmente caracteriza as zonas de exploração, o que no Texas atualmente se tornou uma situação dramática. No mês de agosto (2013), os texanos de Barnhart, uma das sedes do novo boom petroleiro, ficou sem água para consumo doméstico.

Estes, não obstante, são tempos de festejos, tempos para não pensar em efeitos perversos; a natureza é um objeto, algo para fazer negócios, são objetos, matéria morta, matéria prima, recursos para a produção; não é mais fonte de vida; é o mundo do não humano que deve ser submetido e posto a nossa disposição, seres excepcionais, momento elevado da criação; a natureza e seus bens estão aí para serem explorados comercialmente, para que a máquina econômica não pare: estes são os valores e a mentalidade nos bastidores da crise ambiental contemporânea.

A ilusão do combate à probreza

O presidente de México, Enrique Peña Nieto, pode não se sentir uma voz isolada na exaltação com que anuncia, como parte de sua reforma energética, o papel que pode ter o petróleo e o gás de xisto, que abunda no subsolo mexicano especialmente em alguns estados do Norte, onde a escassez de água adquire contornos dramáticos.

Outros chefes de Estado festejam por antecipação a bonança e prosperidade que por vir em um futuro próximo. Os argumentos dos governos r das companhias petrolíferas em distintas partes do mundo são idênticos.

No México o governo repete de cor: “estamos sentados em cima de um mar de petróleo e gás, de uma riqueza incomensurável que não estamos explorando e que podemos utilizar para o bem dos mexicanos, para um futuro mais próspero e para resolver a fome e a pobreza”.

Parece que o propósito primordial das companhias petrolíferas seja buscar o bem dos mexicanos e que a pobreza se reduziria a um problema de produção e do tamanho do bolo que se quer repartir e não também a uma das normas de distribuição que regem uma nação e do poder econômico e político diferencial em mãos dos que repartem a riqueza produzida.

Ninguém quer arriscar imaginar o custo de tanta bondade.

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