Urbanização pode ameaçar biodiversidade

A urbanização global terá consequências importantes para a diversidade biológica e os ecossistemas se as tendências atuais continuarem em uma cadeia de efeitos para a saúde humana e o desenvolvimento, segundo uma nova avaliação do Convênio das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (CDB).

A Perspectiva das Cidades e a Diversidade Biológica é a primeira análise mundial de como os padrões projetados de expansão do solo urbano afetarão a diversidade biológica e os ecossistemas cruciais.

A área mundial urbana total triplicará entre 2000 e 2030 e a população urbana duplicará indo para cerca de 4.9 bilhões no mesmo período. Esta expansão urbana se fará em grande parte sobre mananciais e outros recursos naturais e consumirá primeiro a terra agrícola.

“A forma como nossas cidades são planejadas, a maneira de viver nelas e as decisões políticas vão influenciar sobre o uso sustentável mundial no futuro”, disse Braulio Ferreira de Souza Dias, secretário executivo do CDB.

“A inovação não se baseia somente no desenvolvimento de novas tecnologias de infraestrutura e enfoques mas, principalmente, em trabalhar com o que já temos. Os resultados requerem menos recursos econômicos e são mais sustentáveis”, acrescenta De Souza Dias.

O documento informa que a expansão urbana está se produzindo rapidamente nas zonas próximas aos “pontos de conflito” da diversidade biológica e das zonas costeiras. No rápido processo de urbanização em regiões – tais como os grandes assentamentos e os médios empreendimentos na África subsaariana, na Índia e na China – os recursos para por em prática o planejamento urbano sustentável são frequentemente insuficientes. “Mais da metade da população mundial já vive em cidades. Este número se prevê que aumente para 60% da população vivendo em zonas urbanas para 2030 “, disse Achim Steiner, Subsecretário Geral das Nações Unidas e Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

“Este informe faz um alerta para que os planejadores urbanos e os gestores dos ativos deem maior atenção à natureza dentro dos limites das cidades. O desenvolvimento urbano sustentável apoia valiosos ecossistemas e representa uma grande oportunidade para melhorar as vidas, os meios de subsistência e para acelerar a transição para uma economia verde inclusiva “, acrescentou Steiner.

As cidades são cada vez mais reconhecidas por seu papel no apoio às espécies vegetais, aos animais e aos ecossistemas diversos. Por exemplo, mais de 50% das espécies florais da Bélgica se encontram em Bruxelas, enquanto 65% das espécies de aves da Polônia se reproduzem em Varsóvia.

Os espaços verdes urbanos realizam importantes serviços aos ecossistemas, como a filtragem da poeira, que absorve o dióxido de carbono da atmosfera e melhora a qualidade do ar. Os dados do Reino Unido indicam que um aumento de 10% na cobertura das copas das árvores nas cidades pode resultar em uma diminuição de 3º a 4 °C na temperatura ambiente, reduzindo assim a energia utilizada pelo ar condicionado.

A diversidade biológica urbana também oferece benefícios de saúde importantes. Os estudos demonstram que a proximidade às árvores pode reduzir a prevalência da asma infantil e das alergias. O planejamento urbano sustentável aborda questões de diversidade biológica junto com outras prioridades como a luta contra a pobreza, o emprego e a habitação que podem ter efeitos positivos para a saúde e o meio ambiente.

“As cidades necessitam aprender como proteger e melhorar a diversidade biológica, visto que ela pode existir nas cidades e é extremamente crítica para a saúde e o bem-estar,” disse o professor Thomas Elmqvist, do Stockholm Resilience Centre, e editor científico do informe.

A Perspectiva das Cidades e a Diversidade Biológica destaca uma ampla gama de iniciativas exitosas proporcionadas pelas cidades, as autoridades locais e os governos subnacionais nos países tanto desenvolvidos como em desenvolvimento.

Em Bogotá, Colômbia, medidas tais como o fechamento das rodovias no fim de semana, melhora o sistema de trânsito e a criação de ciclovias para bicicletas resultou no aumento da atividade física entre os residentes e uma redução das emissões de gases de efeito estufa.

O informe também proporciona uma análise detalhada das tendências de urbanização regionais e seu impacto sobre a diversidade biológica e os ecossistemas.

Sobre o estudo

A Perspectiva das Cidades e a Diversidade Biológica demonstra como as áreas urbanas podem desempenhar um papel central no ganho das 20 Metas da Diversidade Biológica (conhecidas como as Metas de Aichi para a Diversidade Biológica), que foram acordadas em 2010 pelas partes no Convênio sobre a Diversidade Biológica.

Por exemplo, a restauração ou o “uso ecológico” dos locais ocupados anteriormente por indústrias ou as instalações industriais abandonadas pelas autoridades municipais podem apoiar os esforços para lograr a Meta 15 de Aichi, que defende a restauração de 15% dos ecossistemas degradados para 2020.

As cidades também podem ajudar a prevenir a extinção das espécies conhecidas (Meta 12 de Aichi) através da pesquisa e investimentos em parques zoológicos, aquários e museus, muitos dos quais são administrados pelas autoridades municipais.

O estudo foi produzido pela Secretaria do CDB, em colaboração com o Centro de Resiliência de Estocolmo (SRC) e os Governos Locais para o Uso Sustentável (ICLEI). A Secretaria do Convênio sobre a Diversidade Biológica opera dentro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Experiências

Ásia

A região será o lar de quase a metade do incremento mundial em solo urbano nos próximos 20 anos. As mudanças mais extensas se produzirão na Índia e China.

O crescimento de agrupamentos urbanos da Índia (como o corredor industrial Mumbai-Delhi) possivelmente transforme regiões inteiras, com um impacto significativo sobre o hábitat e a diversidade biológica.

A perda de terras agrícolas pela urbanização, junto com um planejamento insuficiente das linhas de suprimento de alimentos, supõe uma limitação grave para a segurança alimentar no futuro para a crescente população da Índia.

Mudanças na dieta da Índia devido à urbanização podem diminuir as pressões sobre os bosques devido à menor utilização da lenha e do carvão vegetal.

Na China, as zonas urbanas estão invadindo cada vez mais as áreas protegidas.

África

A África está se urbanizando mais rapidamente do que qualquer outro continente e a maior parte do crescimento da população ocorrerá em cidades de menos de 1 milhão de pessoas. Estas cidades têm estruturas precárias de governo, altos niveles de pobreza e a reduzida capacidade científica sobre a diversidade biológica.

Os baixos níveis de emprego permanente nas cidades deixam-nas na dependência da prestação dos serviços dos ecossistemas (por exemplo, a produção de água e de alimentos) em áreas dentro ou próximas dos limites da cidade.

América Latina e Caribe

O número de cidades na região cresceu seis vezes nos últimos 50 anos. A expansão urbana causada pela oferta de casa para residentes de baixa renda frequentemente ocorre em áreas importantes para a diversidade biológica e os serviços do ecossistema, tais como as áreas úmidas (pantanais e banhados) ou as planícies de inundação. Estas são consideradas erroneamente pelos urbanistas como de valor marginal.

Europa e América do Norte

Na Europa, o nível de urbanização atual é de 70-80% e o crescimento urbano nas últimas décadas foi em forma de expansão da terra em lugar de crescimento da população.

Muitas cidades da Europa e América do Norte estão mostrando tendências de redução e/ou mudanças nos padrões da população nas zonas centrais das cidades, junto com a expansão de subúrbios e áreas que anteriormente eram urbanas.

Leave a Reply

Your email address will not be published.