O olhar diferenciado que a água está exigindo

Foto: Lago Camecuáro. Aguaonline.

Cecy Oliveira

Especial direto de Zamora (México)*.

Os mais de 600 slides apresentados durante as palestras e conferências realizadas no III ENCA, realizado na cidade Zamora (Michoacán), no México, abordando inúmeros temas podem ser resumidos em um ponto em comum: é preciso mudar a maneira como todos os seres humanos estão olhando para água.

Não importa de que ponto de vista se olhe. Se do racional, que aponta a perda acelerada das fontes de suprimento tanto pelo aspecto de qualidade quanto de quantidade. Se do econômico, que mostra sistemas com elevadas perdas, cidades, estados e países que viram suas economias minguarem por falta de recursos naturais, como a água, usados e abusados à exaustão. Se do estético, que faz doer quando se imagina a perspectiva de que as futuras gerações não possam desfrutar a beleza dos reflexos de árvores majestosas nas águas de um lago como o de Camecuáro, em Zamora.

Talvez seja hora de apelar para o belo que a água nos proporciona ao servir de moldura para um por-de-sol ou para a vegetação exuberante que margeia mananciais preservados. Ou para o prazer de mergulhar em águas cristalinas ou de admirar o nado gracioso de cisnes ou de ágeis e coloridos peixinhos.

Talvez seja preciso convocar mais expressivamente os experts em artes, pintores, músicos, escritores, grafiteiros, para que, por meio da expressão artística, seja possível despertar, alertar e emocionar levando a uma ação mais consciente.

Quando se fala em mudar hábitos e olhar de maneira diferente ninguém pode ser alijado de participação. Já não há tempo para esperar que as crianças de hoje, educadas em uma nova realidade, se tornem adultos e tomem decisões que valorizem os recursos hídricos. As ações tem que ser tornadas efetivas agora.

Como foi falado nas apresentações, “transformar culturas não é uma tarefa pequena.Entre as instituições que dão corpo à cultura estão: educação, empresas, governos, midia, movimentos sociais e tradições humanas.

Explorar esses elementos de impulso à mudança cultural será crucial se a humanidade pretende sobreviver e prosperar e provar que, de fato, “vale a pena salvá-la”.

História e cultura

O que quase todos os palestrantes destacaram foi que para construir uma nova cultura da água é fundamental ter como base a história e cultura locais. Resgatar tradições e buscar as raízes culturais e até mesmo folclóricas.

E as nações indígenas de todo o continente latino-americano sempre deram mostras de cuidados e reverência à água que deixam envergonhados aqueles que se consideram civilizados.

Especialistas descrevem que várias civilizações entraram em decadência em função de desequilíbrios ambientais, a maior parte deles ligados à água. Supõem-se que a civilização acadiana se extinguiu devido à seca do Tigre e do Eufrates. Estudos revelam que épocas de anarquia e banditismo; com rupturas na sucessão política e substituição de faraós; coincidem com os períodos de seca e as longas vazantes do Nilo.

Na América os maias, os astecas e os incas provavelmente teriam abandonado suas cidades, pela contaminação e poluição da água e do solo provocados pela destruição da mata primitiva, como mostram, por exemplo, as ruínas da cidade de Tikal, na Guatemala.

Lições que foram esquecidas ou ignoradas pelos colonizadores.

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