Descoberto no Cerrado fixador para perfumes

A primeira impressão que se têm das árvores retorcidas do Cerrado é de que elas estão em uma constante luta pela sobrevivência, com seus troncos rudes e cascas grossas para se proteger do fogo. Nesse cenário de resistência, pequenas delicadezas chamam a atenção. Uma pesquisa realizada na Universidade de Brasília encontrou no Araçá (Psidium myrsinides) uma matéria-prima para perfumes, o linanol.

A substância está presente no óleo essencial da planta, tendo com uma das funções afugentar predadores. Em cosméticos e perfumes, no entanto, serve para fixar a fragrância na pele. A presença do elemento surpreendeu a engenheira florestal Ana Virgínia Castelo, autora do estudo. “Não é comum nem fácil encontrar linanol em plantas”, afirma.

A identificação só foi possível com o uso de uma máquina de ressonância magnética, do Laboratório de Ressonância Magnética Nuclear do Instituto de Química da UnB, coordenada pela professora Inês Rersck. O aparelho identifica as funções orgânicas presentes em um objeto.

A descoberta abre a possibilidade de o Araçá ser empregado na indústria de perfumaria e cosméticos, com um diferencial: seria a primeira vez que um produto usaria o óleo essencial de uma planta nativa do Cerrado, um dos biomas mais ricos da Terra.

Embora o Araçá tenha sido o destaque do estudo, a pesquisa encontrou outras espécies com potencial comercial. Foi o caso da maria-preta (Blepharocalyx salicifolius). O simples ato de amassar as folhas na mão já deixa um forte odor, indício de que a planta possui um óleo essencial marcante. A expectativa se confirmou nas análises em laboratório.

Essa característica é bastante apreciada pela indústria, pois significa que pouco óleo essencial é suficiente para aromatizar uma quantidade maior de insumos. A maria-preta não possui linalol, mas contém grande quantidade de carbonilas de cetona, funções que influenciam bastante no aroma dos óleos essenciais.

Ana Virgínia explica que a planta pode interessar indústrias de produtos de limpeza, higiene e alimentação, já que os óleos essenciais podem apresentar atividade antifúngica. Com a possibilidade de serem extraídos sem a derrubada de árvores, os óleos apresentam uma vantagem para o setor. “As pessoas estão buscando cada vez mais produtos ecologicamente corretos”, afirma a pesquisadora.

O professor Cláudio Del Menezzi, orientador do trabalho, diz esperar que os resultados ajudem donos de terras a perceber que, mesmo em pé, a vegetação é rentável. “O estudo demonstra que a reserva legal pode ser explorada de forma sustentável e gerar lucros”, diz.

Contato: Ana Virgínia Castelo pelo e-mail vri84@yahoo.com.br.

O charme duradouro do Chanel 5

O Brasil é fonte do fixador empregado em um dos perfumes mais desejados pelas mulheres, o Chanel Nº 5.

Nesse caso, o linalol vem da árvore amazônica pau-rosa. Embora as duas plantas contenham o elemento, ambos são insubstituíveis.

“O óleo essencial é formado de vários compostos, entre eles o linanol. Essa sinergia influencia o aroma. Mudando o óleo, muda a fragrância”, explica a pesquisadora.

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