Água: mau uso é uma indignidade global

Mônica Paula*, para a Envolverde

Um insumo indispensável para a vida, mas tratado de forma absolutamente inadequada. A nada difícil conclusão veio após a mesa-redonda “Água no Século XXI”, que fez parte do ciclo de palestras dedicadas ao tema na sexta-feira (17/10), durante o Encontro Latino-Americano de Comunicação e Sustentabilidade. “Devemos pensar em todos os usos da água, que serve para a manutenção de todos os ecossistemas. Sem ela, não existe vida nenhuma, a começar pela intra-uterina. Ficamos dentro d’água na barriga da nossa mãe. A água é um fator de felicidade para o ser humano”, lembrou Cecy Oliveira, diretora da revista digital Águaonline.

A jornalista passou a mostrar para a platéia dados relevantes sobre a água na natureza: apenas 1% dela é doce, ou seja, adequada para o consumo de humanos, plantas e animais. Dos 99% restantes, 2% estão nas geleiras e os outros 97% é a água salgada dos mares e oceanos. Por conta da desocupação desigual, 40 países convivem com o stress hídrico. São locais em que o consumo do precioso líqüido ultrapassa 20% da disponibilidade.

Outro fato alarmante é que 1/3 da população terrestre, ou cerca de 2 bilhões de pessoas, não consome água de qualidade. Em termos de América Latina, mais de 135 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e a serviços de esgoto sanitário. E o mais triste: mais de 900 crianças morrem por hora no mundo devido a doenças causadas por falta de saneamento.

O uso da água é mais do que irracional. Calcula-se que um europeu consuma, em média, 150 litros por dia. Nos Estados Unidos, uma pessoa gasta espantosos 300 litros diários, enquanto que para a outra ponta, que tem a Índia como exemplo, sobram apenas 25 litros per capita. Na produção industrial, a situação é igualmente alarmante: uma tonelada de papel faz com que uma fábrica gaste entre 220 mil e 380 mil litros. Já para fabricar uma tonelada de cimento é preciso 3.500 litros de água.

A platéia de jornalistas e comunicadores engoliu em seco ao saber que 2 bilhões de pessoas bebem uma água que nenhum deles usaria para lavar o carro em casa, enquanto outros 1,2 bilhão gostariam de ter pelo menos esta água à sua disposição. A falta crônica deste elemento é uma porta aberta para doenças diarréicas como a cólera que matam 2,2 milhões de pessoas por ano.

A maneira negativa como pessoas e administrações municipais enxergam a água provoca sua utilização inadequada. Quem está em casa dá valor ao insumo só quando ele falta ou quando chega a conta (alta!) no fim do mês. Na hora do passeio, o desejo é apenas de muito sol, sem levar em conta de que estiagem prolongada também não é nada bom. Para as prefeituras, rios e lagos são obstáculos ao desenvolvimento e tráfego de veículos. Nas obras de canalização, as zonas de drenagem são ignoradas e o resultado é conhecido: enchentes, derivadas de chuva abundante e sem condições de ser absorvida pelo solo.

Gestão, a grande saída

A proteção das águas da natureza de maneira sustentável é o único meio de resguardar este bem que permite a existência de vida na Terra. Para esta finalidade, as metas a serem atingidas passam pelo aumento da consciência da sociedade sobre a importância ambiental e social do insumo, difundir informações e reforçar a atuação dos Comitês de Bacia e promover o conhecimento do Sistema de Gestão de Águas.

Quando se fala em gestão hídrica, deve-se levar em consideração aspectos como a outorga (autorização do governo para uso, mediante documento onde são fixados valores, prazos e finalidade), o pré e o enquadramento em si (adequação de projeto para a melhor utilização e conservação do ecossistema) e a cobrança pelo uso (captação de recursos para prover mudanças necessárias). Devem pagar todos aqueles que captam a água diretamente de rios, lagos e poços profundos, os que usam a água para uma atividade econômica e quem lança esgotos no rio e na rede pública.

A lei brasileira estabelece que o abastecimento humano deve prevalecer sobre todos os demais usos. Quando a água começa a faltar nas casas é porque a situação atingiu um nível crítico. A gestão dos recursos hídricos é o instrumento que compatibiliza os diversos usos. Um bom exemplo é a Resolução 49/2008, do Conselho de Recursos Hídricos do Rio Grande do Sul, que acaba de estabelecer condicionantes para a retirada de água da Bacia do rio Gravataí, com prazo de validade até 15 de março de 2009.

As condições precárias da Bacia do Gravataí e a grande demanda de água para a agricultura, especialmente do plantio de arroz, exige um maior controle nas captações para irrigação durante a primavera e o verão em toda a região percorrida por este manancial.O case ilustra o grande objetivo da gestão hídrica: ter água em quantidade e qualidade para todos os usos.

A cobertura do Encontro Latino Americano de Comunicação e Sustentabilidade está sendo feita por uma equipe de jornalistas. A coordenação é de Naná Prado e o material está publicado também no site da Envolverde (http://www.envolverde.com.br) e do Mercado Ético (http://www.mercadoetico.com.br).

Crédito de imagem: Clóvis Fabiano

(Agência Envolverde)

Cesan estuda uso de lodo na agricultura

A Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan) e o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) assinaramm convênio de cooperação técnica-financeira para a realização de pesquisas e estudos, durante dois anos, sobre a destinação do lodo de esgoto para uso agrícola.

O convênio dá início às atividades do projeto “Critérios para o uso e manejo agrícola e florestal do lodo de Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) no Estado do Espírito Santo”, que é uma parceria das duas instituições, com o apoio do Banco Mundial, no valor de R$ 856 mil. A Cesan contribuirá com R$ 676 mil e o Incaper com R$ 180 mil.

O projeto consistirá na reciclagem agrícola do lodo proveniente das ETE’s para possível utilização em cultivos comerciais, como fruteiras tropicais, espécies florestais, cafeicultura e cana de açúcar. Serão realizados experimentos em campo nas regiões centro-serrana, norte e sul do estado, permitindo o monitoramento das características físicas, químicas e microbiológicas do solo e dos fatores de crescimento e desenvolvimento do vegetal, para verificar o efeito do uso do lodo como fonte alternativa de matéria orgânica e de nutrientes.

Um dos objetivos principais é a criação de um manual de recomendação do uso do lodo em cultivos agrícolas no Estado do Espírito Santo, após os dois anos de estudos. Estima-se que cerca de 1.500 toneladas mensais de lodo poderão ser usadas como fonte de matéria orgânica e nutrientes para o solo.

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