
Cecy Oliveira – Direto de Botucatu (SP) (*)
Uma dezena de especialistas em águas subterrâneas participou de uma jornada de informação sobre o Aqüífero Guarani, realizada na cidade de Botucatu (SP), para um público de cerca de 300 pessoas entre representantes de ONGs, estudantes, funcionários de prefeituras municipais e de usuários das águas subterrâneas. O objetivo é divulgar mais dados sobre esse grande manancial e propiciar uma visita às chamadas zonas de recarga (alimentação) onde é possível visualizar os vestígios geológicos da formação deste imenso reservatório subterrâneo que está presente em partes do território do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai.
Além de ser uma zona de grande aproveitamento das águas do Aqüífero esta região de São Paulo apresenta os vestígios da história de formação das bases que propiciaram o “aprisionamento” de grandes porções de água entre as rochas. As marcas do antigo deserto, da época dos vulcões e da formações de rochas porosas – que armazenam água como se fossem imensas esponjas a profundidades que podem ir de 30 a 1.500 metros – podem ser facilmente observadas nas zonas onde o aqüífero se mostra à população.
Embora a maior parte da água esteja retida entre as rochas os aqüíferos têm zonas vulneráveis sujeitas à poluição e à superexploração o que as torna frágeis do ponto de vista da qualidade e ainda mais necessitadas de cuidados e proteção.
Um dos objetivos do Programa do Aqüífero Guarani, que está sendo desenvolvido em conjunto pelos quatro países do Mercosul, é aprofundar e consolidar os conhecimentos a respeito deste manancial subterrâneo que em alguns pontos, especialmente no território brasileiro, é intensamente utilizado no abastecimento público e também para atividades como a indústria, a agricultura e o turismo.
Como bem destacou o prefeito de Botacutu, Antônio Mário de Paula Ferreira Lelo, na abertura da Jornada Estadual Aqüífero Guarani, embora reconhecendo-se a importância das questões ambientais e especialmente do Aqüífero Guarani, ainda são escassos os instrumentos para a preservação e conservação.
Além de buscar ampliar a circulação da informação sobre a importância do deste manancial subterrâneo no Estado de São Paulo, a jornada teve também o intuito de apresentar os resultados parciais do Projeto Aqüífero Guarani, em execução e envolver os 16 comitês de bacias hidrográficas na discussão das estratégias de utilização e proteção do Aqüífero em São Paulo.
Uma das atividades mais interessantes da jornada foi a excursão monitorada a locais de afloramento do Aqüífero Guarani, coordenada pelo professor Celso Dal Ré Carneiro, IG/UNICAMP.
Os cerca de 300 participantes ganharam um roteiro básico explicativo, uma lupa e o acompanhamento e as explicações de professores e monitores (alunos de Geologia) que coletaram amostras de rochas e explicaram como aconteceu a formação geológica e as principais características do aquífero na região.
A partir desta visita e das palestras, entre as quais se incluíram as do Projeto de Proteção e Desenvolvimento Sustentável do Aqüífero Guarani, Atividades em desenvolvimento, a cargo do secretário-geral do Projeto, Luiz Amore; Base de dados hidrogeológicos, por Ariel Perez, do Consórcio Guarani; Projeto Piloto de Ribeirão Preto, por Heraldo de Campos (OEA); Utilização Atual do Aqüífero Guarani, a cargo de Chang Hung Kiang – IGCE/UNESP, Rio Claro, além de exemplos de utilização do Aqüífero em São Paulo, foi possível aos participantes debater, no último dia, as estratégias e sugestões para a ação conjunta em defesa deste manancial subterrâneo.
Vários dos palestrantes destacaram alguns dos temas críticos que envolvem o uso da água subterrânea, especialmente em São Paulo, como a superexploração (retirada maior do que a capacidade de reposição), interferência entre poços (quando perfurados muito próximos um pode interferir e até inviabilizar o outro) e a questão da poluição por lixões ou esgoto não coletado e tratado nas zonas chamadas de recarga.
Uma manifestação desta degradação são imensas voçorocas que estão presentes nas zonas de recarga e que representam um perigo potencial de contaminação, especialmente quando estão próximas de rodovias de intenso tráfego, susceptíveis a acidentes e vazamentos ou despejo de lixo clandestinamente.
Cecy Oliveira viajou a Botucatu a convite do Projeto do Aqüífero Guarani.
Exposição

Como parte das atividades ministradas na Jornada Estadual do Aqüífero Guarani, foi montada no andar superior do Teatro Municipal de Botucatu a exposição “Água Brasilis”. O evento ficará aberto a visitação até o próximo dia 31 de agosto, das 8 às 18 horas, com entrada franca .
A exposição tem como principal objetivo chamar a atenção da comunidade para a necessidade de preservação dos recursos hídricos e colocar este tema em discussão, provocando reflexões e propondo soluções que permitam a preservação de mananciais e a contenção do despejo de efluentes industriais e esgotos domésticos nas águas dos rios e mares.
Os visitantes do local têm a oportunidade de visualizar painéis que ilustram e explicam a história do uso da água no Brasil, desde os índios até os dias atuais, passando pelos diferentes ciclos econômicos brasileiros.
Nesses painéis é possível obter mais conhecimentos sobre principais poluentes, ciclo das águas, relação da água e crescimento das cidades, além de informações sobre o Aqüífero Guarani. “Os painéis são bem objetivos, contendo exemplos práticos muito interessantes do uso e cuidados que todos devemos ter com a água”, comentou o estudante Márcio Tadeu Tomazela, ao visitar a exposição.
Além dos painéis, são disponibilizados também objetos que possibilitam a visualização e percepção de gastos com a água ao se tomar um banho longo, limpezas e outros usos domésticos.
Fonte: ACS de Botucatu
O projeto
O Projeto de Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Aqüífero Guarani é uma iniciativa conjunta dos quatro países (Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai), do Fundo para o Meio Ambiente Mundial e da OEA na elaboração de estudos para a implantação coordenada de uma estrutura técnica e institucional com vistas à proteção e gestão do Aqüífero.
O período de execução do Projeto Guarani é de quatro anos (2003-2007). Em cada País foi estruturada uma Unidade Nacional. No caso do Brasil, além da unidade Nacional, foram organizadas Unidades Estaduais de execução do Projeto nos oito estados abrangidos pelo Aqüífero: Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
O Projeto Guarani tem três diretrizes básicas:
• Consolidar o conhecimento sobre a estrutura e o funcionamento hidráulico do Aqüífero;
• Estabelecer um sistema de gestão descentralizado e participativo, reunindo os órgãos públicos, os usuários e a sociedade civil organizada;
• Fomentar a participação pública, a educação ambiental e a comunicação social, de modo a garantir as reservas de água subterrânea para as atuais e futuras gerações.
Em São Paulo a área de ocorrência do Aqüífero abrange – parcial ou totalmente – as unidades de gestão de 16 comitês de bacias hidrográficas.
Desafios
Entre as certezas que emergiram da Jornada estão alguns desafios como a identificação das áreas críticas, a falta de leis de proteção uma vez que é um aqüífero transfronteiriço e portanto sua gestão deve ser compartilhada.
As incertezas técnico-científicas são imensas, a começar pela verdadeira extensão do aquífero, como ele ocorre (já se especula que seriam vários aqüíferos guaranis, alguns sem comunicação com outros),

Gestão de aqüíferos
Um dos problemas levantados no evento é o que se refere à gestão conjunta pelo sistema de gerenciamento de recursos hídricos, onde atuam os Comitês, de mananciais superficiais (bacias hidrográficas) juntamente com a água subterrânea.
Na cidade de Ribeirão Preto, abastecida totalmente por água subterrânea oriunda Aquífero Guarani, o Comitê da Bacia está buscando a aprovação pelo Conselho de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo de uma resolução estabebelecendo restrições à perfuração de novos poços nas regiões onde já está comprovada o rebaixamento da linha d’ água deixando clara a superexploração.

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