Produção animal e recursos hídricos: da extração à conservação

Julio Cesar P. Palhares

Considerando-se as várias vertentes das questões ambientais, pode-se dizer que dois horizontes conduzem às discussões: o meio urbano e o rural. Entre as preocupações com o ambiente rural destacam-se a preservação e conservação dos recursos hídricos, a conservação dos solos, a qualidade dos alimentos produzidos e a contaminação ambiental por produtos tóxicos utilizados na produção agropecuária.

Nota-se que pouco se tem falado a respeito das atividades zootécnicas que podem causar depreciação dos recursos hídricos, solo, alimentos e contaminação. Com isto, sugerem-se duas questões: como monitorar e mitigar os impactos ambientais promovidos pelas criações animais e qual o motivo da reduzida preocupação ambiental para com estas?

Em resposta à primeira questão, nota-se que as ciências ambientais possuem diversas metodologias de monitoramento de impactos, eficientes para as mais diversas situações, mas pouco se tem desenvolvido com relação a estes métodos para com as ciências zootécnicas. O quê e como monitorar e se os resultados serão confiáveis cientificamente e plausíveis de serem entendidos pelos produtores rurais, são questões ainda em aberto, cabendo aos pesquisadores responderem.

Quando se trabalha com dados reais pode-se detectar, precisamente, onde estão os principais problemas, quais as fontes geradoras de impacto e como propor formas de minimizá-los.

Atualmente, a retirada dos resíduos das instalações animais é realizada pela lavagem destas com utilização de uma grande quantidade de água. Assim, aloca-se este valioso recurso como veículo de carreamento, depreciando sua qualidade e interferindo no equilíbrio dos sistemas aquáticos onde a mesma poderá ser despejada.

O uso da água com estes fins é comum em criações suínas, pisciculturas, bovinoculturas de leite e de corte, entre outras. Criações de animais são altamente dependentes dos recursos hídricos, sendo estes o elo fundamental na manutenção e desenvolvimento da cadeia de produção agropecuária.

Sendo a água o recurso efetivamente utilizado no cotidiano das criações e depreciado em sua quantidade e qualidade, não só para criação em si, como para a sociedade que a margeia, é fundamental que se avalie o impacto das criações animais em suas condições e, a partir destes conhecimentos, propostas sejam feitas para alterar as relações da produção para com este recurso.

Junto às populações urbanas poderiam ser desenvolvidos programas de sensibilização, nos quais se estabeleceriam relações entre a qualidade dos alimentos consumidos e a manutenção da qualidade do ambiente que os produziu. Desta forma, estes consumidores urbanos exerceriam pressões sobre os agentes da cadeia produtiva animal, privilegiando a contínua produção de proteína animal com respeito ao meio ambiente.

Com a população rural, o trabalho de sensibilização é imprescindível pois esta cotidianamente maneja os recursos naturais que serão utilizados no desenvolvimento das culturas animais. Assim, a não depreciação e consumo irracional destes recursos dependem de mudanças nos manejos produtivos, sistemas de criação e relações destes com o ecossistema que os cerca.

Porém, um fato que se destaca é como abordar este público rural tão peculiar em suas características sociais, econômicas e ambientais para ocorrência e perpetuação efetivas destas mudanças. Formas de comunicação, atividades a serem desenvolvidas e o modo como estabelecer relações de confiança entre educando e educador devem ser pesquisadas e delineadas para este público específico, pois a simples importação de técnicas estruturadas para outros fins já se mostraram sem qualquer eficiência ou com eficiência reduzida em outros trabalhos.

Além destas diferenças de perfil, que variam entre os municípios, com o tipo de animal criado e sistemas e formas de manejo, existem questões regionais e nacionais que devem ser consideradas para a efetiva sensibilização.

Sensibilizar um produtor que enxerga a sociedade e o governo como inimigos porque não dão o devido valor a sua atividade e que não têm interesse em estabelecer uma real política agropecuária para o país, tem sido muito difícil. Somente depois da conquista do produtor, como um parceiro, é que poderemos sensibilizá-lo e almejar a sustentabilidade da cadeia produtiva agropecuária, propondo mudanças na relação produtor/meio ambiente.

O conhecimento da realidade produtiva, aliado ao da realidade humana do meio rural, poderá desencadear processos de produção racionais. Então, conceitos atualmente utópicos, como o desenvolvimento sustentável e distribuição alimentar igualitária a todos com seguridade não serão mais utopias mas, sim, peças comuns integrantes de um mesmo processo.

Julio Cesar P. Palhares é pesquisador da Embrapa Suínos e Aves.

Balanço negativo

A escassez de água e o balanço hídrico para produção de um quilograma de carne (extremamente negativo), fazem com que atitudes ambientalmente racionais sejam tomadas para que não ocorra a degradação desta cadeia produtiva, da sociedade e da economia que dela dependem.

Talvez o principal motivo para a reduzida preocupação ambiental com relação às criações animais seja a falta de conhecimentos pela sociedade rural e, principalmente, urbana, sobre os danos que estas criações podem causar ao meio ambiente, do quanto são consumidoras e dependentes dos recursos naturais, especialmente dos recursos hídricos e de como as diversas espécies, sistemas de criação e estruturas produtivas afetam a qualidade ambiental e alimentar.

Sendo assim, a melhor forma de resolver esta situação pode ser através da sensibilização da sociedade para com a problemática ambiental destas criações.

Autor

Julio Cesar P. Palhares é pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, atuando em pesquisas relacionadas ao impacto ambiental dos dejetos de suínos e aves nos recursos hídricos.

Importância da sensibilização

Um outro elo produtivo, não menos importante para ser sensibilizado, são as indústrias de insumos (como medicamentos, rações, equipamentos, etc.) e abate/processamento de carnes, leite, ovos, etc.

Em muitas cadeias de produção animal, principalmente nas de suínos e aves, estas indústrias têm um papel fundamental, chegando a ditar regras quanto ao manejo ambiental que deve ser seguido pelo produtor, exemplo são os sistemas de integração do Sul do país.

Portanto, a falta de política ambiental de algumas empresas ou erros constantes nestas políticas podem determinar um impacto hídrico maior.

Setores governamentais como Secretarias de Meio Ambiente, Agricultura, órgãos de fiscalização e polícias ambientais, também não têm grande conhecimento das relações entre produção animal e impacto nos recursos hídricos e, muitas vezes, aliado a esta falta de conhecimento, prevalece uma política desenvolvimentista de seus líderes, sem uma visão de conseqüências a médio e longo prazo, em que o comprometimento dos recursos hídricos significará a falência econômica das regiões produtoras.

Assim, sensibilizar aqueles que têm como função governar, julgar e legislar também é fundamental.

Leave a Reply

Your email address will not be published.