Ações Locais para um Desafio Global

Cecy Oliveira

Foi muito feliz o IV Fórum Mundial da Água ao adotar para essa edição do México o lema Ações locais para um Desafio Global. De fato a solução para um dos grandes problemas mundiais desse século só será alcançada efetivamente se mobilizar cada cidadão em particular.

O tema água está muito próximo do ser humano mesmo antes do nascimento. No útero materno é uma bolsa de água que protege o feto e garante seu desenvolvimento e avisa (ao se romper) que o bebê está pronto para nascer. Nos primeiros meses de vida é a água de boa qualidade que vai garantir a continuidade desse pequeno ser. Basta lembrar que 70% da ocupação dos leitos hospitalares e das mortes de crianças de até um ano estão diretamente relacionadas com as doenças de origem hídrica.

Em muitos países da África a própria frequência à escola é afetada pela presença ou não de serviços sanitários, onde a água é um insumo básico.

E o que dizer da água na agricultura, no abastecimento, na indústria, no comércio, na economia, no transporte, no lazer, no esporte, no turismo, na preservação dos ecossistemas, na guerra e na paz!

É praticamente impossível pensar em qualquer atividade humana em que a água não esteja presente ou seja um de seus componentes essenciais. Não se poderia conceber a vida na Terra se não houvesse água.

Esta na verdade deveria ser uma lição aprendida.

Mas parece que não é assim. Falta a muitos líderes mundiais a exata percepção de que a capacidade do ciclo hidrológico de purificar a água pode se esgotar se o empenho de muitos países em poluir continuar se acelerando.

E esse comprometimento da qualidade afeta a cada de nós em particular pois somos todos passageiros da nave Terra. A rapidez da globalização torna comuns à espécie humana seus benefícios e malefícios.

Não há dúvida de que à má gestão dos mananciais, os desmatamentos, a extinção das áreas úmidas, a perda de diversidade vão cobrar – e em muitos casos já estão cobrando – uma conta conjunta muito alta em que cada um terá que pagar uma parte da dívida. Oxalá não continue sendo em mais vidas humanas, como já vem acontecendo nos desastres naturais.

Como bem lembrou o secretário geral da Organização Meteorológica Mundial, Michael Jarraud, “o relógio de desenvovlimento de um país retrocede de cinco a dez anos cada vez que sofre um desastre natural”. E eles estão crescendo e se multiplicando, cada vez mais intensos e com danos mais amplos. Recordemos neste janeiro o tsunami de um ano atrás e lembremos que os países que tinham suas áreas úmidas preservadas foram os menos afetados pelas ondas gigantes. A destruição desses ecossistemas para dar lugar a empreendimentos turísticos deixou as zonas litorâneas completamente desprotegidas fazendo os investimentos virarem pó.

Por isso é dever de cada um de nós acompanhar atentamente os debates mundiais sobre a água, reproduzí-los e repercuti-los em nossas realidades locais. Debater e mobilizar têm que ser nossas palavras de ordem. Pelo bem de nossa própria preservação.

Água e desastres naturais

Segundo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU

• 90% dos desastres naturais estão relacionados ao clima e ao estado do tempo.

• Desde os anos 70 o número de desastres naturais relacionados com a água triplicaram (de 1.000 para 3.000 incidentes ao ano).

•Os custos econômicos – excluindo os relacionados ao tsunami – quintuplicaram (de 131 a 600 bilhões de dólares anuais) .

• Entre 1985 e 1999 os países menos desenvolvidos perderam 13.4% de seu PIB em desastres naturais, enquanto para os países desenvolvidos o prejuízo foi de 4%.

Autora

Cecy Oliveira é jornalista, editora da Revista Aguaonline e integra o Comitê Executivo da rede Interamericana de Recursos Hídricos (RIRH).

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