Édison Cardoso Teixeira
O estado global e sua relação com o consumo de energia, bem como os diferentes padrões de uso e produção da mesma, apontam para um quadro preocupante em termos econômicos, sociais, ambientais e tecnológicos. O desenvolvimento industrial dos países mais ricos aliado ao crescimento e o avanço tecnológico de países em subdesenvolvimento direcionam para um desequilíbrio e uma insustentabilidade do uso dos diferentes recursos energéticos, bem como o aumento acelerado da destruição de habitats, liderado pela fragmentação de grandes extensões de biomas, principalmente em países desenvolvidos.
O consumo energético cresce e surpreende em países industrializados, onde os EUA aparecem como o maior consumidor de petróleo do globo (SAWIN, J. L. 2004). O consumo de energia no mundo esta distribuído de maneira muito desigual. Os países desenvolvidos, onde vivem cerca de 23 em cada 100 pessoas do mundo, consomem 80% do total da energia (Atlas do Meio Ambiente do Brasil, 1996). O conjunto dos povos mais ricos do mundo consomem em média 25 vezes mais energia do que o total dos países pobres. Essa desigualdade nos leva a pensar: se o resto do mundo quiser ter acesso ao mesmo estilo de vida dos países industrializados, será que o planeta Terra agüentaria? A questão é saber se é possível usar mais energia, agredindo menos o meio ambiente.
Inserido neste contexto, as diferentes atividades humanas, lideradas pela exploração quase irracional dos recursos naturais como fonte de energia, ocasionaram estabilidades na temperatura do planeta. Fatores naturais deram pequenas contribuições para o aquecimento do último século, “há evidências novas e mais fortes que a maior parte do aquecimento observado nos últimos 50 anos é atribuído a atividades humanas” (DUNN, S. & FLAVIN, C., 2002).
Os grandes saltos na história se devem as diversas formas de como o homem conseguiu domesticar a energia que em tese seria a fonte para atingir seus objetivos. Para desfrutar de todos esses benefícios o homem moderno consome, em média, segundo dados, 70 vezes mais energia que seus ancestrais (Atlas do Meio Ambiente do Brasil, 1996). Até hoje, muitos povos da África e da Ásia tem na lenha sua principal fonte de energia, e o resultado é que suas florestas nativas estão acabando. A fragmentação de habitats é crescente e se faz de forma acelerada nas últimas décadas. Mesmo os países mais ricos do mundo não podem ignorar a natureza. Precisamos preservar e pensar na biodiversidade como uma biblioteca da vida onde estão nossas comidas e nossos remédios (Atlas do Meio Ambiente do Brasil, 1996).
Países localizados na Europa, praticamente não possuem áreas onde podem-se encontrar uma grande riqueza biológica. Nestes, praticamente todas extensões de habitats já foram destruídas, e com isso levando a extinção milhares de espécies de animais e plantas. Países em desenvolvimento encaminham-se para a mesma direção. Nos últimos anos vem aumentando com grande velocidade a destruição de remanescentes de biomas nestes locais (MENCONI, D. 2005; GeoBrasil 2002). Grande parte destes problemas se deve a atual matriz energética mundial.
O processo de produção de energia proveniente do carvão, gera uma quantidade de poluentes que parecem não compensar o uso deste como fonte energética. Além disso, no máximo 35% da energia do carvão é convertida em eletricidade para consumo direto das indústrias e da população. O petróleo é altamente poluidor; a eletricidade quando produzida em hidrelétricas, não polui (mas a criação de grandes reservatórios tende a alterar o equilíbrio ecológico); usinas termoelétricas poluem tanto como o petróleo, gás ou carvão usado na usina; usinas nucleares requerem cuidados especiais, frente a possibilidade de contaminação radioativa; a biomassa também polui só que com substâncias menos agressivas a natureza e diferentes das mais comuns na poluição atmosférica mundial (Atlas do Meio Ambiente do Brasil, 1996, 1996).
Energias como a da Biomassa possuem a vantagem de poder ser renováveis, enquanto o petróleo, que é um recurso não renovável tende a se esgotar. Atualmente, as principais fontes poluidoras do ar, do solo, dos rios, dos mares, com graves conseqüências para os seres que neles vivem, ou deles dependem, tem origem na utilização do petróleo. Além destes fatores, atualmente o petróleo é um agente concentrador de poder, o que tem oportunizado as atuais tendências de desequilíbrios socioeconômicos mundiais.
Como a ameaça é global países ricos e pobres enfrentam o mesmo dilema: como viver bem sem comprometer a vida na Terra. É preciso poupar, usar melhor e lançar mão das energias brandas que pouco agridem a natureza, como a dos ventos e a do sol. Produzir mais é consumir mais energia. Mesmo assim o consumo energético do Brasil, somado ao de toda América Latina, representa apenas 5,5% do total mundial.
Por aí se vê que não importa se o recurso é renovável ou não, o aumento do consumo de energia, necessária ao desenvolvimento, sempre contribui para o aumento do potencial de risco de agressão ao meio ambiente. Este é o grande desafio mundial: continuar crescendo sem provocar mais danos ao meio ambiente.
No futuro o crescimento populacional, mudanças climáticas e outros desafios ambientais poderão estressar os sistemas naturais e seus limites, enquanto os combustíveis tradicionais não poderão atender ao crescimento projetado da demanda energética. Questões como crescimento populacional e estresse ambiental devem ser o eixo fundamental na discussão do gerenciamento do uso da energia, bem como da escolha dos meios de sua produção.
O autor é pesquisador do Laboratório de Ornitologia e Laboratório
de Educação Ambiental da UNISINOS – Biologia.
Mais eficiência
Mesmo a utilização de recursos renováveis na produção de energia, pode trazer alguns problemas. A construção de hidrelétricas desarranja os ecossistemas, impedindo, por exemplo, a corrida dos peixes rio acima para a desova. O uso da lenha continua devastando florestas nativas. A produção de cana-de-açúcar, ao redor das grandes metrópoles, afasta para mais longe a produção de alimentos, tornando-os mais caros, por causa do transporte. Da mesma forma o carvão mineral que é um recurso relativamente pouco explorado no Brasil, contribui para a poluição do solo, do ar e das águas (Atlas do Meio Ambiente do Brasil, 1996).
A energia – da lenha, do petróleo, do gás, do álcool, do carvão – é fundamental para a vida e para o próprio desenvolvimento social. Por outro lado, não há como fazer uso da energia sem perturbar, de alguma forma, o equilíbrio da natureza. As florestas, o ar, os rios, os mares, o clima, tudo, enfim, compõe o planeta Terra. Ou seja, sem atingir o próprio homem que dela depende para existir. Produzir significa retirar e processar os materiais fornecidos pela natureza (MENCONI, D. 2005).
No futuro próximo o preço da gasolina vai nos obrigar a usar energia com mais eficiência. Não falamos em falta de luz, só em buscar fontes com menos efeitos ambientais. Não há uma única solução. A energia vai depender do sol, do vento, do hidrogênio, um pouco de nuclear e hidrelétrica, que, aliás não é totalmente limpa porque altera a ecologia dos rios. A saída é clara: buscar novos modelos de desenvolvimento e evitar a degradação.
Temos que fazer uma escolha para mudar as atuais fontes de energia. Precisamos pensar num novo modelo de qualidade de vida. Temos que comer, mas não precisamos comer o último caviar do planeta (Thomas Lovejoy).
Bibliografia consultada
_ ATLAS DO MEIO AMBIENTE DO BRASIL / Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Segunda Edição, rev. aum. – Brasília, EMBRAPA – SPI: Terra Viva, 1996. Capítulo: Energia, pg 35-43.
_ DUNN, S. and FLAVIN, C. Antecipando a agenda da mudança climática. O estado do Mundo 2002. Cap.2 Pag.28-58 (on-line no site www.wwiuma.org.br).
_ MENCONI, D. 2005. Alerta da Natureza. In: ISTO É, Editora Abril, n-1874, 14/09/2005.
_ O Estado da Biodiversidade. GeoBrasil 2002 – Perspectivas do Meio Ambiente no Brasil. Cap. 2, seção 2. Pág. 16-43. (on-line no site www.wwiuma.org.br).
_ SAWIN, J. L. 2004. Escolhendo Melhor a Energia. In: BROWN, L. R. et alli. 2004. Estado do Mundo. Salvador: UMA.
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