
Direto
de
Buenos Aires
No painel em que elaboraram as conclusões do seminário consultores e jornalistas chegaram a pontos de consenso em identificar nas dificuldades de Comunicação e ausência de um melhor relacionamento com as comunidades algumas das razões da pouca importância que os governos e a classe política em geral têm dado à água e particularmente ao saneamento.
Uma tradição tecnicista que ainda permanece em grande parte dos operadores de água e esgoto no Continente e a complexidade dos sistemas e suas características peculiaridades têm feito com que as populações, a imprensa e a própria classe política fiquem afastadas dos debates quando o tema é a necessária prioridade ao setor.
Um sintoma evidente deste descaso ou pouca compreensão com o saneamento é que na América Latina existem mais pessoas com celulares do que com serviço de esgoto.
Conforme o diretor da Latinagua, Jorge Luis Chamas, as mesmas pessoas que consideram razoável pagar de 37 a 40 pesos por mês para ter TV a cabo consideram “um roubo” pagar 15 pesos por mês para a coleta de esgoto. Em sua visão a pobreza é antes de tudo a desigualdade de oportunidades. “O paradoxal é que os pobres são os que pagam mais caro pela água quando ficam fora do acesso às redes públicas”. Ele considera que a água é chave no processo de erradicação da pobreza na América Latina.
Ao analisar o tema Água e Comunicação, a jornalista Cecy Oliveira, editora da Aguaonlinelembrou que o acesso aos serviços de suprimento de água e coleta e disposição adequada de esgoto é um fator fundamental para o alacance das oito metas do MIlênio. “A carência de saneamento dificulta até mesmo a melhoria da frequência ao ensino fundamental”, disse a jornalista, citando que em muitos países as crianças são as encarregadas de buscar água onde não existem redes públicas. “Há regiões onde meninas não podem assistir às aulas por falta de sanitários separados, o que torna ainda mais difícil a igualdade de gênero”.
A secretária-executiva da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas dos Serviços de Água e Esgoto (ABCON), Ana Lia de Castro concorda com a falta de prioridade e diz que é necessário despolitizar a questão da particiupação privada pois o Brasil precisa da união e do esforço de todos. “Conceder serviços não significa privatizar a água” destacou lembrando que investir em saneamento significa retomar o desenvolvimento, gerar emprego e renda. “O saneamento é uma atividade social e não deve ser usado como ferramentas política e ideológica pois enquanto se discute e não se age as crianças estão morrendo”.
Ela destacou ainda que em 2003 enquanto as empresas de saneamento brasileiras investiram o equivalente a US$ 8,51/habitante/ano e os sereviços municipais US$ 4,22/habitante/ano as empresas privadas aplicaram o equivalente a US$ 19,55/habitante/ano, ou seja: 2,3 mais do que as empresas estaduais e quase cinco vezes o que investiram os serviços municipais.
Empresas exitosas

Paul Constance, editor da Revista BIDamérica, disse que o panorama atual exige que se façam novas perguntas sobre o saneamento. E citou que se deve buscar respostas sobre o porque de alguns serviços – públicos ou privados – estarem melhorando enquanto outros pioram?
E sugeriu que sejam identificadas as características das empresas exitosas. Em sua avaliação as empresas exitosas são aquelas que cumprem a promessa de acelerar a expansão da cobertura em água e esgoto para as populações que ainda não têm acesso a esses serviços; as que têm um plano viável para alcançar a universalização nas duas áreas e são financeiramente auto-sustentáveis.
Entre as razões de fracassos ele enumera o fato de que uma boa gestão contraria alguns interesses, como o da venda de água em garrafões ou carro-pipa; de grandes empresas e consumidores mais ricos que consumem muito e não pagam ou atrasam a conta de água e contam com a ineficiência para ficarem impunes; os grandes consumidores públicos (prefeituras e outros órgão públicos que não pagam suas contas de água e não são cobrados); sindicatos de empregados e até partidos políticos que têm interesse em negociar salários e cargos.
Visão unilateral
Os jornalistas criticaram a falta de apresentação de uma visão mais ampla dos operadores públicos no primeiro dia de debates do seminário.
Na avaliação dos comunicadores as primeiras palestra não ofereceram um visão integrada com a área de recursos hídricos e gestão por bacias hidrográficas o que é hoje a abordagem mais aceita mundialmente.
De uma certa forma estes temas estiveram presentes nas apresentações de Eduardo Mestre, Cláudia Mazzeo e Cecy Oliveira, no segundo dia do encontro.
Houve um certo consenso em que as dificuldades de popularização dos temas de água e saneamento estão bastante ligados a uma linguagem excessivamente técnica e à complexidade de temas como regulação, por exemplo.
Os comunicadores citaram ainda a dificuldade de acesso a informações sobre a área operacional e a pouca familiaridade dos especialistas com os assuntos de Comunicação. Os próprios consultores presentes reconheceram as dificuldades que enfrentam no relacionamento com a imprensa revelando o interesse em melhorar sua performance neste aspecto.

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