Luiz Eduardo Cheida
Não se consegue harmonia quando todos cantam a mesma nota, já dizia o norte-americano Doug Floyd.
Esta verdade vale tanto para uma banda de rock quanto para a natureza.
Podemos não saber quantas são as espécies que habitam nosso planeta mas, uma coisa já entendemos: quanto mais diversificadas as espécies que habitam um lugar, mais equilibrado e produtivo ele é.
Cada espécie é uma verdadeira obra de arte que a natureza esculpiu com a paciência de quem sabe o que faz.
Cada uma é como uma nota musical. Vibra na própria freqüência e marca a cadência de um ritmo ímpar dentro da sinfonia ambiental. Extingüir, ainda que uma só delas, é apagar para sempre uma seqüência única na partitura do mundo natural.
Por isso, devemos prestigiar qualquer ação que objetive impedir a perda de uma espécie. Qualquer espécie.
No planeta, já estão extintas 60% das florestas temperadas, 30% das florestas de coníferas e, nos trópicos, 45% das florestas úmidas e 70% das florestas secas. E, nas florestas não existem apenas árvores…
O avanço dos campos de soja, por sobre a Amazônia e o Cerrado, é uma das mais gritantes causas de extinção de espécies no Brasil. Da mesma forma, a especulação imobiliária na Floresta Atlântica; o plantio de pinus e eucaliptos em áreas nativas de Florestas com Araucárias no Paraná; a pesca predatória nos oceanos; a chuva ácida que extingue os corais; a criminosa ocupação de manguezais; o plantio de roça e a criação de gado em savanas e bosques tropicais; os vazamentos de petroleiros, e uma infindável lista de agressões.
O planeta já suportou extinções em massa de suas espécies, como nos períodos Ordoviciano, há 430 milhões de anos, e Devoniano, há 365 milhões de anos. No Permiano, há 250 milhões de anos, mais de 50% das famílias e 80% dos gêneros marinhos desapareceram. Em terra, 50% das famílias dos vertebrados e 70% dos gêneros de insetos, acabaram. Há 65 milhões de anos, a mais célebre extinção levou, para sempre, os dinossauros e uma quantidade não sabida de espécies.
Imensas extinções, mas nenhuma provocada pelo homem que sequer existia.
Atualmente, a espécie humana é o diferencial. Hoje, a extinção é provocada, deliberada e, não raro, planejada. Por isso, é tão estúpida.
Se, quanto maior a biodiversidade, mais equilibrado um local, estamos dando um tiro no pé. De grosso calibre.
Por isso, a 8a Conferência das Partes (COP 8), evento das Nações Unidas que trata da Convenção sobre a Diversidade Biológica (biodiversidade) e que ocorre em março próximo, tem tanta importância. Ministros e chefes de estado estarão no Paraná, buscando alternativas para esta que já é considerada uma nova extinção em massa.
Fico me perguntando se os chefes de estado, na COP 8, terão tutano para entrar nessa discussão. Afinal, para interromper a sangria, só mudando as regras do jogo. Por exemplo: o agrotóxico destrói a biodiversidade do solo. Mas, sem ele, como sobrevivem as multinacionais dos químicos e fármacos?
Transgênicos, na agricultura, reduzem as espécies crioulas. Porém, sem eles, como majorar os lucros das transnacionais das sementes?
Monocultura amplia as variedades de alto rendimento e marginaliza as variedades de espécies tradicionais, que acabam desaparecendo. Todavia, sem ela, como vender tratores, colheitadeiras, pulverizadores e manter-se livre de incômodos trabalhistas?
Não há mais dúvidas de que a questão ambiental, como causa e conseqüência, é uma questão social. Não responderemos a esses dilemas com intervenções técnicas, embora a técnica seja vital na precaução e recuperação do ambiente.
Não se consegue harmonia quando todos cantam a mesma nota, dizia acertadamente Doug Floyd. Por isso mesmo, em se tratando de natureza, o brasileiríssimo e belo Samba de Uma Nota Só não passaria de um samba só.
Uma questão de economia
As causas da tragédia pertencem à seara da economia.
O raciocínio é quase sempre o mesmo:
A soja subiu na Bolsa de Chicago?
Plante soja!
A arroba do boi está em alta na Bovespa?
Passe o correntão na mata e jogue capim!
E, pense rápido: o mundo é infinito; o lucro, imediato; o amanhã não existe.
A terra é só um meio de produção; a natureza, apenas mercadoria.
As causas da erosão da diversidade ecológica nascem das relações que a sociedade humana tem com a natureza porque é daí que saem os modelos de desenvolvimento e seus padrões econômicos associados.
Portanto, as medidas só serão eficazes se entendidas e aprovadas pela sociedade. A comunidade científica tem a tarefa de reunir os elementos necessários para as principais tomadas de decisão. As escolhas sociais e econômicas pertencem ao poder político.
O futuro das espécies depende das opções humanas. Não é difícil entender. O que foi extinto o foi para sempre, mas o que está ameaçado ainda pode ser salvo.

Autor
Luiz Eduardo Cheida é secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná.
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