Amyra El Khalili
São tantos os emails de estudantes preocupados em elaborar dissertações sobre o Protocolo de Quioto e desenvolver estratégias para o Mercado de Carbono, que ficamos, às vezes, sem respostas diante das consultas, muitas vezes, na ansiedade de contemplar os interesses desses jovens à procura de um mercado de trabalho, de oportunidades em outra perspectiva de vida. O que faz com que tantos jovens tenham interesse no tema?
De fato, a mídia tem explorado com ênfase as catrástofes climáticas, divulgadas nos últimos anos, com a ratificação da Rússia, o acordo de Quioto, que consiste no compromisso entre governos e nações na redução dos gases do efeito-estufa, impactantes na camada de ozônio, provocando fortes e incontroláveis mudanças climáticas. Por sua vez os jovens, preocupados com seu futuro, com o mundo em que vivem, sensíveis ao caos da miséria, da desumanidade, da degradação ambiental e da total ingnorância proposital dos poderes públicos, ficam fascinados com as perspectivas que se abrem a partir deste tratado.
Estão procurando sim, através de uma nova forma de pensar, uma maneira de sobreviverem tendo respostas para as incertezas que os cercam. Perguntam-se ‘COMO’ conseguirão reverter este quadro de desolação, do reaquecimento da guerra fria, do desemprego e das inseguranças econômicas. Não querem ficar indiferentes, nem omissos ao quadro político da globalização mundial.
As promessas de recursos para o Protocolo de Quioto com a formação de um mercado de carbono, sensibilizam empresas, governos e banqueiros no pragmatismo imediatista “do que é que eu ganho com isso? “. Por sua vez, os jovens quando nos consultam, vêm com este ranço vicioso de uma expectativa, de também, poder ganhar algo com isso.
Se os outros ganham e pensam desta forma, por que eles, que representam o futuro não poderiam ganhar?
Acontece que os jovens quando se deparam com uma dialética aprofundada sobre o tema, onde o ser humano e o meio ambiente passam a ser o maior ganho com tudo isso, são perspicazes na compreensão de que ninguém ganhará absolutamente nada com isso tudo, se não mudar também a forma de contabilizar estes ganhos. Se não mudar a maneira de agregar esses ganhos, tranformando a máxima de “quanto é que eu ganho com isso” para “quanto e quando é que todos nós ganheremos com isso” e “como é que o planeta responderá a tudo isso”………
No entanto, o acesso às informações ainda é muito restrito. Assim sendo, ao realizar um estudo sobre as conseqüências do Protocolo de Quioto na sociedade internacional, mais precisamente sobre o impacto econômico do Comércio de Emissões de Carbono (Emission Trading) na economia brasileira, é fundamental entender como se dão esses impactos, identificá-los e a partir daí, com fatos científicos e comprobatórios, passar para a área do “cálculo”.
Muitos dos que nos procuram caem em armadilhas da escola ortodoxa econômica ao tentar analisar primeiro os números, produzir modelos matemáticos, quando estas réguas são apenas instrumentos e não objeto.
Exemplifico: O Furacão Katrina, é conseqüência de que? É um fenômeno natural pura e simplesmente, ou está associado a alguma alteração climática? Ainda que seja um fenômeno natural, por que causou tantos estragos na cidade de Nova Orleans? Quais são os números destes estragos?
Números diretos: prejuízos materiais. Números indiretos: as externalidades, com saúde, fome, mortes, traumas, desagregação de pessoas, crises humanitárias, êxodos, etc……
Estes últimos números, as externalidades, podem ser muito superiores aos estragos materiais e, às vezes nem temos como calcular. Por exemplo: quanto vale a vida de um negro? E os brancos, quanto valeriam? Por que estas ajudas não foram eficientes por parte do governo dos EUA? Se fosse na ilha de Manhathan será que o tratamento não seria outro?
É o questionamento que está agora na mídia: é o que chamamos de Environmental Justice, justiça ambiental, movimento que começou nos EUA por que as minorias eram penalizadas ambientalmente. Moram nos piores lugares, onde há riscos, onde há contaminações, onde ninguém quer viver.
Este é um pequeno exemplo. Procurem levantar os principais estudos de casos sociais e ambientais destes impactos e, a partir daí comecem a calcular.
Lembrem se: primeiro refletimos, filosofamos…… para somente depois pragmatizar em números. Nunca façam o contrário, senão cairão na armadilha “reducionista econômica” , como diria a velha professora de Economia, Maria da Conceição Tavares.
O professor Laércio Antônio Gonçalves Jacovine, da Universidade de Viçosa, questiona: Com uma visão estratégica sobre o tema, e muito conhecimento no agrobiologes, sobre um estudo de caso concreto muito interessante, uma intrigante e provocativa lacuna do Protocolo de Quioto: se um produtor rural preservou mananciais e cobertura vegetal em detrimento do aumento de área de produção, por que está sendo penalizado, não podendo ser contemplado pelos critérios do Protocolo de Quioto? E se outros produtores desmataram para plantar grãos, por que estes podem vir a ser contemplados pelo Protocolo de Quioto por outras vias?
O mercado que tem curva de ascensão é o mercado de energia renovável, e não propriamente o mercado de carbono, uma vez que a função dos “créditos de carbono” limita-se à redução de emissões. Assim sendo, o título “crédito de carbono” cumprida sua função, ou seja, reduzir emissões, deverá desaparecer do mercado, tornando-se no linguajar dos brokers, um título “podre”.
Explico: os títulos podres perdem validade com o passar do tempo até zerarem o preço. Daí o nome “podre” – de apodrecer, até deteriorar.
Quem paga hoje um valor alto pelo título crédito de carbono, a princípio, perderia o valor com o tempo. De 200 cairia para 100. De 100 cairia para 50. Até zerar. Acontece que o princípio de um mercado que tende a zerar é começar com preços altos; e não o contrário, com preço baixo para depois subir. É o que está acontecendo com a cotação dos créditos de carbono no mundo. Iniciando sua cotação de baixo para cima e não de cima para baixo.
Observe o Veiling Holambra, leilão de flores em holandês, da cooperativa agrícola de flores de Holambra. A cotação das flores começa de cima para baixo, porque flores são perecíveis. Apodrecem, deterioram se não forem vendidas rapidamente, em tempo hábil.
Então para se ter um mercado de carbono, um mercado que efetivamente cumpra a função de reduzir emissões de poluição, teríamos que ter então um relógio que praticasse a cotação de cima para baixo, e não abrir um leilão a qualquer preço sem um “regulador de mercado”.
Por que Holambra começa de cima para baixo?
Por que no tempo da febre das tulipas holandesas, uma flor de tulipa chegou a custar o preço de uma mansão. O mercado ficou histérico, irreal, fez uma bolha, lançando sobre uma flor, a tulipa, todo tipo de insastifação pessoal, crises políticas, incertezas, traumas econômicos. A febre das Tulipas, foi um dos primeiros casos de Crash das Bolsas no mundo.
Então o mercado delira, perde a razão, a noção da realidade, porque mercado é um conjunto de ações e reações de humanos para humanos. Não é um jogo sistêmico de cálculos e variáveis, que são somente instrumentos, ferramentas. Se está irracional ou quando se limita a isso, daí não é mercado, é manipulação, estelionato, agiotagem.
Os mercados conversam, os mercados dialogam, os mercados vibram, porque neles você encontra interlocutores para tudo. Para qualquer coisa. Para discutir amor, futebol, carnaval, política, meio ambiente. Mercados sem palavras não existem, não se sustentam. Então o mercado de carbono, neste contexto que acabo de narrar, é insustentável.
O que seria sustentável? O mercado de energia renovável.
Há grandes diferenças entre os mercados de carbono e os mercados de commodities ambientais. Sendo este último objeto de nosso estudo e implantação na América Latina e Caribe, a partir da experiência pioneira no Brasil.
E se entendermos que estamos aqui, eu respondendo tantas consultas, por sua vez, nossos co-listados da Rede BECE REBIA lendo agora o que estou escrevendo. Estamos sustentando um mercado, provocando um diálogo, formando uma base mercadológica onde nossos desejos, nossas vontades determinam ações e reações. Percebam a dinâmica dos mercados: eles falam, os mercados conversam. Fale com Sua Eminência Parda: O Mercado.
Essas serão as lições de grande valia para que essas dissertações não se percam no tecnicismo e procurem realizar um estudo humanitário sobre o assunto. Tendo por objetivo traçar uma visão geral sobre os mercados ambientais no Brasil e seus instrumentos econômicos. Se bem trabalhados, serão, sem dúvida, instrumentos de inserção social.
Referências I
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(www.universia.net)
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* Baglione, Marcelo. Revista Brasileira Bioenergia. CENBIO – Centro Nacional de Referência em Biomassa Brasil . ANO I – N.01 – Edição Bilíngue. Lançada no dia 26.08.2002 – na abertura da Cúpula Rio+10 . Investimento verde Sinal livre para o mercado de biomassa. Entrevista com Amyra El Khalili entre outros.
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www.jornaldomeioambiente.com.br.
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http://br.groups.yahoo.com/group/becerebia/
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(http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/cdn/rpsc/rptg/Reportagem.jsp)
* Ecosecurities – Carbon Facility. Boletim 074 [CTA-JMA] Chamada para Projetos de Redução de Emissão de Gases do Efeito Estufa (MDL). 27.01.2005 .(www.ecosecurities.com). Carbon Facility (www.essbcarbonfacility.com)
* El Khalili, Amyra. O que são Créditos de Carbono? . Revista ECO21 Edição 74 – Janeiro de 2003 -(www.eco21.com.br)
Autora
Amyra El Khalili é economista, idealizadora & fundadora do Projeto BECE. Com duas décadas de experiência nos Mercados Futuros e de Capitais, tendo ocupado cargos relevantes em Corretoras e Bancos de Investimentos. Foi “dealer” do Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, Bombril S/A, Grupo Vicunha entre outros. É profunda conhecedora do Sistema de Garantias e Salvaguardas da BM&F. Foi Professora de Engenharia e Estratégias de Operações em Risco em cursos de extensão da FEA/FIPE/ESALQ- USP/FGV/BM&F/BCSP/ESPM entre outras. Conferencista em diversos seminários para o Ministério Público Federal, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Reforma Agrária, Ministério da Agricultura, Ministério das Ciências e Tecnologia, IBAMA, Embrapa entre outros. Participou do Lançamento dos Contratos de Commodities Agropecuárias da BM&F, em especial, fez a Rota da Soja com 30.000 Km e centenas de vôos implantando instrumentos derivativos. Trabalhou no Projeto de Reconstrução Econômica no Líbano em apoio ao Estado Palestino nos Acordos de Oslo (93). É Co-Editora da Rede BECE-REBIA, Membro do Conselho Editorial do Jornal do Meio Ambiente (Editado por Vilmar Berna Premio Global 500 da ONU para Meio Ambiente). Fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e Movimento Portas Abertas: Dois Estados para Dois Povos. Indicada com louvor para o “Prêmio 1000 Mulheres para o Nobel da Paz” com endosso de pacifistas israelo-palestinos e diversas comunidades email: (www.bece.org.br) –
email: ongcta@terra.com.br
Referências II
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* El Khalili, Amyra. MDL- Créditos de Carbono para Quem? A história se repete. Boletim 0725 [CTA-JMA]. 05.12.2004.* El Khalili, Amyra. Ciência, Tecnologia para Inclusão Social: O PROJETO BECE. Sexta com Ciência. Secis – Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social – MCT. Ministério da Ciência e Tecnologia. 17 de Setembro de 2004. Boletim 0682 [CTA-JMA]. 12.07.2004.
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* Festival Virtual Africano. Ouça no www.digitalafricaschool.com/festival.htm
Amyra El Khalili > Projeto BECE
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