Seca ameaça Península Ibérica

Segundo despachos de várias agências internacionais de notícias uma intensa seca está assolando a Península Ibérica se mostrando particularmente severa na Espanha, Portugal e Marrocos. A preocupação agora, com o intenso calor do verão europeu, é a possibilidade de incêndios florestais e as conseqüências econômicas pela perda de colheitas.

Esta que já está sendo considerada como a pior seca desde a década de 1940 pode ter como resultado um aumento da inflação e redução do crescimento econômico. Nos três países a previsão é de que as perdas na agricultura superem os 50%. O Governo do Marrocos já teme um êxodo rural para os subúrbios das cidades fazendo aumentar o contingente de desempregados.

Os agricultores espanhóis estimam enormes perdas e até mesmo os apicultores amargam prejuízos por falta de flores para alimentar as colméias. Ao lado disso já se percebem aumentos consideráveis nos preços das forragens.

A preocupação agora é com o aumento de mais de 50% nos focos de incêndio em relação aos dados do ano passado. Em Portugal, que perdeu cerca de 10% de seus bosques em 2003, as estimativas indicam que já estão ocorrendo mais do que o dobro dos pequenos incêndios registrados nos últimos cinco anos.

O Instituto Nacional de Meteorologia (INM) não prevê para agosto precipitações de nenhum tipo que possam resolver a situação de seca na Espanha e espera que as temperaturas sejam as habituais da época, com certa tendência para mais amenas ou quentes por zonas, em uma ou outra quinzena, segundo o chefe do Serviço de Previsão do Instituto Nacional de Meteorologia, Angel River.

Os banhados e reservatórios perderam na última semana 1,6% da água que armazenavam, o que levou, pela primeira vez desde julho de 1999, as reservas a se situarem abaixo de 50% da capacidade total.

Desde 31 de maio, os reservatórios perderam mais de 10% de sua capacidade total. A situação atual significa que as reservas estão 19% mais baixas do que no ano passado; 13,9% menores que a média dos últimos cinco anos; e 10,8% menos que a média da última década.

Seca mostra a diferença de desenvolvimento entre África e Europa

Alicia Fraerman – Envolverde/ IPS

Madri, 01/08/2005 – A seca que afeta vastas regiões da África e Europa mostra a enorme brecha de desenvolvimento entre as duas regiões, pois na primeira a atenção se centra na fome e na morte que provoca, enquanto na segunda se mede sua incidência nos negócios, no turismo e nos subsídios.

Na Europa, a escassez de água leva os governos a tomarem medidas para restringir o consumo e compensatórias para os usuários, que não chegam a passar sede, enquanto nos países africanos mobiliza organizações não-governamentais para tentar minimizar os males da população, embora seu esforço humanitário seja insuficiente.

O consumo médio de água potável na Europa é de 55 mil litros por pessoa ao ano, taxa que duplica nos Estados Unidos e são notoriamente menores na África, onde há países, como o Sudão, que não superam os sete mil litros anuais, segundo o Centro Pan-americano de Engenharia Sanitária e Ciências do Meio Ambiente.

Assim na Somália o preço da água aumentou 350% este ano, provocando a perda de 95% do gado, e na Etiópia seis milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente para matar a sede, enquanto os que passam fome chegam a 30 milhões, em grande parte devido à ausência de água.

Na sexta-feira, o governo espanhol informou que o Comitê de Gestão de Cereais da UE aprovou a concessão a esse país de 41.406 toneladas de milho da Hungria e 2.905 toneladas de cevada da Alemanha, para compensar a queda da produção nacional em razão da mais forte seca dos últimos 60 anos. A concessão faz parte de uma operação especial de intervenção pela qual a UE colocará no mercado espanhol meio milhão de toneladas de cereais até o final do ano.

A Comissão Européia estuda além disso a entrega de mais fundos para subsidiar os agricultores espanhóis e também os portugueses afetados pela seca.

A falta de água, segundo um estudo da UE, poderá provocar na Espanha uma queda de 75% na produção do trigo duro e de 49% no trigo mole, enquanto na cevada a queda pode chegar a 42% em relação a safras anteriores.

Em toda a União Européia, as previsões indicam que nesta colheita, com relação à do ano passado, cairá 24% a produção de trigo duro, 5,2% a de trigo mole, 10% a de cevada e 6% a de milho, embora neste último caso possa haver reduções “drásticas” se não chover nas próximas semanas.

Muito mais aguda é a situação na África onde, por exemplo, 32% dos 12 milhões de habitantes de Níger sofrem de fome, quase a totalidade deles corre perigo de morte por essa razão, segundo a organização não-governamental católica Cáritas. Nesse país africano a seca e uma praga de gafanhotos provocaram este ano um déficit de 223 mil toneladas de cereais.

Problema grave

Sobre a gravidade do problema, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) afirma que a seca de 1984 na Etiópia afetou 8,7 milhões de pessoas, sendo que um milhão morreram e muitos milhões mais sofreram má nutrição e fome.

O Pnud acrescenta que outra seca, em 1991 e 1992, causou na África austral a perda de 54% da colheita de cereais e expôs ao risco de inanição mais de 17 milhões de pessoas.

A agência da Organização das Nações Unidas também recorda que 100 mil africanos morreram devido à seca que nos anos 70 e 80 afetou a região do Sahel, a zona de transição no ocidente do continente entre o deserto do Saara e a área mais fértil ao sul do continente africano. Por outro lado, um exemplo do que ocorre na Europa se está vivendo na Espanha, onde o debate é se deve-se ou não transpor águas de algumas regiões do país para outras, ao mesmo tempo em que se conhece a decisão da Comissão Européia, o órgão executivo da União Européia, de dispor do abastecimento de cereais e subsídios para minimizar as perdas ocasionadas pela seca.

A água na Europa na Internet

Convênio sobre a Proteção e Utilização dos Cursos de Agua Transfronteriços e Lagos Internacionais (Comissão Econômica das Nações Unidas para Europa, CEPE)

www.unece.org

Este site inclui informação sobre o Convênio de Água, o Protocolo sobre Água e Saúde e o Protocolo sobre Responsabilidade Civil, assim como informação sobre água e acidentes industriais, reuniões, cooperação transfronteiriça, documentos, publicações.

Política da União Européia relativa à Água

http://europa.eu.int

Este site contém informação sobre vários protocolos e programas, entre eles, a nova Política Européia relativa à água: Gestão de Bacias (Diretiva Marco da Água); Diretiva sobre a Qualidade das Águas de Banho; Diretiva sobre a Qualidade da Água Potável.

Centro Europeu para a Restauração dos Rios (ECRR)

www.ecrr.org

Este site inclui informação sobre centros nacionais, publicações, visitas guiadas a diferentes projetos de restauração de rios nos países europeus e reuniões.

Associação Européia da Água (EWA)

www.ewpca.de

Este site inclui informação sobre as atividades da associação, temas relacionados e acesso ao boletim informativo da EWA.

Golfe e o consumo da água

Na Espanha, uma questão que chama poderosamente a atenção é a água utilizada para irrigar parte dos 276 campos de golfe existentes no país, que ocupam uma superfície de 15 mil hectares e que nos próximos dois anos serão mais de 400.

O setor turístico defende fortemente a manutenção desses mantos verdes, pois cerca de 800 mil turistas chegam anualmente à Espanha atraídos por esse esporte. Por isso, Juan Antonio, membro da ONG Ecologistas em Ação, afirma que “alguém terá que decidir se o que queremos é turismo ou deserto”, porque considera inconcebível que o interesse comercial esteja acima da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentável.

Entretanto, há os que defendem o uso da água para o golfe. Um deles é Alberto Recarte, vice-presidente da Sociedade da Informação e do Conhecimento da Espanha, uma instituição privada vinculada a grandes empresas. Recarte afirma que, em média, o consumo de água nos campos de golfe é menor do que na irrigação, de aproximadamente quatro mil metros cúbicos ao ano por hectare. Além disso, lembra que, segundo dados oficiais, a renda com turismo ligado ao golfe chega a três bilhões de euros anuais (US$ 3,6 bilhões), o que significaria “uma rentabilidade direta e indireta por hectare de golfe de 200 mil euros (US$ 243 mil) por ano”. Por outro lado, acrescenta, “a melhor irrigação agrícola pode render três mil euros (US$ 3.600) ao ano por hectare, devendo-se somar a isso “como contribuição indireta” o valor agregado da indústria hortifruti, se existir’.

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