Cordilheira Branca sob ameaça

Ramiro Escobar – IPS/Envolverde

Huaraz, Peru, 21/06/2005 – “Antes a neve chegava até abaixo. Agora está menor, está diminuindo cada vez mais”, diz em quéchua, seu idioma nativo, Karina, uma camponesa de 20 anos. Estamos a mais de 4.000 metros de altura e aparentemente ouvirmos atrás de nós, silencioso, o nevado Huarapasca, um dos belos maciços da Cordilheira Branca. O testemunho de Karina é preocupante, pois em sua pouca idade, e com seu imaginário andino, já percebe a gravidade do retrocesso glacial, um drama que se acelera nestas alturas, onde se encontram as montanhas mais altas do Peru, vestidas de neve e gelo. Daí seu nome de Cordilheira Branca, parte da serra próxima à costa do oceano Pacífico e cerca de 450 quilômetros ao norte de Lima.

Em conversa com a IPS, Marco Zapata, chefe da Unidade de Glaciologia do Instituto Nacional de Recursos Naturais (Inrena), afirmou que “é um processo que se acelera e em caráter irreversível”. As observações dos especialistas confirmam esta tendência. ”Entre 1948 e 1976, a média de retrocesso da Cordilheira Branca era de 12 metros por ano, mas a partir de 1977 e até o ano passado já chega a 20 metros ao ano”, explicou Zapata, e um simples olhar pelos arredores de Huaraz, capital do departamento de Anchash, corrobora esta afirmação. Diante desta bela cidade ainda se avistam vários picos nevados, como o Ranrapalca, o Vallunaraju (“raju” significa gelo em quéchua) e o Chinchay.

Mas como adverte Porfírio Cacha Macedo, um guia experiente de montanhas altas, outros picos nevados como o Cárhuac e o Rima Rima, que antes tinham geleiras, hoje só mostram uma “superfície pelada”. Antes, “eu vinha contente quando escalava, mas agora, às vezes fico deprimido. É imperdoável o que estamos fazendo à natureza”, disse. Por sua vez, César Portocarrero, engenheiro civil que também realizou medições nas geleiras da Cordilheira Branca, falou à IPS da incidência neste fenômeno do aquecimento global, associado, por sua vez, com o aumento da emissão de gases que retêm o calor na atmosfera (efeito-estufa), entre eles o dióxido de carbono, pela queima de combustíveis fósseis.

Em Ancash, pelo menos 90% das águas do rio Santa, que também abastece regiões vizinhas, provêm, na época da seca, do degelo na Cordilheira Branca. A água do Santa também faz funcionar a vizinha central hidrelétrica do cânion do Pato e chega até Chavimochic, uma gigantesca obra de engenharia hidráulica e hidroenergética para transformar áreas desérticas em terrenos produtivos. Inclusive, a água consumida na cidade de Lima tem, em grande parte, origem glacial. Se se considerar que nas 18 cordilheiras nevadas do Peru se perdeu 446 quilômetros quadrados de gelo nos últimos 30 anos, pode se ver a gravidade do problema e as más perspectivas que se abrem em matéria de abastecimento de água.

Segundo Julio García, funcionário do Conselho Nacional do Meio Ambiente, a perda de geleiras no Peru já equivale a 10 anos de consumo de água em Lima. “É preciso impulsionar já uma política de gestão do desenvolvimento, para neutralizar nossa vulnerabilidade à mudança climática, que já está entre nós”, disse à IPS. O problema é mundial, mas nesta bela região peruana está atingindo proporções alarmantes. Igualmente triste é a situação da Cordilheira Real da Bolívia, no vulcão Cotopaxi do Equador ou no nevado colombiano de Tolima. Uma antiga lenda ancashina diz que a lagoa de Orconcocha se formou com as lágrimas de Huascarán, que agora podem correr até se esgotar.

Fonte: IPS/Envolverde

Temor

Esta cadeia montanhosa é a serra nevada mais alta do mundo em zona tropical e ainda possui 611 quilômetros quadrados de glaciais, alojados em imponentes picos que variam de 5.000 a 6.768 metros de altura acima do nível do mar.

O monte mais alto desta região e do país é o nevado Hascarán, que no dia 31 de maio de 1970 provocou espantosa tragédia na cidade de Yungay, ao despejar sobre ela milhões de metros cúbicos de gelo em razão de um terremoto, matando, pelo menos 20 mil pessoas e levando ao desaparecimento dessa bela cidade. A preocupação atual da população local, entretanto, não é a possibilidade desse tipo de desastre, mas pelo inexorável desaparecimento das geleiras.

Risco para a água

No século XX, a temperatura do planeta aumentou 0,6 graus centígrados, e “se aumentar ainda mais, de 1 a 4 graus como está previsto, o retrocesso das geleiras andinas ocorrerá mais rapidamente”, alertou. Pierre Soler, representante no Peru do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, da França, que colabora com o Estado peruano na observação sistemática de geleiras, disse à IPS que “há um consenso científico de que a ação do homem agrava o problema do aquecimento global e isso afeta as geleiras tropicais”.

Soler, que leva adiante um convênio com o Inrena para fazer um novo inventário de geleiras no Peru, concorda com Zapata de que a conseqüência maior da perda de geleiras andinas é o esgotamento do recurso hídrico na costa e na serra. ”Inicialmente, haverá uma oferta maior de água, mas depois irá se esgotando”, explicou.

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