Antonio Carlos Teixeira
No domingo, 5 de junho de 2005, comemorou-se mais um dia internacional do meio ambiente. A data foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir da resolução 2994 (XXVII) de 15 de Dezembro de 1972, na qual a sua Assembléia Geral estabeleceu esse dia com o objetivo de sensibilizar o mundo para a necessidade de proteger e de valorizar o ambiente. Esta data foi escolhida por ter sido o dia de abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (Estocolmo, 1972), que culminou com a criação do Programa das Nações para o Meio Ambiente (Pnuma).
Em todo o planeta foram realizadas ações ligadas à questão ambiental, o que nos dá forças para continuar acreditando que cada vez mais os seres humanos da Terra estão ampliando sua consciência e responsabilidade sobre os recursos naturais, tão importantes para esta e para as próximas gerações.
Mais do que as importantes comemorações planetárias dessa data, temos que encarar o meio ambiente como algo que faz parte das nossas vidas: sem ar, água e terra não teríamos condições de sobreviver neste planeta, pelo menos com essa concepção de vida que temos…Neste ensaio, quero chamar a atenção para três questões importantes ligadas ao nosso relacionamento e responsabilidade com o ambiente: água, florestas e consumo.
Para a humanidade, a água doce é um recurso vital. Uma aparente abundância observada em rios, lagoas e cachoeiras nos faz pensar e agir como se a água doce fosse inesgotável. Não fazia parte da cultura civilizada de nossos ancestrais uma preocupação com o desperdício desse bem, que hoje sabemos que se pode exaurir.
O Planeta Terra tem uma superfície coberta por 70% de água salgada. De toda água existente no Globo, 97,2% é salgada, isto é, imprópria para o consumo humano. Dos 2,8% restantes, 2,38% estão localizados nos pólos, sob a forma de gelo; 0,39% está no subterrâneo; 0,001% na atmosfera; e 0,029% está nos rios e lagos. Isto significa que para uma população mundial de 6,3 bilhões de pessoas a quantidade de água fresca disponível para consumo imediato é menor comparada com a que está sob a terra e oitenta e duas vezes menos em relação à estocada nos glaciares.
Da década de 1930 até os dias atuais, a triplicação da população da Terra fez com que a demanda pela água aumentasse seis vezes. Hoje, estimativas apontam que a população mundial já está consumindo 50% das reservas de água potável do planeta, o que pode chegar a 75% em 2025, caso o padrão desordenado de consumo seja mantido. Mais: se as nações mais pobres e em desenvolvimento tivessem um consumo igual ao dos países ricos, a humanidade já teria chegado ao dramático índice de 90% das reservas de água potável.
A escassez de água potável atinge hoje 2 bilhões de pessoas, sendo 1 bilhão em áreas urbanas. Caso a água doce ainda continue a ser encarada como um bem infinito, o Pnuma prevê que 2,7 bilhões de pessoas amargarão a sua falta até 2025.
Um estudo divulgado em abril pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) aponta que quase 80 milhões de latinos e caribenhos não têm acesso à água potável, e cerca de 120 milhões não contam com serviços de saneamento. De acordo com o estudo, esta situação se agrava a cada dia por uma crescente contaminação dos recursos hídricos que atinge níveis alarmantes.
Segundo a Cepal, apesar dos 28% de reservas hídricas do mundo que a região possui, alguns países se encontram em estado de “stress”, ou seja, sua disponibilidade de água não é suficiente em relação à necessidade de sua população.
O desperdício de água é sentido principalmente na agricultura: a tradicional produção mundial de alimentos (que não leva em consideração técnicas e práticas orgânicas, agroecológicas ou sustentáveis de plantio) gasta cerca de cinco trilhões de metros cúbicos de água por ano. Para produzir uma tonelada de grãos são necessárias mil toneladas de água. A situação torna-se ainda mais preocupante porque o uso de agrotóxicos e fertilizantes já é a segunda causa de contaminação da água no Brasil. Só perde para o despejo de esgoto doméstico, o grande problema ambiental brasileiro. Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em maio, mostra que do total de 5.281 municípios que têm atividade agrícola 1.134 (21,5%) informaram ter o solo contaminado por agrotóxicos e fertilizantes.
O Brasil detém entre 12% e 17% de toda a água doce da superfície do Planeta e 70% do território (ou 840 mil km) onde está localizado o aqüífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água do mundo, estimada em 45 trilhões de metros cúbicos. A maior parte dos seus 1,2 milhão de quilômetros quadrados está nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A menor parte das reservas do aqüífero é dividida entre Argentina (com 19% do total), Paraguai (6%) e Uruguai (5%).
Mas o país vem dando um mau exemplo na relação com esse recurso natural, pois desperdiça cerca de 40% da água potável destinada ao consumo humano, segundo relatório realizado em 2003 pelo Parlamento Latino Americano. Para a ONU, esse desperdício da água pelos países não deve ultrapassar 20%. Na América Latina, apenas Argentina e Chile apresentam percentuais menores.
O esbanjamento brasileiro de água doce está sendo notado em importantes regiões do país e em classes sociais teoricamente mais esclarecidas. Pesquisa encomendada em 2003 pela organização não-governamental ambientalista WWF revelou que cerca de 70% da população do Distrito Federal, no Centro-Oeste brasileiro, reconhece que haverá problemas de abastecimento de água na região dentro de dez anos. Segundo a pesquisa, mais de 90% dos entrevistados estavam dispostos a reduzir o consumo de água em casa. As maiores resistências foram encontradas em moradores do Plano Piloto, do Lago Norte e do Lago Sul, áreas onde vivem classes que possuem renda e escolaridade mais altas e também onde há maior consumo de água. No Lago Sul, por exemplo, o consumo médio diário é de 605 litros por habitante. Já em Paranoá, cada morador consome apenas 99 litros por dia. Os dois casos estão bem distantes das recomendações da ONU, que considera como adequado o consumo diário de 200 litros por habitante.
A região Centro-Oeste do Brasil detém 16% dos recursos hídricos do País, a segunda maior porção, ficando abaixo apenas da região Norte, onde estão localizados 68% das fontes de água. O Sul registra uma parcela de 7% e o Sudeste, 6%. A região com menor índice de reserva é a Nordeste, com apenas 3% do total.
A água doce é um bem essencial e merece estar na pauta de discussões sobre desenvolvimento e sustentabilidade de governos, organizações civis, ONG’s, empresas, escolas, instituições religiosas, universidades, enfim de toda a sociedade.
É muito importante que mudemos nossa percepção sobre a água. E ações práticas e teóricas de Educação Ambiental podem fazer com que passemos a entendê-la como um recurso natural essencial para a vida e não um bem a ser consumido indiscriminadamente.
Ainda temos muito que fazer para evitar um dano ambiental sem volta para a humanidade. Consumo e descarte de resíduos irresponsáveis, poluição desenfreada dos recursos naturais e desmatamento ganancioso das florestas podem nos levar a uma situação insustentável para a vida na Terra. Mas podemos evitar esta triste, mas viável possibilidade. Basta agirmos e colocarmos em prática a máxima ambiental: pensar globalmente; agir localmente. Ou, pensar no Planeta; agir na sua casa.
Gaia agradece.
Autor
Antonio Carlos Teixeira é jornalista, educador ambiental, voluntário do Parque Nacional da Tijuca (PNT, Rio de Janeiro), coordenador e co-autor do livro “A questão ambiental – desenvolvimento e sustentabilidade”, editor das revistas Cadernos de Seguro (www.cadernosdeseguro.funenseg.org.br) e Revista Brasileira de Risco e Seguro (www.rbrs.com.br)
terragaia@globo.com
O papel das florestas
Além da beleza natural, as florestas têm funções vitais para a sobrevivência do ser humano na Terra. São capazes de absorver gases como o dióxido de carbono (CO²) – um dos responsáveis pelo aquecimento global –, as raízes das árvores colaboram para evitar desmoronamentos de terra, têm atuação fundamental no ciclo de produção de água doce e de formação de chuva e servem como abrigo para outras espécies animais e vegetais.
A mata atlântica é um dos biomas mais ameaçados de extinção do Planeta. Da região original, desde a chegada dos europeus ao Brasil, há mais de 500 anos, restam apenas pouco mais de 7%. Essa situação alarmante é resultado de séculos de exploração da floresta sem regras ou ordenamento. A ocupação predatória impôs à região ações de que tiveram um impacto altamente negativo, como queimadas, desmatamento e derrubada ilegal de árvores. De uma área inicial de 1.306.421 km2 (15% do território brasileiro), que estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul e que atingia quase todo o litoral brasileiro, planalto e serras, a mata atlântica, que já foi a segunda maior floresta tropical úmida brasileira, atualmente está confinada a algumas “manchas”, totalizando apenas cerca de 52 mil km².
Mesmo com toda a degradação que lhe foi imposta, calcula-se que a mata atlântica abriga de 10 a 20 mil espécies de vegetação e 1,6 milhão de espécies de animais e insetos.
Na floresta amazônica a situação também é preocupante. Nos últimos 30 anos, 14% do território legal da floresta (5 milhões de quilômetros quadrados) desapareceu. A conta é do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em recente estudo apresentado à sociedade. Entre agosto de 2003 e agosto de 2004 a floresta perdeu 26 mil quilômetros por causa de desmatamento. Segundo o Ibama, mais de 50% do desmatamento registrado no período – ou cerca de 14 milhões de metros cúbicos de madeira extraída – foi feito ilegalmente. O índice de desmatamento foi 6% maior em relação ao mesmo período entre 2002 e 2003, que registrou quase 22 mil quilômetros quadrados. Quase 50% do aumento foi registrado em Rondônia e sobretudo em Mato Grosso.
Essas formações arbóreas têm importantes influências em nosso bem-estar. As florestas, com suas árvores, plantas e vegetação, também são uma fonte para a criação de remédios e substâncias em benefício da saúde e do asseio das pessoas. Estimativas apontam que apenas 5% da flora mundial já tenha sido estudada em relação à sua potencialidade farmacêutica. Mas acredita-se que 80% da população da Terra usem medicamentos provenientes diretamente de plantas e animais. Na bacia amazônica, cerca de duas mil plantas são utilizadas para curar doenças ou prevenir enfermidades.
Consumo responsável
O consumo responsável é uma das ações que afetam diretamente o meio ambiente. Temos atualmente milhares de pessoas no mundo utilizando aparelhos eletrônicos, como telefones celulares e computadores, por exemplo. Seduzidos por campanhas de marketing milionárias de gigantes da telefonia e da informática, os consumidores mundiais trocam entre um ano e meio e três anos seus aparelhos e descartam seus equipamentos “antigos” sem qualquer cuidado com o meio ambiente, convencidos pelas empresas e pela mídia de que esses utensílios estão “obsoletos”. Baterias e outros componentes eletrônicos desses aparelhos contêm metais pesados, como mercúrio, chumbo e cádmio, perigosos para a saúde e para a natureza.
No Chile, esses computadores e celulares “ultrapassados” estão criando uma verdadeira montanha de lixo eletrônico: mais de cinco milhões de celulares, mais de um milhão e meio de computadores e milhares de televisores, vídeos, gravadores, calculadoras, impressoras e copiadoras já fazem parte deste gigantesco passivo de resíduos eletrônicos e digitais, que estão sendo chamados de “e-waste” ou eletronic waste (lixo eletrônico, em inglês).
Num seminário internacional realizado sobre o tema em outubro, na capital Santiago, alertou-se que apenas 11% do lixo eletrônico produzido no mundo é reciclado. Ou seja, 89% de todo os equipamentos eletrônicos que são descartados no planeta são jogados sem nenhum cuidado no meio ambiente.
Em 1990, 10 mil chilenos possuíam um telefone celular. Em março de 2004 esse número chegou a 7,93 milhões de detentores desses aparelhos em todo o país. A Subsecretaria de Telecomunicações (Subtel) estima que até dezembro do ano passado os usuários desses equipamentos chegariam a 9 milhões. Já os computadores saíram de um patamar de cerca de 100 mil peças vendidas em 1994 para quase 420 mil aparelhos em 2000. Em 2004, os chilenos compraram quase 408 mil computadores.
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