Projeto Hippocampus desvenda o mundo dos cavalos marinhos

Grávidos:

Os machos são os que carregam a bolsa com os ovos fecundados.

As 32 espécies de cavalos marinhos existentes no mundo estão listadas como “vulneráveis” na IUCN Red List (Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza). Porém muito pouco se sabe sobre sua biologia em ambientes naturais. O trabalho que está sendo apresentado nesta edição pretende contribuir ao conhecimento da Biologia de Hippocampus reidi no mangue de Maracaípe e áreas adjacentes, dando inicio à determinação do estado atual de conservação dos cavalos marinhos brasileiros, fornecendo subsídios a trabalhos nas demais áreas e dados consistentes para a elaboração de programas de manejo e conservação de cavalos marinhos. Pretende-se também, implementar programas em Educação Ambiental para uma conscientização pública geral.

O projeto Hippocampus, desde 1994, estuda a biologia básica de cavalos marinhos em condições de laboratório. Visando ao conhecimento da Biologia e do estado atual de conservação dos cavalos marinhos brasileiros, o Projeto foi ampliado, abrangendo os estudos com estes peixes, em ambientes naturais e por este motivo, mudando sua sede de Porto Alegre-RS para Porto de Galinhas, Ipojuca-PE. No Brasil, à exceção do Projeto Hippocampus (SILVEIRA 1997, 1998a,b, 1999, 2000a,b,c,d,e,f 2001), inexistem trabalhos com cavalos marinhos e no mundo, poucos são os pesquisadores que estudam este tema, destacando-se VINCENT (1996), VINCENT & SADLER (1995), VINCENT et al. (1992), VINCENT & PAJARO (1997), LOURIE et al. (1999), entre outros.

Pesca abusiva

A pesca abusiva tem diminuído os estoques naturais de cavalos marinhos em todo o mundo. A China é o maior consumidor deste peixe em termos farmacêuticos, seguida por Taiwan, Hong Kong e Singapura. Os remédios à base de cavalos marinhos dizem aliviar desde asma até a impotência sexual. Em uma farmácia de Hong Kong, o preço de tal droga varia entre 120 e 400 dólares/Kg.

Dados taiwanenses mostram importações de 3 milhões de cavalos marinhos secos em 1993, somente em fonte oficial, fora o contrabando pelo estreito de Taiwan. Os Estados Unidos são um grande consumidor de cavalos marinhos para aquários; em 1987 importaram 20.000 destes peixes, das Filipinas. Na Índia, em 1992, em quatro meses de coleta de cavalos marinhos por moradores locais, foram retirados do ambiente, aproximadamente, 100 mil peixes.

Em todo ano de 1992, a Índia exportou um total de US$ 24.932 por mês em cavalos marinhos, mas em 1995 estima-se que estes valores tenham dobrado. Os compradores comentam que atualmente, existe 25% da oferta que havia em 1992.

Com mais barcos pescando e o tamanho de captura dos cavalos diminuindo até para 25 mm. Inicialmente, eram necessários 250 cavalos marinhos para fazer 1 Kg deste peixe, atualmente são necessários de 350-500/Kg (Vincent, 1996). As Filipinas são dos maiores exportadores e o acompanhamento de seu comércio mostra como o preço oscila em função da oferta.

Em 1994, a Coréia importou 1813 Kg de cavalos marinhos secos (US$ 52.000),em 1995, apenas 303 Kg (US$ 70.200). Estes são apenas alguns dos dados apresentados por Vincent (1996), são dados oficiais dos governos daqueles Países. Existe muita dificuldade em se trabalhar estas informações, pois muitos dados são enganosos, omitidos ou equivocados. Existe também o contrabando que, naturalmente, não é documentado.

Exportação

Outros países que exportam: Austrália, Belize, Brasil, China, Indonésia, Kuwait, Malásia, Tailândia, Emirados Árabes, Estados Unidos e Vietnam. Importadores incluem o Japão, Singapura, Malásia, Coréia do Sul, além dos já mencionados.

Proposta

Na Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora, ocorrida em Gigiri, no Kenia, 10-20 de abril de 2000, os Estados Unidos e a Austrália submeteram um documento com a seguinte proposta:

• Diálogo entre as partes interessadas em cavalos marinhos e outros Syngnathidae: cientistas, representantes das indústrias e comunidade.

• Incentivo para que as pesquisas de taxonomia, distribuição e estudos populacionais

• Quantificar o tráfego nacional e internacional, documentando a captura por espécie, estado de conservação e o impacto do comércio sobre os Syngnathidae e seus ambientes.

Os programas de cultivo em cativeiro designados para reduzir a pressão sobre a população natural de cavalos marinhos, não têm tido, em geral sucesso por causa das dificuldades de criar o juvenil e a repetida retirada de adultos da natureza para manter o estoque de prole (os cultivos são baseados em captura de machos grávidos na natureza). Existe relativo sucesso em cultivos pela indústria Seafarming Development Centre, Sumatra, Indonésia com 53% de sobrevivência do juvenil. No Vietnam também há algum sucesso, mas não se consegue acessar esta tecnologia. Com completo sucesso de cultivo (85% de sobrevivência do juvenil), a Tansmânia (Austrália) cultiva H. abdominalis com sobrevivência de mais de 20 meses. A Cia.Victora (Austrália) tem cultivado até a F2 de H. abdominalis e tem conseguido manter estoques da F1 de Phyllopteryx taeniolatus (dragão do mar). Empresas privadas nos EUA, de cavalos marinhos, têm conseguido fazer produção em grande escala destes peixes em cativeiro para o comércio.

Objetivos da Pesquisa

 Estudo da dinâmica populacional e levantamento dos estoques naturais do cavalo marinho Hippocampus reidi no mangue de Maracaípe e adjacências, Ipojuca, PE,

 Fornecer dados para programas de manejo,

 Determinar um tamanho mínimo para pesca comercial,

 Implementação de programas em Educação Ambiental,

 Instituição de uma Unidade de Conservação em Ipojuca.

O Projeto Hippocampus está com seu laboratório nas dependências do IPA-Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária em Ipojuca, PE. Com o apoio do IPA e da Prefeitura Municipal de Ipojuca, foram iniciados os trabalhos de campo neste ano de 2001 e o grupo está procurando parcerias que possam auxiliar financeiramente este Projeto para que os cavalos marinhos brasileiros sejam conhecidos e preservados.

Contato:

Pesquisadora Rosana Beatriz Silveira – Coordenadora do Projeto Hippocampus

Labaquac-Laboratório de Aqüicultura Marinha

IPA-Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária-CPC Ipojuca

Av. Beira Mar, s/n, Porto de Galinhas, Ipojuca, PE

Fone/fax: 0XX(81)3552 1102 e-mail: labaquac@yahoo.com

Interesse econômico

Mundialmente, por ser espécie de interesse econômico para lojas de aquário e para indústria farmacêutica oriental, tornou-se espécie vulnerável, entrando para a IUNC Red List em 1996. A partir de 1997, todas as espécies de cavalos marinhos foram incluídas no Anexo D da Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Comunidade Européia (Vincent 1994a, 1995a,b).

Poucos estudos têm sido feitos com populações naturais de cavalos marinhos e parâmetros como taxa de crescimento, longevidade e dispersão juvenil permanecem sem estudo para a maioria das 32 espécies. Segundo LOURIE et al. (1999), não se tem idéia de quantos cavalos marinhos são encontrados em estado selvagem e o quanto sua pesca necessita de intervenção, por simples ignorância de sua biologia. Em 1998, novos e incompletos dados de Hong Kong, mostram importações de 13.5 toneladas, somente para aquela região, mostrando que os esforços em estudos para preservação dos cavalos marinhos devem continuar.

No Brasil não há dados

Dados brasileiros sobre pesca de peixes ornamentais marinhos não são conhecidos ou divulgados. Não há controle sobre a pesca para o comércio interior ou para a exportação e não existe lei, em âmbito nacional, de proteção a tais peixes. Entretanto, sabe-se que a pesca do cavalo marinho é abusiva. Os locais de criadouro natural não são respeitados, nem idade ou sexo dos espécimes coletados. São jovens que saem do mar antes de estarem aptos a reproduzir, bem como adultos maduros sexualmente e muitos machos já grávidos, que invariavelmente perdem seus filhotes, ainda dentro da embalagem plástica de viagem, devido ao estresse a que são submetidos, ou nos aquários das lojas que não são adequados a recebê-los.

Decretos

O Estado de São Paulo emitiu, através do Decreto Nº 42.838 de 4 de fevereiro de 1998, sua Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção, onde as duas espécies brasileiras de cavalos marinhos, Hippocampus reidi e H. erectus figuram como espécie vulnerável. O estado de Pernambuco, através do Decreto nº 21.972 de 29 de dezembro de 1999, proíbe a pesca da fauna marinha ornamental em suas águas, onde aí, inclui-se o cavalo marinho. Em trabalho de pilotagem no mangue de Maracaípe (abril/2000), o Projeto Hippocampus constatou, através de exame local e depoimento do próprio Setor de Meio Ambiente, grande redução nas populações de cavalos marinhos, apresentando-se a menos de 20% do estoque original.

Em viagem investigatória, o Projeto Hippocampus visitou 11 corpos d’água, entre o estado de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, no período de 26/2/2001 à 8/3/2001, onde se verificou a extrema pressão antrópica sofrida pelas barras de rios e manguezais do litoral destes Estados. Infelizmente grande parte das regiões estuarinas foram transformadas em corpos receptores de efluentes, tanto da população ribeirinha quanto do comércio e indústria locais.

Este fato naturalmente concorre para o desaparecimento dos cavalos marinhos que encontram nessas regiões, o seu habitat. Também foi constatado o livre comércio desses peixes, no Mercado Público da baía de Paranaguá, PR, onde um espécime desidratado (seco) era vendido por R$ 4,00. Estes espécimes são provenientes da fauna acompanhante da pesca do camarão marinho e, segundo comerciantes só são desidratados para venda e confecção de “remédios” caseiros, quando são encontrados já mortos entre os camarões.

Porém, não foi o que pareceu e o comércio na cidade de Recife, PE, confirmou a suspeita da equipe de pesca exploratória. Em Recife, no Mercado São José, foram encontrados espécimes desidratados com o preço variando entre R$ 2,00 e R$ 10,00 a unidade, de acordo com o tamanho, sendo comercializadas as duas espécies brasileiras. Eram cestos e sacos, cheios desses peixes e com a promessa de fornecimento constante.

Literatura Citada

SILVEIRA, R. B. 1997. Desenvolvimento ontogenético de Hippocampus reidi Ginsburg, 1933 (Pisces, Syngnathiformes, Syngnathidae) em laboratório. Dissertação (Mestrado em Biologia Animal) – Instituto de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 85 p.

_______.1998a. Cavalos marinhos ganham protetora no Brasil. Época 16 (ano 1): 75.

_______.1998b. Projeto Hippocampus. Natureza 9 (ano 11): 21.

_______.1999. Cavalo Marinho – Projeto Hippocampus. Cultivo do Cavalo Marinho em Laboratório. Aquarista Junior 65 (ano 11): 28-29.

_______.2000a. Conhecendo passo a passo: Cavalo marinho – morfologia. Aquarista Junior 72 (ano 13): 29-30.

_______.2000b. Conhecendo passo a passo: Cavalo marinho – biologia. Aquarista Junior 73 (ano 13): 29-30.

_______.2000c. Comportamento reprodutivo e desenvolvimento inicial de Hippocampus reidi Ginsburg, 1933 em laboratório.. Biociências 8 (1): 115-122.

_______.2000d. Desenvolvimento osteológico de Hippocampus reidi Ginsburg (Pisces, Syngnathiformes, Syngnathidae), em laboratório. I. Período embrionário. Revta. bras. Zool. 17(2): 507-513.

_______.2000e. Desenvolvimento osteológico de Hippocampus reidi Ginsburg (Pisces, Syngnathiformes, Syngnathidae), em laboratório. II. Período juvenil. Revta. bras. Zool. 17(2): 515-531.

_______.2000f. Influência dos óleos e graxas sobre o comportamento e desenvolvimento inicial em Hippocampus reidi (Pisces, Syngnathiformes, Syngnathidae) em laboratório. Atlântica 22: 141-147.

_______2001. Alguns aspectos da reprodução e desenvolvimento de cavalos marinhos. In: Embriologia. Garcia, Jeckel & Garcia. Editora Artes Médicas Sul Ltda. (no prelo)

VINCENT, A. C.1996. The International Trade in Seahorse. Traffic International, June, 8 p.

VINCENT, A. C., J; AHNESJÖ, I. & ROSENQVIST, G. 1992. Pipefishes and seahorses: are they all sex role reversed? Trends. Ecol. Evol. 7: 237-241.

VINCENT, A. C. J. & PAJARO, M. G. 1997. Community-based Management for a Sustainable Seahorse Fishery: 761 – 765. In: Developing and Sustainable World Fhisheries Resources – The State of Science and Management. 2º World Fisheries Congress. D. A. Hancock, D. C. Smith, A. Grant, J. P. Beumer (Eds).

VINCENT, A. C. J & SADLER, L. M. 1995. Fathful pair bonds in wild seahorses, Hippocampus whitei. Anim. Behav. 50: 1557-1569.

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