Amyra El Khalili
Coloquei o cartão na caixinha e o sistema me pediu uma senha. Decodifiquei e saquei uma graninha. Era pouco, mas o suficiente para pagar o táxi e tomar um café. Noutro tempo, quando colocava o cartão na caixinha e o sistema me pedia uma senha, eu sacava uma gorda graninha. Dava pra comprar um carro, um apartamento, muita roupa boa na boutique e perfume importado. Nestes dias, ouvi dizer que por que nossas redes de comunicação deram espaço para a respostas da empresa Monsanto, a Economista palestina Amyra El Khalili tinha sido cooptada. Que as “commodities ambientais” não seriam mais sustentáveis, agora eram todas transgênicas.
Fico me perguntando por que temos que mudar de posição e dizer “amém” para algum grupo seja pró ou contra transgênicos. Sim, digo transgênicos por que aprendi debatendo, depois de muita discussão, que biotecnologia quer dizer muita coisa, e que transgenia é apenas uma parte da história da biotecnologia. A gente aprende um bocado quando ouve a versão do outro.
Mas naquele tempo que eu colocava o cartão numa caixinha e sacava uma gorda graninha, eu aprendi que em todos os setores existem interesses econômicos, seja do lado pró e do lado contra. Aprendi que para fazer dinheiro nada melhor que uma boa confusão de conceitos e idéias. Que quando mais confusa for a informação para a imprensa e opinião pública, mais espaços terão os agentes intermediários.
Aprendi que as “tradings” ganham dinheiro de qualquer lado, seja dos prós e dos contras, por que ganham quando o mercado sobe, ao venderem “commodities”, e ganham quando o mercado cai, ao comprarem “commodities”.
Difícil demais foi dizer para o movimento ambientalista, que meio ambiente também tem seus interesses econômicos, ainda que na mentalidade de muitos ativistas eles estejam acima do bem e do mal. Encarnei a economista do diabo, a “capetalista”, falando palavras amaldiçoadas como commodities, mercado, marketing, lucro, prazos e taxas… E com o tempo, exorcizei a expressão “commodities ambientais” que cunhei com lágrimas e sangue.
Fiz a rota da soja em 1995, foram mais de 40 vôos e 30.000 Km rodados em 09 estados brasileiros, correndo o Cerrado de cabo a rabo. Quando voltei desisti do mercado de “commodities”. Estou falando das “commodities convencionais” por que aprendi que de tudo que é lado há interesses econômicos, sejam dos prós e dos contras.
Foi a melhor lição que aprendi. Se me permitem uma análise mercadológica deste grande debate sobre a Lei de Biosegurança, seja para os lados dos prós e dos contras, percebo que a indizível empresa amaldiçoada pelos movimentos ambientalistas e dos direitos humanos corre o grande risco de ficar à deriva de todo o processo de comunicação da qual foi responsável e conseqüentemente se vitimou.
Em breve muitos de seus concorrentes lançarão suas variáveis transgênicas a reboque da regulamentação deste mercado potencial. Então teremos os transgênicos dos prós, que evidentemente serão os da Monsanto; e teremos os transgênicos dos contra, de seus concorrentes. Os transgênicos dos contra serão melhores que os da Monsanto, por que são do bem. Os transgênicos dos prós serão amaldiçoados por toda eternidade, excomungados e demonizados representarão o código e signo de uma Mão que veio para salvar o mundo da fome e encarnou o inferno em forma de marca.
Para os movimentos ambientalistas e sociais, a indizível empresa é a personificação do cão em forma de multinacional, detentora de patentes poderosas com seus genes e seus royalties. A perfeita imagem do capital ianque que expurga os pequenos e exclui a tudo e a todos das decisões e dos mercados. Para esses grupos é uma Mão pesada que vem para detonar o meio ambiente, a saúde humana e privatizar os recursos genéticos. A Mão Demoníaca para essas lideranças é um inferno.
Caberá à insigne empresa compreender o que está produzindo e que imagem pretende fortalecer. Quem realmente quer atingir, e que riscos deseja correr. Qual o jogo que pretende movimentar no tabuleiro de xadrez, e que peças daqui por diante moverá. Se me permite uma análise mercadológica, e se a maldita fosse minha cliente, eu lhe diria: “Não subestime a inteligência dos consumidores, pois estes escolhem a lata de leite condensado no supermercado identificando-a através de uma moça com um balde na cabeça. Marca Imagem é coisa séria. Seja para o bem ou para o mal.”
Dei meu conselho graciosamente por que prefiro continuar colocando meu cartão na caixinha e sacando o suficiente com dignidade para pagar o táxi e o cafezinho.
Há como eu queria ser cooptada pela Monsanto…
Opinião do Leitor
Nome: Darcy Brega Filho – E-mail: manancial@terra.com.br
Comentário: Pessoalmente, não creio que a forte reação de pessoas no mundo inteiro em relação à conduta da Monsanto esteja relacionada apenas com a questão da “biosegurança”. Basta, por exemplo, qualquer pessoa utilizar palavras \”bush + monsanto\” em boas ferramentas de busca na internet que serão encontrados cerca de 260 mil resultados, inclusive com informações como a seguinte chamada: “Bush e Iraque: “Paguem Monsanto ou pereçam!” (www.wervel.be/sojaflitsen/sojaflits-bush_irak_br.htm)
O lado dos agricultores
Para os agricultores, esta Mão se estende num momento onde a competição internacional os expurga para fora do mercado, com os subsídios da agricultura estadunidense, a formação de uma OMC européia e o fortalecimento das moedas estrangeiras do primeiro bloco.
Para estes agricultores os ambientalistas paralisam, atrapalham e os jogam no fundo do poço com suas exigências de certificações ambientais, critérios e manejos. O que não deixa de ter também fortes interesses econômicos. Esta Mão Santa para esses agricultores é uma bênção.
Autora
Amyra El Khalili, é Economista, Presidente da OSC CTA, Idealizadora & Fundadora do Projeto BECE. Com duas décadas de experiência nos Mercados Futuros e de Capitais, tendo ocupado cargos relevantes em Corretoras e Bancos de Investimentos. Foi “dealer” do Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, Bombril S/A, Grupo Vicunha entre outros. É profunda conhecedora do Sistema de Garantias e Salvaguardas da BM&F. Foi Professora de Engenharia e Estratégias de Operações em Risco em cursos de extensão da FEA/FIPE/ESALQ- USP/FGV/BM&F/BCSP/ESPM entre outras. Conferencista em diversos seminários para o Ministério Público Federal, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Reforma Agrária, Ministério da Agricultura, Ministério das Ciências e Tecnologia, IBAMA, Embrapa entre outros. Participou do Lançamento dos Contratos de Commodities Agropecuárias da BM&F, em especial, fez a Rota da Soja com 30.000 Km e centenas de vôos implantando instrumentos derivativos. Trabalhou no Projeto de Reconstrução Econômica no Líbano em apoio ao Estado Palestino nos Acordos de Oslo (93). É Co-Editora da Rede BECE-REBIA, Membro do Conselho Editorial do Jornal do Meio Ambiente (Editado por Vilmar Berna Premio Global 500 da ONU para Meio Ambiente). Fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e Movimento Portas Abertas: Dois Estados para Dois Povos. Indicada para o Prêmio 1000 Mulheres para o Nobel da Paz com endosso de pacifistas israelo-palestinos e diversas comunidades email: (ongcta@terra.com.br) (www.bece.org.br) – (www.ongcta.org.br) – (www.jornaldomeioambiente.com.br)
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