
Excesso de bombeamento, presença de poluentes, ameaça de salinização ou de perda de características como a temperatura de água .são algumas das vulnerabilidades já detectadas pelos estudos que vêm sendo realizados por especialistas do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, dentro da proposta do Programa do Aquífero Guarani (PAG) cuja secretaria executiva está sediada em Montevidéu (Uruguai).
Como forma de aprofundar a análise dessas vulnerabilidades e ao mesmo tempo compor parâmetros que possam servir de base para identificar os mesmo problemas em outros pontos ainda não estudados do Aqüífero foram elaborados quatro projetos que abarcam problemas em pontos distintos.
O primeiro projeto abrange a área próxima às cidades de Santana do Santana do Livramento (RS-Brasil) e Rivera (Uruguai), onde foram detectados índices elevados de nitratos (cuja origem indica poluição por matéria orgânica). Outro está em Ribeirão Preto (SP-Brasil), onde o excesso de bombeamento está causando o afundamento de partes da cidade. Estudos estatísticos de 160 poços na região urbana de Ribeirão Preto demonstram uma tendência para uma inclinação regional de 5 graus na superfície piezométrica de Sudeste a Norte. Um terceiro abrange a região entre Concordia (Argentina) e Salto (Uruguai), onde há uso intensivo das águas termais e as vulnerabilidades são o perigo de baixar as temperaturas da água (o que inviabilizaria a atividade econômica do turismo termal) ou excessiva salinização.
O quarto projeto é em Itapúa (Paraguai). Este projeto piloto se desenvolve em uma zona de ampla exploração agrícola-pecuária, sendo a soja a principal cultura e o gado vacum o mais representativo. Existem planos de irrigação com o objetivo de intensificar ainda mais a agricultura. As pressões de mudança de uso do solo e o possível impacto ambiental destas atividades, evidencia a necessidade de estudar a viabilidade técnico-econômica de realizar um uso sustentável do território, protegendo o Aqüífero Guarani.
Veja no arquivo abaixo uma descrição mais ampla dos quatro projetos.
As vulnerabilidades

Luis Amore – PAG
Como explica o coordenador do programa do Aqüífero Guarani, Luis Amore, estes projetos buscam identificar as conseqüências do uso local das águas do Aqüífero. “Ao contrário do que muitos pensam o Aqüífero não responde como um lago. Ele não pode ser comparado a um mar de água subterrânea contínua. Em alguns pontos o excesso de bombeamento ou uma fonte de poluição podem inviabilizar um uso próximo”. Ele exemplifica que um vazamento de um posto de gasolina, os efluentes de cemitérios e de lixões podem comprometer no aspecto qualidade o uso em um determinado ponto. Por outro lado, o bombeamento intensivo em uma zona confinada (que não se comunica com as demais zonas) pode ser problema do ponto de vista da quantidade.
A proposta é que estes estudos possam traçar cenários futuros de exploração de modo a garantir a sustentabilidade deste uso. “Já sabemos que em zonas de afloramento (onde o manancial está mais próximo da superfície), como em Santana do Santana do Livramento e Ribeirão Preto, há mais riscos se houver intensa atividade urbana e se não houver adequado tratamento do lixo e dos esgotos”.
No que se refere a uma possível exportação de água do Aqüífero pela Prefeitura de Santana do Livramento, Luis Amore, explica que o uso da água subterrânea para abastecimento através de redes públicas é bem diferente do uso industrial (água mineral engarrafada).
Também o secretário nacional de Recursos Hídricos do Brasil, João Bosco Senra, confirma que uma possível exportação de água estaria sujeita aos regramentos estabelecidos para água mineral ou água adicionada de sais, o que não é o caso da água distribuída à população de Santana de Santana do Livramento. “Para aquele tipo de uso é necessária uma infra-estrutura industrial e atender aos padrões e requisitos determinados pelos Ministérios da Saúde e de Minas e Energia”.
Opinião do Leitor
Enquanto não houver um difusão abrangente dos problemas gerados pelo modelo consumista-capitalista-materialista, estaremos fadados a esperar dos técnicos as soluções, que quase sempre são limitadas por aspectos econômicos e políticos. Esse o cerne da questão: valores humanos. O homem pensa na preservação da natureza muito mais devido ao medo das trágicas conseqüências advindas do desequilíbrio ecológico do que por respeito e amor aos reinos naturais. O meio ecológico deverá ser preservado pelo amor dedicado à criação como uma obra divina. (Brasileiro, 1998). BRASILEIRO, E. A nova civilização. Revista Espírita Allan Kardec, 37:15. Goiânia, Paulo de Tarso. 1998.
Walter José Rodrigues Matrangolo – E-mail: waltermatrangolo@hotmail.com.
Santana do Livramento-Rivera
A área deste projeto-piloto concentra uma população urbana de aproximadamente 168.500 habitantes, repartindo-se por partes iguais entre as duas cidades (Rivera-Santana do Livramento). A principal atividade econômica da região está baseada na produção primária, como a criação de gado ovino e bovino, lãs, couros, uva, milho, soja, arroz e o florestamento que se dá fundamentalmente do lado uruguaio e tem um enorme desenvolvimento. Existem outras atividades como as plantações de fumo que não têm grande extensão, mas são importantes por sua influência sobre o aqüífero.
O setor industrial tem pouca relevância em relação aos estabelecimentos agropastoris, mas algumas atividades ali desenvolvidas podem ter forte impacto, como: frigoríficos e matadouros.
O setor comercial representa uma atividade importante de sustento de ambas cidades, onde se destacam por sua quantidade e potencial risco de contaminação do subsolo, os postos de gasolina que só na cidade de Santana do Livramento são 16.
A cobertura de esgoto em Rivera é de apenas 30% e em Santana do Livramento de 40 %, o que constitui um problema para a área piloto. Sem uma cobertura de saneamento suficiente, os esgotos domésticos são descarregados em depósitos subterrâneos, diretamente na zona de recarga do aqüífero; outras vezes por estar o nível de água muito superficial, são despejados in natura, diretamente nas sarjetas escorrendo para os cursos de águas superficiais.
Outro problema existente é o resíduo de um lixão em Rivera que atualmente verte em zona de recarga. Em Santana do Livramento, o lixão foi fechado e os resíduos são dispostos a 300 km da cidade, mas se mantém como um potencial foco de contaminação. As duas cidades fazem um uso intensivo da água do aqüífero para consumo doméstico público.
Os produtos e contribuições principais do projeto piloto são:
1. Inventário e amostragem de poços com vistas à compilação de dados existentes e usos;
2. Elaboração da base cartográfica do projeto-piloto com informação hidroquímica, geoquímica, hidrológica;
3. Elaboração de mapas de vulnerabilidade e das principais áreas de carga potencial de poluição em fontes pontuais e difusas;
4. Avaliação do potencial do aqüífero em escala local;
5.Confecção de um modelo conceitual e numérico;
6. Implementação de uma rede de monitoramento;
7. Montagem de um nó local de um Sistema de Informação do Sistema Aqüífero Guarani articulado com o sistema local existente.
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