Rachel Moreno
Na semana passada vi, na tv uma dona de casa sendo entrevistada a respeito da conveniência dos fabricantes investirem em melhores embalagens para os seus produtos.
E, em seu depoimento, apoiava a medida calcada em argumentos – e embalagens – apontando a ineficiência de uma série destas, na proteção ao produto nela contido, na dificuldade de seu armazenamento e outros parâmetros indicadores do zelo com que as mulheres cuidam da saúde de sua família e administração de seu lar.
Hoje me deparo com uma pequena matéria de meia página na Revista Veja de 26 de janeiro de 2005, revelando que “os supermercados só passaram a ter lucros com os produtos de suas marcas quando investiram em embalagens” e que “melhorar a aparência de suas mercadorias também é um dos principais problemas dos pequenos fabricantes”. Por isso, o Sebrae teria lançado uma linha de crédito para ajudá-los a aprimorar suas embalagens.
Tudo parece estar sendo organizado da melhor maneira possível. A consumidora se queixa da qualidade das embalagens e dá preferência a embalagens de aparência mais sofisticada no ponto de venda; a empresa decide investir “para satisfazê-la” e aumenta a sua margem de lucro em função disso; e o Sebrae oferece crédito para que as empresas menores possam também entrar nesta corrida rumo à melhoria e ao aumento de vendas e lucros.
Acontece que “esqueceram de contar” aos consumidores que a proporção que estas embalagens representam no lixo doméstico produzido diariamente, não é desprezível.
Gilson Lameira de Lima (em “Descontruindo o caos: Lixo”), compara a proporção que estas embalagens representam em grandes metrópoles, contrastando São Paulo, com Paris e Amsterdam, nos permitindo observar o gráfico abaixo, onde podemos inferir a somatória do papelão, plástico duro, latinhas, vidros, metais e trapos – que totalizam 52% do lixo doméstico, na classe média.
● Composição lixo doméstico
Fração orgânica lixo média em Paris = 13,8%; Holanda= 35%; Naíra = 48%
A coleta e tratamento de lixo consomem um orçamento significativo em nossa cidade.
Em 2002, SP consumia R$ 451 milhões (cerca de 5% do orçamento municipal) para os serviços de limpeza pública. Metade destes recursos são gastos pelo sistema de coleta, tratamento e destino final do lixo e a outra metade, pelo serviço de limpeza (varrição de ruas e espaços públicos e serviços gerais de limpeza urbana)
Plantamos e derrubamos árvores e usamos derivados de petróleo para produzir toneladas de embalagens que, por sua vez, produzem toneladas de lixo ao qual o poder local tem que dar algum destino, ignorado pela enorme maioria da população.
Sabemos que classes sociais distintas geram quantidades distintas de lixo – o poder de consumo diferenciado determina não só a quantidade de lixo gerada, como também determina as condições para tratá-lo adequadamente (em casas mais abastadas sobram saquinhos para acomodar o lixo – o que não ocorre nos lares mais modestos, onde o consumo é menor)..
Mas não há informação objetiva, ao alcance efetivo dos cidadãos e consumidores, que responda a suas indagações e curiosidade a cerca do lixo gerado e de seu destino, e que permitam uma contribuição efetiva na solução do problema.
Um nível de consciência e de vontade explícita de colaborar existem – a dona-de-casa, sempre que tem informação, clareza e disponibilidade do serviço de coleta seletiva, se dispõe a separar o lixo, visando ao seu reaproveitamento e minimização do problema. Entretanto, tal disposição é pouco aprofundada, por vezes sendo até objeto de distorções, como quando, às vésperas das eleições, sua importância é minimizada, explorando-se apenas o custo da coleta – sem discutir o seu custo social e ambiental.
Tenho certeza de que, se ao invés de lançar mão destes artifícios de “valorização” de seus produtos, os fabricantes como um todo informassem as consumidoras do quanto economizariam nas suas compras, se abrissem mão destes embelezamentos, estas – devidamente informadas e reasseguradas quanto à qualidade e conservação dos produtos adquiridos – não teriam dúvida em optar pela maior economia e pela contribuição na solução dos problemas ambientais, através da minimização do preço, e do volume de lixo produzido.
Se as consumidoras – (uso o feminino, já que as mulheres, em sua função de donas-de-casa, são responsáveis por 80% do consumo no país, por adquirirem desde a papinha do nenê, até as cuecas do marido) – fossem devida e efetivamente informadas sobre as reais condições de ao menos parte da parafernália que cerca a produção e marketing da sedução que as mobiliza para o consumo, poderiam continuar a exercê-lo, mas de forma mais consciente, responsável e sustentável.
Esqueceram de contar – 2
Antes de sensibilizar e envolver as donas de casa quanto à conveniência de melhorar as embalagens, esqueceram de lhe contar também o quanto este item incide no preço final dos produtos que ela compra.
Assim, ainda segundo a mesma matéria da revista Veja, o custo da embalagem representa:
85% do preço da água mineral engarrafada
70% do preço da ervilha ou milho em conserva
60% do preço do xampu
50% do preço do óleo de soja
30% do preço do leite longa vida
25% do preço dos alimentos congelados
20% do preço da cerveja
15% do preço dos brinquedos
E este custo adicional não decorre da necessidade de proteção adequada dos produtos, mas principalmente da beleza da embalagem, do valor que agrega na imagem de qualidade dos produtos, do seu impacto no ponto de venda, e da disposição que desperta, na consumidora, de pagar mais pelo produto.
Autora
RACHEL MORENO é psicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), com Mestrado (incompleto) em Psicologia (USP) e terminando o seu mestrado (latu sensu) em Meio Ambiente e Sociedade (Escola de Sociologia e Política). Tem especialização em Sexualidade Humana; Dinâmica do Movimento Expressivo e Formação de Terapeuta Corporal É, atualmente, presidente da SBPM – Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado e Opinião (2º. Mandato). Foi presidente da ONG TVer. É sócia Fundadora da CRESALC – Com. Regional de Educação Sexual da América Latina e do Caribe. É associada à Rede Alternativa à Psiquiatria. Trabalha com Pesquisa de Mercado e Opinião. email: moreno@dualtec.com.br
RACHEL MORENO, é co-coordenadora do Setor de Estudos sobre Pesquisas & Opinião, Aspectos Socioambientais e Culturais do Projeto BECE
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