Conta no vermelho

Eduardo Geraque – Agência FAPESP

A Avaliação Sistêmica do Milênio (AEM), conforme mostrou um simpósio sobre o tema realizado sexta-feira (1o/04), em São Paulo, detectou um saldo bastante negativo entre os chamados serviços dos ecossistemas. Dos 24 itens analisados, apenas quatro têm capacidade de aumentar os benefícios para as populações humanas. Outros 15 mostraram declínio e cinco estão em um patamar estável.

Na lista dos “com crédito”, estão principalmente os relacionados com a produção de alimentos. Entre 1960 e 2000, a produção total de comida no mundo aumentou cerca de 2,5 vezes, enquanto a população dobrou de 3 bilhões para 6 bilhões.

“Mesmo assim, ainda existem 4 bilhões de pessoas fora dos mercados e apenas 2 bilhões dentro”, disse Fernando de Almeida, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), à Agência FAPESP. Ele é também um dos dois únicos brasileiros membros do conselho do projeto de Avaliação Sistêmica do Milênio. O outro é o professor José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia, localizado em São Carlos.

Para Almeida, uma das três importantes mensagens da avaliação, que consta de um documento assinado por todo o conselho do projeto, é a necessidade de que esse grande problema ambiental seja analisado por um grupo gestor multissetorial. “Governo, instituições de pesquisa e iniciativa privada precisam pensar juntos”, disse. Olhar os ecossistemas como uma conta corrente é também um dos pontos fundamentais para Almeida.

“É preciso ter em mente – e as análises até agora mostraram isso – que o ecossistema em pé, inteiro, vale mais do que quando ele é degradado”, apontou. Aumentar a percepção dos sistemas naturais, não apenas entre os empresários, mas também entre toda a sociedade, é um dos grandes desafios que se tem agora, na opinião do dirigente da CEBDS.

O exemplo da falta das sardinhas no litoral do Rio de Janeiro, ou das cabras que destruíram algumas ilhas do arquipélago de Galápagos, é utilizado por Almeida para defender seu ponto de vista. “Muitas pessoas pensam na natureza apenas no fim de semana, mas o acesso a água, por exemplo, que já falta em lugares do Brasil como São Paulo, não pode ser pensado dessa forma. Precisamos saber, em algumas situações, se ainda existe tempo”, disse.

As quatro conclusões

* A humanidade mudou os ecossistemas muito mais rápido e intensamente nos últimos 50 anos em comparação com outros períodos. Destaca-se o aumento da demanda de alimentos, água, madeira, fibras e combustíveis. Os especialistas dizem que isto resulta na perda irreversível da diversidade de vida na Terra, ou entre 10% a 30% das espécies de mamíferos, aves e anfíbios em perigo de extinção.

* O incremento do lucro em desenvolvimento econômico e em bem-estar humano produzido pelas mudanças nos ecossistemas, ocorreu em detrimento de outros recursos. Dois recursos – a pesca e a água superaram os níveis que suportariam a demanda atual e ainda menos a futura. Isto diminuirá os beneficios para as futuras gerações.

* Os especialistas também advertem que as variações nos ecossistemas como os desmatamentos, influem na abundância de patógenos humanos, como a malária e o cólera, assim como no risco de surgimento de novas doenças.

* O desafio de reverter a degradação dos ecossistemas só acontecerá em cenários que impliquem significativas mudanças políticas e institucionais. Por exemplo, a proteção dos bosques naturais não só preserva a vida selvagem mas provê fontes de água e reduz as emissões de carbono.

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