Recursos Hídricos – em busca da linguagem de intercâmbio

Alberto J. Palombo

No dia 22 de março apareceram artigos muito interessantes sobre o tema água. Não era de se esperar menos na celebração do Dia Mundial da Água e começo do Decênio Internacional para a Ação, “Água, Fonte de Vida”. Eu recebi uns 20, em diferentes idiomas, e cada um mais interessante do que o outro. Cada ano parece que melhoramos nossa capacidade de entendimento da crise (de manejo) da água, as estatísticas sobre seu uso compartilhado pelos diferentes setores (agricultura, saneamento urbano, energia, meio ambiente, entre outros) se tornou um verdadeiro exercício de agilidade mental para alguns de nós.

Por isso, coloco à consideração dos leitores o tema das estatísticas da água. Parece que os comentaristas esportivos, discutindo sobre a velocidade de lançamento de um “slider” na década de 70 em comparação com os novos lançadores das grandes ligas na primeira década do Terceiro Milênio se tornaram o modelo que nossos especialistas da água adotaram para apresentar e sensibilizar o público sobre o verdadeiro desafio hídrico que se põe a todos em maior ou menor grau. A técnica de lançamento certamente evoluiu muitíssimo, e temos que dar graças aos comentaristas-gurús da estatística por ajudar os atletas a alcançar novas marcas. Mas pensando bem, provavelmente a comparação com o beisebol não seja entendida por muitos…

Então, quem se atreve a explicar aquele gol que o brasileiro Roberto Carlos fez, de falta, em 1999, e que passou por um lado da barreira da defesa saudita a 95 quilômetros por hora? Os professores de Física ainda tentavam explicar a trajetória da bola a caminho das redes, enquanto os demais desfrutamos do espetáculo.

Se você não entende de beisebol ou de futebol, então compreenderá como se sentem aqueles que não pertencem ao seleto grupo de especialistas do tema da água quando tratamos de explicar a importância da capacidade de recarga dos ecossistemas, a taxa de cobertura na rede de coleta de águas servidas e pluviais, a conexão entre as estatísticas de mortinatalidade e a qualidade da água e outros aspectos inteiramente triviais em nosso meio. Enfim, tem sido difícil até agora explicar porque a água é tão importante para a vida, e isso é grave.

Quando traduzimos em números e estatísticas o tema da água, a coisa não parece tão divertida: 30 milhões de pessoas morrem todos os anos por falta de acesso à água limpa e segura. E o pior de tudo é que muitas dessas vidas poderiam ser preservadas, se essas pessoas e aquelas outras que tomam decisões sobre o manejo da água tivessem a informação e o conhecimento à mão.

Mais estatísticas: 27% dos latino-americanos não têm acesso razoável à água potável e 31% não têm serviços mínimos de esgotamento sanitário (OPS, 1997). Mais de 93% da Mata Atlântica no Brasil foi desmatada (MMA, 2004), comprometendo as fontes de água doce de mais de 115 milhões de pessoas, e tudo isso aconteceu no último século. São números tristes, e temos que fazer algo a esse respeito e evitar passar uma vergonha maior ante as futuras gerações.

As Nações Unidas estabeleceram as Metas para o Milênio, e nossos países assumiram o compromisso de reduzir à metade o percentual de pessoas que carecem de acesso à água potável para o ano 2015. Certamente, isto nos obriga a refletir como nossos esforços podem ser utilizados da forma mais eficiente para ajudar a alcançar essas metas.

Em 1992, a Organização Pan-americana da Saúde avaliou as necessidades de investimentos em infra-estrutura para ampliar a cobertura de saneamento na América Latina e Caribe. Essa avaliação se realizou em um momento em que os países da região recém saíam da chamada “década perdida” dos anos 80, quando praticamente todas as economias do hemisfério sofriam sérios problemas para equilibrar suas contas fiscais, e que trouxeram como resultado um endividamento inteiramente insustentável e uma diminuição substancial dos investimentos em saneamento que se arrasta até o presente. Enquanto isto, nosso trabalho de intercâmbio de informação e conhecimento sobre o tema tem sido tímido e o crescimento populacional da região segue a ritmo vertiginoso.

Claro está, a OPS tinha todo um programa dirigido a promover os investimentos em infra-estrutura, melhorias nos sistemas de gestão de serviços públicos e capacitação de seus operadores, somando cerca de US$ 115 bilhões para alcançar cobertura universal em uma década (PIAS, OPS, 1997), ou cerca de US$ 12 bilhões por ano. Este total era (e segue sendo) muito maior que muitas economias da região, o que fez com que a imagem do problema da água adquirisse um adversário adicional: a competição por recursos entre outros temas de grande interesse social, como a educação, a saúde, a segurança pública, e o maior de todos: a pobreza. Entretanto, hoje reconhecemos que o tema da água está ligado a cada um deles, e que pouco ajuda a que se tente resolvê-los de forma isolada.

Algo sob o qual se tem certeza é que todos somos afetados pela gestão deficiente da água, sem importar o país de origem, nível de renda ou educação. Ir além da discussão do conceito da água virtual, o papel da água para a geração de energia, a agricultura ou o saneamento básico é sem dúvida de grande importância. Entretanto, creio que todas estas discussões passam a um segundo plano se antes não tivermos claramente delineada uma estratégia de comunicação para levar todas estas estatísticas e conhecimentos ao plano coloquial, para que aqueles que inclusive não saibam ler ou escrever possam entender a importância da água em suas vidas, e exortá-los a que cuidem dela e a utilizem racionalmente.

Também dentro dessa mesma estratégia e lógica haveria que se tomar em consideração aquelas pessoas e entidades mais abastadas, que constituem 0,5% da população e ostentam 80% da riqueza material do planeta para que contribuam eqüitativamente com a solução deste problema. Sabendo ler, com uma capacidade acima da média para entender o significado de algumas das estatísticas aqui citadas, poucas vezes estas pessoas se sensibilizam com elas, e com o problema da AIDS. Muitas vezes esta minoria adota uma atitude de que “esse problema não é comigo”.

Basta ter a maior cisterna da vizinhança e incluir no orçamento como enchê-la cada vez que se vá esgotando o precioso líquido. E esta solução da cisterna, além de ser uma certeza em algumas circunstâncias, é uma metáfora apropriada para descrever a realidade atual de muitas regiões: a cisterna também pode ser uma bateria de poços, uma represa, ou um sistema de transposição para levar a água aonde já acabou, e que provavelmente terá uma vida útil determinada, esperando que o crescimento da demanda supere a capacidade de geração do sistema e a exacerbação dos conflitos faça que tal solução colapse inevitavelmente em pouco tempo. Que me perdoem meus colegas por esta reflexão um tanto radical, mas peço sua compreensão para dar razão a meu atrevimento, mas essa é a história recente da água.

Por outro lado, a partir da Cúpula da Rio (1992), começaram a proliferar organizações não governamentais, as agências das Nações Unidas e outras de âmbito regional se reposicionaram ao redor do conceito de desenvolvimento sustentável, e se reconheceu que um dos principais insumos era precisamente água limpa para a população e o meio ambiente.

Também apareceram outras redes da água, umas regionais, outras setoriais, e outras globais, inclusive algumas delas com aportes significativos do Banco Mundial.

O que não proliferou na mesma medida foi precisamente a capacidade de intercambiar experiências e conhecimentos através desses canais, deixando de lado o inestimável valor ético de fazer circular o conhecimento sobre a gestão da água e as experiências adquiridas.

Mesmo que tal acervo de conhecimentos esteja disponível de forma dispersa e pouco articulada, o custo de NÃO discuti-lo e levá-lo à prática tem contribuído para o crescimento da dívida fiscal e social que segue aumentando em progressão geométrica.

Ou seja, temos os conhecimentos, dominamos a teoria, podemos fazer as contas, aplicamos as estatísticas, criamos as redes, e não as utilizamos sensivelmente para o propósito para o qual foram criadas: para intercambiar informações e conhecimentos com o objetivo de promover o manejo sustentável da água na região.

Apelando a uma dessas estatísticas e factóides, provavelmente também inspirados em alguma ocorrência emanada de algum comentarista esportivo, lembramos que uma pessoa poderia sobreviver semanas sem comer, mas só agüentaria três dias sem beber água. Lógico, pois estamos compostos de 70% de água em nossa estrutura corporal, e o oxigênio necessário para manter as funções fisiológicas se acaba depois de uns três dias sem repor o vital líquido. Agora, quando não se tem água, de nada serve a estatística, pois igualmente pereceríamos ou comprometeríamos seriamente nossa condição vital e possibilidades de auto-sustentação.

Como cita o Informe das Nações Unidas Sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos no Mundo: Quanto avançamos em direção destas metas [do milênio]? Talvez seja mais importante perguntar quanto caminho nos resta percorrer, e que podemos fazer para apressar o passo?

Talvez daqui a uma década celebraremos um Dia Mundial da Água no qual possamos dizer que todos nossos cidadãos no hemisfério têm água potável e serviços de esgoto, um ambiente saudável que os rodeia, e muitas histórias para contar às margens dos rios que banham nossas cidades.

Nessa ocasião, as estatísticas sobre gestão da água terão perdido a razão de ser, e poderemos considerar como superado um dos grandes paradigmas que temos na atualidade: Compartilhar experiências para que todos ganhemos a água que necessitamos para manter a vida. Esperemos que a Rede Interamericana de Recursos Hídricos possa servir de veículo para levar essas experiências de um lado a outro, onde quer que sejam úteis, e que as futuras gerações entendam melhor da gestão da água. Por isso, necessitamos que a RIRH seja uma rede da água para todos.

Com relação ao futebol e ao beisebol: Não pode ser que uns poucos sejam sempre os que ganhem a Copa. Todos temos pés para chutar a gol e braços para fazer arremessos. É tudo questão de compartilhar o que sabemos fazer melhor. Ao fim e ao cabo, o importante do jogo não é simplesmente ganhar o troféu, mas desfrutar o torneio. O mesmo deve ocorrer com o tema da água.

O papel dos comunicadores

Outro componente que estimo importante dentro da mesma estratégia é incluir uma aproximação entre os profissionais e técnicos da água com os comunicadores sociais.

Um dos gargalos citado pelos comunicadores sociais é precisamente decifrar a linguagem e o jargão de nossos especialistas, e como incluir a gestão integrada da água no dia-a-dia da redação. Uma vez que a gestão incorreta (ou inexistente) da água constitui a raiz dos problemas que afetam a população (por exemplo, secas e inundações), entendendo melhor essa linguagem parece que seria mais fácil para eles divulgarem matérias que possam exortar a suas audiências para que apóiem e adotem medidas de médio e longo prazo para mitigar seus efeitos.

Coisas tão simples como economizar água na hora de lavar pratos, recolher a água de chuva, ou adotar técnicas de conservação na agricultura podem significar grandes avanços no manejo da água, para que ao final todos tenhamos acesso ao mínimo necessário para manter a vida e não ser parte de uma triste estatística no futuro. Em termos hídricos, provavelmente as quantidades de água economizada não seriam significativas. O que é realmente importante é a mudança na atitude cidadã que se traduz em uma gestão mais responsável em outros setores, como a agricultura e a indústria.

Uma vez mais a água ocupa o lugar de destaque em um dia como 22 de março, em que nadamos em um mar de informações e conhecimentos sobre conceitos como a sustentabilidade, tão lógico e pouco entendido pela maioria dos tomadores de decisões. É também irrefutável que os grandes bancos e agências multilaterais, e muitas empresas públicas e privadas que estão sob observação da população, têm adotado e promovem sua imagem como entidades que se preocupam com o meio ambiente e particularmente com a água. Chefes de Estado e membros da realeza já deixaram evidente sua preocupação e inclusive têm chegado a comprometer sua imagem e recursos financeiros de grande magnitude para mitigar o flagelo da falta de água acessível e limpa no mundo.

Em busca das respostas

Mas o que significa tudo isto, diante de tantas estatísticas e conhecimentos detalhados sobre a importância da água para a mesma vida? Será que devemos seguir investindo nosso tempo, esforço e dinheiro em fazer as coisas da forma que temos feito e gerar mais informações, estatísticas e conhecimentos que não temos capacidade de pôr em prática ou divulgar?

Ou será possível mudar nossa estratégia e atitudes para abordar este problema de dimensões globais com o simples fato de compartilhar a informação e o conhecimento que temos adquirido sobre seu manejo?

Até onde será útil manter na memória tantas estatísticas, que possamos citar em nossas intervenções como “mensageiros da água” autodesignados por nossa permanência na profissão de servidor público, comunicador, parte interessada, usuário ou técnico a serviço de alguma empresa do setor hídrico?

O importante, em minha opinião é fazer chegar estas informações a todos, e que cada um assuma o trabalho de compartilhar o que sabe, pois o conhecimento sobre a água só é útil quando todos o compartilham. De outra forma, seguiremos escrevendo mais sobre as perguntas e teremos muitos diagnósticos com menos soluções.

O papel das redes

Quando a Rede Interamericana de Recursos Hídricos (RIRH) foi criada, em 1994, a partir das recomendações do Primeiro Diálogo Interamericano sobre a Gestão da Água, aqueles conceitos tão claros que foram plasmados na Agenda 21 pareciam de fácil entendimento e divulgação. A partir de então, começaram alguns intercâmbios interessantes entre os Everglades da Flórida, o Pantanal Sul-americano, e o planalto do Orenoco, se constituíram outros intercâmbios sobre a forma mais apropriada de apresentar a informação da água na Internet através das chamadas Cúpulas de Informação sobre a Água e se realizaram quatro reuniões hemisféricas para tratar o tema da gestão da água, os chamados Diálogos Interamericanos sobre a Gestão da Água.

Esses esforços, ainda que tímidos, representam um modo diferente de enfrentar os problemas, através da cooperação e intercâmbio direto entre as partes interessadas, e adotando aquelas referências globais como Agenda 21, Princípios de Dublin, e outros que definem a gestão integrada dos recursos hídricos, ampliados pelo compromisso ético e ao mesmo tempo pragmático de intercambiar informações e conhecimentos.

Nesse sentido as declarações e recomendações das reuniões que aconteceram depois do Primeiro Diálogo também vêm apontando para essa necessidade de compartilhar as experiências e promover a cooperação para alcançar o manejo sustentável dos recursos hídricos. Entretanto, as práticas e condições culturais a respeito do intercâmbio da informação têm funcionado muito mais como impedimentos para alcançar a ansiada sustentabilidade e obviamente, também têm freado o desenvolvimento e aplicação de práticas apropriadas para a gestão sustentável da água.

Por isso, a criação da Rede assinalou o início de uma década importante na cronologia do assunto hídrico nas Américas, época em que se tratou de romper mitos sobre compartilhar e divulgar informações e conhecimentos.

Autor

Alberto Palombo é engenheiro industrial e de sistemas, vice-presidente Executivo da HydroEnvironment Company, LLC, e consultor em Recursos Hídricos e Meio Ambiente. Também é fundador da Rede Interamericana de Recursos Hídricos (RIRH) e membro do WaterWeb Consortium e da Iniciativa Pantanal Everglades.

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