
Roger Hamilton, Antisana, Ecuador
Gustavo Mosquera, costurando o tráfego, saiu do centro de Quito, Equador, e dirigiu-se para sudeste, rumo às encostas frias e ventosas do vulcão Antisana. Como diretor técnico de um grupo conservacionista chamado Fundação Antisana, Mosquera tinha um encontro com José Delgado, um fazendeiro criador de ovelhas cuja família possui uma imensa faixa de terra em torno dos flancos do vulcão. Isso poderia ser uma receita para um confronto clássico: o ambientalista barbudo e o fazendeiro que não admite que ninguém venha lhe dizer como administrar seus negócios. Ou poderia ser um daqueles casos relativamente raros em que dois pontos de vista potencialmente contrários encontram base e oportunidades comuns para operar juntos.
Mosquera falou sobre a importância desse ambiente aparentemente desolado, cerca de 4.000 metros acima do nível do mar. Trata-se do páramo, ecossistema das campinas tropicais de elevada altitude que abriga uma extraordinária quantidade de plantas e animais, muitos dos quais não são encontrados em nenhum outro lugar.
Quito depende de uma multiplicidade de riachos das montanhas para grande parte de seu abastecimento de água. O páramo também capta a água da qual depende grande parte da população de Quito. A água proveniente das geleiras do monte Antisana, combinada com a precipitação de chuvas, filtra-se através da vegetação emaranhada para alimentar córregos, riachos e, por fim, rios. Em 1996, engenheiros da EMAAP-Q (Empresa de Alcantarillado y Agua Potable de Quito), entidade pública autônoma, construíram um reservatório para captar essas águas como parte de um projeto de abastecimento de água que era financiado com a ajuda de um empréstimo de US$136 milhões aprovado em 1974. Saindo do reservatório, uma tubulação transporta a água a uma média de 1,5 metro cúbico por segundo para cerca de 320.000 moradores da zona sul de Quito (Para saber mais sobre esse projeto, veja link à direita, “Água para o futuro”).
A maioria dos moradores da cidade não tem conhecimento desse e de outros benefícios ambientais proporcionados pelo páramo. “Quando se pergunta a um quitenho de onde vem a água, ele dirá que vem de um hidrante”, disse Mosquera. De fato, num parque no centro de Quito ergue-se a enorme escultura de uma torneira. Dessa peça isolada de encanamento flui uma copiosa corrente de água sem fonte ou conexão aparente. Somente um observador astuto encontraria nas montanhas, lá no horizonte, a resposta para esse enigma.
O projeto de abastecimento de água poderia ter produzido conseqüências desastrosas para os ecossistemas do páramo que circunda o monte Antisana. Mas logo nas primeiras etapas do planejamento, a EMAAP-Q decidiu que construiria o aqueduto e o reservatório com o menor impacto ambiental possível. Ela não repetiria a experiência de muitos projetos de infra-estrutura, nos quais a gestão ambiental só vem como uma consideração tardia.
A companhia de água precisava de know-how aliado a uma perspectiva ecológica e se voltou para a Fundação Antisana, um grupo criado em 1991 com recursos da USAID, de The Nature Conservancy e dos governos da Suíça, Grã-Bretanha e Holanda.
À medida que prosseguiam as obras do projeto, a fundação articulou com o governo a criação da Reserva Ecológica de Antisana, com uma área de 120.000 hectares. Finalmente, o governo contratou a fundação para transformar a reserva em uma realidade funcional destinada a proteger os recursos hídricos de Antisana, bem como suas espécies e ecossistemas ameaçados.
O trabalho de gerir a reserva não resultava apenas da experiência ambiental da fundação, mas também de suas habilidades em trabalhar com pessoas. Cerca de metade da área da reserva é terra de propriedade da família Delgado. Outras terras de propriedade privada vizinhas da reserva também são decisivas para o funcionamento do ecossistema. Mosquera considera os proprietários de terra um componente necessário da equação da gestão.
“Grandes pecuaristas, cooperativas de pequenos produtores, comunidades indígenas – trabalhamos com todos eles”, disse ele. “Em certo sentido, os proprietários estão prestando um serviço gratuito e não só para a população de Quito, mas para a humanidade, por protegerem plantas e animais.”
Em vez de um confronto, parecia agora que o encontro com Delgado seria, afinal, afável.
Seguindo com o carro mais acima na montanha, Mosquera passou por uma massa de lava vulcânica que havia preenchido um vale e se solidificado durante uma das erupções do monte Antisana, a última das quais ocorreu em 1802. O ar se tornou mais úmido e frio.
A estrada passava por uma série de rochedos no extremo distante de um pequeno vale, que alguns condores remanescentes na área usam para fazer seus ninhos. Três íbis andinas passaram voando e pousaram próximo à estrada, propiciando uma boa visão de seu peito branco e elegante bico curvo.
O páramo é abrigo para uma fauna que atrai turistas observadores de aves, disse Mosquera. A área poderia atrair muito mais turistas, e sua fundação está ajudando proprietários particulares a projetar instalações de turismo que propiciarão a geração de renda com um baixo impacto ambiental.
A principal tarefa dos seis técnicos e três trabalhadores de extensão rural é ajudar os proprietários a desenvolver práticas que não prejudiquem sua atividade e, em certos casos, até aumentem seus rendimentos. Pastagens melhores, por exemplo, possibilitam que os pecuaristas criem o mesmo número de animais com menos terra; em seguida, ele podem deixar suas áreas íngremes e facilmente erodidas fora dos limites da pastagem e permitir que a cobertura natural de plantas se recomponha. A fundação também mostra aos proprietários de terra que o gado preferirá alimentar-se de certos arbustos, reduzindo assim a necessidade de ampliar as pastagens à custa de espécies nativas.
À medida que se aproximava da fazenda de Delgado, a intervalos de alguns quilômetros, Mosquera teve de parar, já que a passagem estava bloqueada por uma barreira vermelha e branca. A cada vez alguém saía de uma pequena guarita para examinar sua permissão de viagem e, depois, cerimoniosamente erguia a cancela. Essa estrada é o único acesso à reserva, tornando a tarefa de controlar a passagem de pessoas muito mais simples do que em áreas de proteção servidas por diversas estradas. “Neste país, uma vez que a pessoa entre numa área, ela fica ali, apesar da lei”.
Diante da última cancela, Mosquera saiu para abraçar Andres Ordonec, um homem mais velho que vestia uma enfunada jaqueta de esqui com insígnias da Reserva Antisana. Anos atrás ele havia trabalhado para o pai do fazendeiro Delgado e agora era um respeitado guardião da memória ambiental da região. Antigamente, disse ele, era comum ver 50 condores em volta de uma vaca morta.
Mosquera continuou pela estrada e então parou numa elevação que dava para um pequeno vale com um aglomerado de prédios modestos. Delgado esperava por ele. Entraram na sede simples e percorreram o corredor, passando por fotos esmaecidas, cabeças e peles de animais embalsamados e uma asa aberta de condor. Em uma sala iluminada pelo sol, instalaram-se em grandes poltronas e beberam chá de uma planta silvestre do páramo.
Conversaram sobre uma reunião próxima na qual Delgado e outros proprietários de terra analisariam detalhes de um plano de gestão para reduzir a erosão, restaurar a vegetação e promover novas atividades produtivas tais como agricultura florestal, aquacultura, agricultura orgânica e turismo.
Delgado reconheceu plenamente o dano causado por suas ovelhas. “Muitos anos atrás, havia pouquíssimas áreas de erosão aqui, mas com o tempo elas aumentaram”, disse ele. “A causa principal são as ovelhas”. Cinco anos atrás ele disse a seus empregados que mantivessem os animais longe das áreas mais frágeis. Ele admitiu que levará 20 anos para que a vegetação se regenere inteiramente. “Mas o importante é dar o primeiro passo”, disse ele.
Delgado estava particularmente entusiasmado com o ecoturismo, vendo nele uma maneira de manter os ganhos de sua fazenda sem reduzir seu rebanho de ovelhas. Mosquera ofereceu a ajuda de sua fundação.
“Afinal, a decisão é do proprietário”, disse Mosquera na viagem de volta a Quito. “Em última instância, ele faz o que melhor lhe convém.”
“Mas, sinceramente”, acrescentou, “os turistas não gostam de ver ovelhas.”
Fonte: BID América
Questão de respeito
A Fundação funciona mais como um órgão de conservação do solo do que como um grupo de defesa ambiental. De fato, Mosquera e seu grupo enfaticamente se distanciaram do que ele considerava grupos ambientalistas radicais e de motivação ideológica.
“Se você assumir uma postura extremista, os proprietários de terra simplesmente dirão: ‘Saia da minha propriedade’”, disse Mosquera. “Conservação é uma questão de respeito, e isso inclui respeito pela propriedade privada.”
Na visão de Mosquera, o homem faz parte da natureza. “Somos uma organização de conservação, mas fazermos conservação incluindo as pessoas”, disse ele. “Não se pode pedir a elas que abandonem sistemas agrícolas que utilizam há 80 anos”. Tampouco se podem ignorar demandas legítimas para o desenvolvimento. “Se tivermos de construir uma estrada para ajudar a melhorar os padrões de vida, vamos construí-la”, disse Mosquera. “Mas vamos construí-la direito!”
Esse ponto de vista pragmático não nega a necessidade de dar plena proteção a áreas particularmente sensíveis ou biologicamente importantes. Mas, mesmo nesses casos, são as pessoas que tomam a decisão de proteger a natureza, com base em seus valores e seus próprios interesses. “Tudo depende do tipo de mundo em que as pessoas desejam viver”, disse Mosquera.
Restaurar os mananciais.
Embora Mosquera acredite que a conservação deve atender as necessidades das pessoas, estas têm obrigação de utilizar a natureza de modo mais sábio. Em particular, ele acha que Quito deve receber sua água de fontes e rios mais próximos da cidade, e não do distante e frágil páramo. A cidade deve recorrer a essas fontes “primárias” porque 60% do fluxo de água das fontes “intermediárias” foram comprometidas pela irrigação ou estão poluídas.
“Quando dizemos que devemos retirar nossa água do páramo, estamos admitindo o fracasso”, disse ele. “Se tivéssemos tomado as medidas adequadas 20 anos atrás, hoje não teríamos de utilizar fontes primárias.”
A questão de explorar a água de Antisana é, naturalmente, um fato consumado. Mas agora se fala em construir um segundo aqueduto a partir de um manancial vizinho para atender Quito. Embora Mosquera seja um firme defensor do páramo, ele não se opõe necessariamente a esses planos. “Não estamos combatendo o progresso”, diz ele, mas pergunta: “Isso é realmente necessário? Uma vez que paremos de gastar água com irrigação e de causar poluição, podemos considerar a construção de um novo aqueduto”.

Internet no combate às invasões
Agência FAPESP – O estudo de como os vírus de computador se espalham pela internet está ajudando ecologistas a prevenir invasões de espécies não-nativas.
Uma nova pesquisa, publicada na terça-feira (1º/3) no Journal of Applied Ecology, da Sociedade Ecológica Britânica, descreve o uso de uma teoria que se baseia no funcionamento da internet para entender as formas de proliferação em lagos canadenses de um tipo de pulga d’água natural da Rússia.
Os pesquisadores Jim Muirhead e Hugh MacIsaac, da Universidade de Windsor, em Ontário, construíram um modelo que compara os lagos com o fluxo de informação pela rede mundial de computadores. Da mesma forma que os vírus de computador, que se espalham mais rapidamente ao atacar os programas de e-mail mais populares, os cientistas analisaram padrões do comportamento do inseto (Bythotrephes longimanus) para avaliar que áreas já invadidas dos lagos funcionam como dutos para estimular e acelerar novas invasões.
Muirhead e MacIsaac descobriram que um único lago, o Lago Kashagwigamog, serviu de via para a proliferação da espécie invasora para outros 39 lagos, que têm sido infectados desde 1989. O tipo de pulga d’água originária da Rússia foi identificada pela primeira vez no Canadá em 1982. Desde então, já se espalhou por pelo menos 57 lagos e sistemas hídricos canadenses.
Segundos os autores, o estudo é importante para que o combate a pragas possa ser feito eficientemente mesmo com recursos limitados. Com a identificação dos dutos de invasão, medidas podem ser adotadas nesses pontos, evitando que os organismos se espalhem para outros locais.
Mais informações: www.blackwellpublishing.com/journals/jpe.
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