Sérgio Luís Boeira
Um dos mais complexos temas da degradação sócio-ambiental e que, talvez por isso mesmo, tenha sido até agora tratado timidamente pelo ambientalismo, é sem dúvida a relação entre carros e ocupação irracional do meio ambiente.
Em Florianópolis, uma cidade em grande parte limitada pela interface entre o ecossistema insular e o mar, esse problema torna-se cada dia mais dramático, com vários pontos de congestionamento. O presente da Ilha de Santa Catarina é o futuro do planeta. E a Lagoa da Conceição antecipa todos os problemas sistêmicos sócio-ambientais. Os aterros sobre o mar e os elevados (viadutos) vão contribuindo para descaracterizar a paisagem, convidando os motoristas a acelerar e os pedestres a caminhar muito mais, em busca de alguma segurança.
No volume “Cidades Sustentáveis”, dos Subsídios à Elaboração da Agenda 21 Brasileira, na página 51, lê-se que a “taxa de motorização passou de 72 hab./automóvel em 1960 para pouco mais de 5hab./automóveis em 1998, devendo chegar a 4,3 em 2005. A quantidade média diária de viagens por habitante deve subir dos 1,5 em 1995 para 1,7 em 2005.
“O reconhecimento de que para transportar 70 pessoas são necessários 50 automóveis ou apenas um ônibus não tem, até a presente data, resultado em alterações sensíveis de padrão”.
Esta questão tem um potencial de vinculação de interesses de ambientalistas e de trabalhadores, das camadas mais pobres das cidades. O transporte coletivo eficiente polui menos, congestiona menos e custa menos, tanto ao meio ambiente quanto à economia doméstica.
Na maior parte do dia, uma grande extensão do sistema viário permanece ociosa, sob o ponto de vista da relação volume/capacidade de tráfego.
Toda essa poluição vai para os céus, em milhões de partículas que, mais tarde, impedirão que o calor do sol se espalhe, depois de chegar ao solo (cimentado). Ao refletir a luz solar de volta para a Terra, essas partículas formam o efeito estufa, que contribui não somente com o degelo das calotas polares e a elevação do nível dos mares, mas também com a agonia dos motoristas dentro de seus carros. A menos que tenham sofisticados e caros sistemas de ar condicionado, que exigem um quase total isolamento em relação ao mundo natural…
Esse modelo de economia perdulária e individualista, que emerge no hemisfério Norte e coloniza as mentes dos cidadãos do hemisfério Sul, é insustentável porque não há Terra, nem combustível, para que todos tenham carros particulares. É um modelo suicida”.
Mais qualidade de vida
“Há necessidade, contudo, de articulação de consciências tanto de ONGs ambientalistas quanto de Sindicatos e movimentos sociais.
Projetos de ciclovia, com a expansão da tradição de Joinville entre trabalhadores, ou com a moda de lazer de classe média, em Florianópolis, podem ser articulados como propostas que visam, fundamentalmente, reduzir o espaço dos carros particulares e melhorar a qualidade de vida de todos”.
“O cimento toma o lugar da sombra, das árvores, prepara a “guerra de todos contra todos”, como Dupuy definiu o trânsito”.
“Nos horários de pico, a velocidade potencial cada vez maior dos carros é cada vez menos utilizada, com um tempo crescente de poluição e desperdício de carros parados ou andando a 10 ou 20 km/h”.
Autor
Sérgio Luís Boeira é doutor em Ciências Humanas (UFSC) e professor de ecologia política na Universidade do Vale do Itajaí – SC. Website: www.sj.univali.br/~slboeira/ Email:
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Rede Comunicação Internacional CTA-UJGOIAS/CES FAU.
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