A formação de recursos humanos em Gestão Ambiental Empresarial

Philippe Pomier Layrargues

A partir do final dos anos 80, a relação nada amigável entre as atividades produtivas e o meio ambiente modificou-se substancialmente no campo das percepções sociais e do imaginário cultural. E felizmente, para melhor.

O atrito entre a economia e a ecologia foi minimizado, o antagonismo entre crescimento econômico e proteção ambiental foi solucionado, a visão meramente desenvolvimentista ficou no passado.

Desde então, a nova sensibilidade transforma a economia e a ecologia em parceiras da moderna concepção produtiva, que agora começa a entender o significado dos constrangimentos ambientais.

Nesse contexto, vislumbra-se um cenário futuro, cada dia mais presente, onde a gestão ambiental empresarial tornou-se sinônimo de produtividade e sobretudo, de competitividade.

É bem verdade que tais mudanças culturais foram um resultado direto das inovações tecnológicas, que permitiram que se chegasse a uma convergência de interesses entre a produção econômica e a conservação ambiental. Em outras palavras, as mudanças tecnológicas proporcionaram a expansão da fronteira da mudança cultural, que ocorre numa outra temporalidade, certamente mais lenta que a da tecnologia.

O mais evidente sinal dessa síntese é a percepção de que o maior “vilão da ecologia”, o setor produtivo, tornou-se o setor privilegiado para conduzir o desenvolvimento sustentável.

Da antiga postura reativa, há consenso entre as lideranças empresariais da necessidade da empresa adotar uma postura pró-ativa no seu desempenho ambiental. Enfim, o ambientalismo empresarial chegou para ficar na comunidade ambientalista, com uma missão privilegiada e específica a cumprir.

Contudo, toda e qualquer mudança cultural implica num determinado tempo de amadurecimento e sobretudo, de aceitação das novas idéias, das novas realidades, que sacodem e ameaçam as velhas e pesadas estruturas historicamente consolidadas.

E uma mudança dessa magnitude merece todo esforço em direção tanto da divulgação das melhores práticas e experiências de sucesso já implementadas, como na qualificação profissional apropriada do inestimável recurso humano que em última análise, será o responsável pela consolidação da nova postura empresarial, pela inovação criativa na busca da harmonização da economia com a ecologia, seja pela transferência ou criação de tecnologias “limpas” no cenário nacional.

E não é só isso. Dada a magnitude das mudanças culturais e tecnológicas recentes, todo universo analítico sobre a interação da atividade produtiva com responsabilidade ambiental sofre uma releitura, à luz de novos conceitos e novas possibilidades de análise de conjuntura, que determinarão a elaboração de cenários tendenciais alternativos do desempenho empresarial.

Nesse sentido, existe atualmente um conjunto notável de manuais de implantação dos Sistemas de Gestão Ambiental, de livros que discutem a temática do ambientalismo empresarial, e de cursos de formação profissional que oferecem a oportunidade da capacitação de recursos humanos em gestão ambiental em todos os níveis hierárquicos das empresas.

Obviamente é condição necessária para a formação profissional obter um contato com temas e conceitos sobre auditoria ambiental, perícia ambiental, licenciamento ambiental, economia do meio ambiente, direito e legislação ambiental, estudos e relatórios de impacto ambiental, planejamento e gerenciamento ambiental, controle de poluição atmosférica, hídrica, sonora e do solo, recuperação e manejo de recursos naturais, e outros assuntos correlatos.

Estas disciplinas fornecem, entretanto, uma visão fragmentada e limitada da dinâmica própria dos processos interativos da empresa com o meio ambiente.

Considerando essa constatação como um fator limitante para uma correta percepção da relação entre a atividade produtiva com responsabilidade ambiental, capaz de proporcionar ao profissional uma apropriada possibilidade de leitura da realidade em que o universo empresarial insere-se no contexto de uma crise ambiental, ou seja, de diagnosticar corretamente suas mútuas relações com a complexidade intrínseca da questão ambiental, entender os limites e possibilidades das novas oportunidades de negócio ditadas pelas exigências de um provável consumidor ou mercado verde, e sobretudo, compreender quais serão os desafios e dilemas bem como a lógica própria de ação empresarial com responsabilidade ambiental; o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Ambientais e Desenvolvimento, vinculado à Universidade do Brasil (NIEAD/UFRJ) está anunciando um curso de aperfeiçoamento em educação ambiental para empresas que transcende a dimensão técnica para discutir também a dimensão política, através de uma abordagem sociológica da gestão ambiental empresarial.

E sobretudo, permite planejar e executar programas de educação ambiental que, de fato, apresentem resultados expressivos.

A discussão destas e outras questões correlatas permitirá uma abordagem diferenciada e mais aprofundada a cerca da natureza e dos movimentos do ambientalismo empresarial na dinâmica da sociedade contemporânea e por isso proporcionará elementos cruciais para a orientação de um processo decisório com maior possibilidade de êxito para a empresa que busca a certificação ambiental, que quer anular seu passivo ambiental e quer adquirir uma postura positiva, verdadeira e consistente para a sociedade, seus colaboradores e consumidores, assumindo a responsabilidade social como meta.

Autor

Philippe Pomier Layrargues é biólogo; especialista em Educação Ambiental (UFF/1990); mestre em Ecologia Social (IFCH/UFRJ); doutorando em Ciências Sociais (IFCH/UNICAMP).

Ecoeficiência

“Se outrora a poluição era compreendida como aquele indesejável mal necessário ao desenvolvimento, agora a poluição é entendida como recurso produtivo desperdiçado.

E no panorama dessas significativas mudanças culturais, desponta o critério da ecoeficiência, sinalizando o sentido do rumo do desenvolvimento, agora sustentável”.

Postura pragmática

“Apesar da notória importância dessas iniciativas, elas carecem ainda do ineditismo ao caírem na postura pragmática da promoção de debates tecnicistas, basicamente voltados à aquisição de informações e conhecimentos provenientes principalmente das ciências ambientais aplicadas à gestão ambiental empresarial”.

Bom desempenho

O pressuposto que orienta esta iniciativa é de que a compreensão dos fundamentos e dos significados do constrangimento ambiental, da certificação ambiental, do mercado e do consumidor verde, da tecnologia limpa, da lógica da ecoeficiência, do controle dos riscos ambientais e tecnológicos, e do significado político-ideológico da gestão ambiental empresarial, permitirá que o profissional elabore uma sólida análise da conjuntura que abraça toda a complexidade dos problemas em questão, condição necessária para um bom desempenho da empresa que anseia por uma atitude ambiental pró-ativa.

Questões-chave

Por isso, propomos uma discussão aprofundada de questões-chave circunscritas à essência da temática, que visam a proporcionar a formação de um profissional melhor qualificado para entender a complexidade e a abrangência da gestão ambiental empresarial:

• O surgimento do ambientalismo empresarial se configura numa apropriação ou transição ideológica relativa ao ambientalismo original?

• Qual a função estratégica desempenhada pelo ambientalismo empresarial no enfrentamento da crise ambiental?

• Quais os fatores determinantes do “esverdeamento das empresas”?

• Quais as alternativas existentes para as atividades produtivas que continuam reativas aos novos modelos de gestão ambiental?

• Qual modelo de Estado poderia entrar em cena como agente público responsável pelo controle do impacto da ação econômica sobre o ambiente, explorando as possibilidades e limites do constrangimento ambiental?

• Qual o significado e a magnitude do imbricamento da sociedade industrial (onde emerge o panorama da escassez dos recursos e da abundância dos dejetos) com a sociedade de risco (onde se reconhece a imprevisibilidade das inovações tecnológicas com seus “efeitos colaterais” negativos)?

• Que ordem de eventos de distúrbio ambiental pode ser enfrentada e solucionada pela lógica própria do capital?

• Qual a possibilidade de criação de uma genuína “consciência ecológica” que abandone a lógica da ação empresarial circunscrita no limite da “consciência econômica”?

• Qual o modelo de educação ambiental e qual o público-alvo dessa modalidade educativa poderia resultar em maior eficácia de resultados?

• Quem são os parceiros atuais e potenciais do ambientalismo empresarial para a articulação conjunta de projetos e programas de educação ambiental?

Leave a Reply

Your email address will not be published.