Ruy Altenfelder
Desenvolvimento Sustentável é “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as futuras gerações”. Esse é um conceito internacional , definido pelo documento Our Common Future, conclusão dos trabalhos realizados em 1987 pela Comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Unced). Há hoje uma certa confusão no Brasil quando se fala em desenvolvimento sustentável, uma vez que muitos estão usando a expressão para designar a expectativa de que o país entre numa fase de crescimento que se mantenha ao longo do tempo, e não seja apenas uma bolha, como já ocorreu outras vezes.
O relatório da Comissão da ONU defende a continuidade do crescimento tanto em países industrializados como em subdesenvolvidos, inclusive ligando a superação da pobreza nestes últimos ao crescimento dos primeiros. Busca também conscientizar para a necessidade de que sejam tomados cuidados e precauções para evitar uma degradação ambiental como conseqüência do progresso.
Trata-se, portanto, de um posicionamento que interessa ao Brasil, como país em desenvolvimento e com uma extraordinária biodiversidade que precisa ser preservada. Esse relatório deu seqüência a uma série de ações e pronunciamentos anteriores, decorrentes da percepção crescente, a partir da década de 1960, que os recursos do nosso planeta são finitos, e que a capacidade de recuperação dos danos ambientais é limitada.
A Conferência sobre o Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972 e a publicação pelo Clube de Roma (Dennis Meadows e outros pesquisadores) do estudo Limites do Crescimento são marcos desse movimento. O estudo concluía que, mantidos os níveis de industrialização, poluição, produção de alimentos e exploração dos recursos naturais, o limite de desenvolvimento do planeta seria atingido, no máximo, em cem anos, provocando uma repentina diminuição da população mundial e da capacidade industrial. O estudo gerou reações contrárias pelo seu pessimismo, que impediria o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos, mas serviu de alerta para a busca de processos de produção ambientalmente responsáveis e para a geração de novos conceitos.
Surgiu assim em 1973, lançado pelo canadense Maurice Strong, o conceito de ecodesenvolvimento, cujos princípios foram formulados por Ignacy Sachs, envolvendo:
# satisfação das necessidades básicas,
# solidariedade com as gerações futuras,
# participação da população envolvida,
#preservação dos recursos naturais e do meio ambiente;
# elaboração de um sistema social que garanta emprego,
# segurança social e respeito a outras culturas e
# programas de educação.
O debate desses princípios levou ao conceito de desenvolvimento sustentável (DS), que envolve os mesmos seis aspectos prioritários.
A Rio 92 foi um grande evento, embora tenham faltado conclusões mais práticas, pela não-aceitação geral dos cronogramas para a eliminação da emissão de CO² e da convenção sobre biodiversidade. Essa forma de desenvolvimento pressupõe a expansão econômica permanente, com melhorias nos indicadores sociais, além da preservação ambiental, o que corresponde precisamente às necessidades do Brasil.
E esse trabalho continua a se desenvolver em todo o mundo. Por essa razão, a Fundação Bunge decidiu que esse será um dos campos a serem homenageados com os Prêmios Moinho Santista e Moinho Santista Juventude em 2004.
A conclusão é que o desenvolvimento sustentável (Sustainable Development) é o melhor caminho para nosso país, possibilitando superar conjuntamente os problemas que hoje enfrentamos nas áreas econômica, educacional, social e ambiental permitindo que deixemos para as próximas gerações um Brasil com melhor qualidade de vida e com condições de continuar a se desenvolver de forma harmônica.
O movimento no Brasil
Nesse mesmo ano, o Brasil criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), resultado das responsabilidades assumidas pelo Governo na Conferência de Estocolmo em 1972.
Antes disso, já havia iniciativas importantes na área ambiental, como a criação de entidades, entre as quais a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN) e a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
Na área oficial, também já existiam organizações precursoras das atuais agências de controle ambiental, entre as quais se destaca a Comissão Intermunicipal de Controle da Poluição do Ar e da Água na grande São Paulo.
Nos anos seguintes, o movimento ambientalista cresceu em todos os segmentos da sociedade, gerando um grande número de entidades (ONGs) e de ações em casos específicos de poluição ou degradação ambiental ou de riscos, alguns dos quais se tornaram paradigmáticos.
Na área empresarial, a preocupação se generalizou e um grupo mais envolvido criou uma entidade voltada ao desenvolvimento sustentável, ligada ao movimento internacional de empresários com esse foco.
Na área científica, começaram a aparecer estudos feitos por especialistas de vários setores: biólogos, geógrafos, químicos, físicos e também dos especialistas sociais, mostrando os riscos do desenvolvimento ambientalmente inadequado e os caminhos da sustentabilidade.
Assim, quando ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992, o país já tinha consciência sobre a necessidade do desenvolvimento sustentável.
Autor
Ruy Altenfelder é superintendente Geral da Fundação Bunge.
Este artigo foi originalmente publicado pelo site Pauta Social – parceiro da Aguaonline.
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