A Embrapa Trigo e a qualidade da água

João Carlos Ignaczak

A ênfase que está se dando ao tema água, em 2004, nos leva a uma

reflexão sobre o que a pesquisa agropecuária tem feito em prol da preservação e da qualidade deste recurso.

A água é elemento imprescindível para a vida e deve ser preservada para garantir a sobrevivência dos seres vivos no planeta Terra. O homem deve estar consciente que, embora a Terra tenha ¾ da sua superfície coberta com água, só 3% desta água é doce e apenas 0,2 % do total é de fácil acesso.

Um terço da humanidade já é afetado pela escassez da água. O Brasil possui 12% da água potável do mundo, e a região Sul 6% da água doce do país. No entanto, a água potável é um recurso natural finito e geograficamente distribuído de forma não uniforme.

O tratamento que as fontes de água tem recebido por parte do homem não tem sido nada racional. Os diferentes cursos d´água têm recebido uma carga enorme de poluentes. Dos centros urbanos, os esgotos cloacais “in natura”, lixos e os resíduos químicos das indústrias. Da área rural, a poluição orgânica com dejetos animais e a poluição química dos insumos utilizados nas lavouras que podem ser arrastados, pelas águas das chuvas, junto com a camada de solo fértil, para dentro dos rios, lagoas e barragens.

No caso da Embrapa Trigo, em seus quase 30 anos de existência, houve significativo avanço no que diz respeito à sustentabilidade ecológica das tecnologias criadas.

A maior contribuição da pesquisa agropecuária para a qualidade da água foi, sem dúvida, o desenvolvimento e a disseminação da prática conservacionista do plantio direto sobre a palha. O uso desta tecnologia nas lavouras diminuiu o nível médio de erosão do solo causada pelo escorrimento das águas da chuva no Sul do país, de 12 t/ha/ano para 1 t/ha/ano. Isto resultou numa redução brutal da quantidade de solo e de partículas de herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes arrastados para dentro dos açudes, riachos, rios e represas. Na década de 1970, a vida útil de uma hidrelétrica era calculada pelas companhias de geração de energia em 20 anos, devido ao grave problema de assoreamento causado pela erosão dos solos. Hoje, não se ouve mais falar deste problema na área de geração de energia elétrica.

Do ponto de vista agropecuário, a tecnologia do plantio direto salvou os solos de uma degradação que levaria, em curto tempo, à sua inutilização para o uso agropecuário e evitou o indesejável recebimento de milhões de toneladas de solos, e detritos químicos misturados, por parte dos recursos hídricos.

A combinação do uso de tecnologias agropecuárias que diminuem a carga de agroquímicos aplicados por área de cultivo com a adoção do sistema plantio direto sobre a palha, sem dúvida alguma, constitui-se num dos mais importantes avanço no sentido da preservação da qualidade da água e a Embrapa Trigo tem o orgulho de ter participado ativamente desta evolução.

Autor

João Carlos Ignaczak é pesquisador da Embrapa Trigo, de Passo Fundo/RS.

Menos agrotóxicos

Na área de melhoramento genético, a criação de novas cultivares de trigo, cevada, triticale e soja sempre esteve voltada para a obtenção de materiais produtivos, de boa qualidade e com resistência às principais doenças da cultura. Embora não se tenha conseguido, para estas culturas, variedades com resistência a todas as doenças que lhe são pertinentes, os materiais sempre apresentam resistência ou tolerância a algumas enfermidades, o que implica na diminuição da necessidade do uso de agrotóxicos.

No trigo, por exemplo, passou-se de recomendações que preconizavam duas a três aplicações de fungicidas de forma sistemática e preventiva para o controle das doenças foliares e da espiga, para as recomendações atuais que sugerem que as aplicações sejam feitas em função de critérios técnicos que, em geral, diminuem o número dessas aplicações para uma ou duas e em alguns anos, em muitas lavouras, para nenhuma.

Os controles biológicos, criados pela pesquisa, para o pulgão do trigo e a lagarta da soja, são dois exemplos significativos de tecnologias que reduziram o uso de agroquímicos nas lavouras. Para o combate dessas pragas, era comum o uso de inseticidas duas a três vezes por ciclo da cultura. Atualmente o controle é eventual e calcula-se, no caso do pulgão do trigo, que o uso de veneno consiste em uma aplicação em 5% da área plantada.

A não aplicação ou a diminuição expressiva do número de aplicações de agrotóxicos sobre as culturas reduz o potencial de possíveis contaminações das águas dos mananciais hídricos, tanto de forma direta como indireta.

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