
Klaus Toepfer – Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e ex-ministro de Meio Ambiente da Alemanha.
O Dia Depois de Amanhã “poderia ser apenas ficção científica, mas o tema central do filme (mudanças climática) não”, sustenta em artigo publicado pelo Tierramérica a autoridade máxima ambiental das Nações Unidas.
Nairobi – É um assunto apocalíptico. Bolas de granizo do tamanho de bolas de tênis assolam Tóquio e tormentas de neve cobrem Nova Delhi. Manhattan, incluindo os escritórios centrais das Nações Unidas em Nova York, ficam submersos em um inverno tipo nuclear. Inclusive, a Estátua da Liberdade não sobrevive. É arrastada por enormes ondas. Esta versão bíblica chega como cortesia da última grande produção de Hollywood O Dia Depois de Amanhã.
Diferente das catástrofes do Velho Testamento, as forças desencadeadas no planeta Terra na película não provêm da fúria de Deus. Estão ligadas aos níveis crescentes de contaminação atmosférica, a partir da queima de carvão e petróleo para o funcionamento de nossos carros, fábricas, escritórios e casas.
O ponto de vista popular sobre as mudanças climáticas ou aquecimento global é que mundo se tornará cada vez mais quente devido ao uso do termo coloquial de “efeito estufa”. Se esperam uma série, O Dia Depois de Amanhã II, então deveriam consultar algum informe recente do Pentágono (Departamento de Defesa dos Estados Unidos).
O filme conclui que o aquecimento global deve “ser visto como uma séria ameaça à estabilidade mundial e que deve ir além do debate científico, deve ser uma preocupação de segurança nacional”. Outros compartilham este ponto de vista. Sir David King, cientista chefe da Grã-Bretanha, descreveu o aquecimento global como uma “ameaça maior do que o terrorismo”. É provável que O Dia Depois de Amanhã esteja aqui e agora mesmo.
Existem outras observações fundamentais. 2003 foi o terceiro amo mais quente em âmbito mundial desde que os registros começaram em 1861. Todos os amos mais quentes ocorreram desde 1990.
Munich Re, uma companhia de resseguro, estima que os desastres naturais em 2003 custaram US$ 60 bilhões.
A principal arma internacional contra o aquecimento global é o Protocolo de Quioto, assinado em 1997. Ele prevê que os países desenvolvidos reduzam as emissões dos gases que provocam o feito estufa em 5,2 % até 2010. Mas ainda não entrou em vigor. Os Estados Unidos se negam a ratificá-lo. A Rússia, cuja ratificação seria suficiente para fazer com que o Protocolo se torne operacional, ainda não se decidiu. Estamos impacientes, mas esperançosos. Impacientes porque afinal, são os mais pobres dos pobres os mais vulneráveis às mudanças climáticas.
Entretanto, devemos acreditar. Em meados do século XX, pouco depois do nascimento dos computadores, ninguém podia predizer os enormes giros econômicos que viriam, como resultado das telecomunicações e a revolução da Internet. Creio que estamos no mesmo ponto, com novas estruturas de intercâmbio financeiro e tecnologias ambientalmente amigáveis que devem ser desenvolvidas se quisermos lutar seriamente contra a mudança do clima.
Muitos podem considerar O Dia Depois de Amanhã como sabedoria de botequim. Esperemos que aqueles que duvidam do aquecimento global não usem isto para denegrir as ameaças reais e genuínas que enfrentamos. Ainda que o filme possa cair na ficção científica o seu tema central está longe de ser ficção.
Sinal de alerta
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, IPCC, composto por cerca de 2 mil cientistas que dão sugestões aos governos e que foi estabelecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA, e pela Organização Meteorológica Mundial, concluiu que há “uma influência humana discernível sobre o clima mundial”.
Os pólos são o primeiro sinal de alerta. No ano passado o Ward Hunt, a maior camada de gelo no Ártico, rompeu. Estava intacta nos últimos 3 mil anos. Recentemente passei alguns dias nessa região, a convite de Borge Brende, ministro de Meio Ambiente da Noruega. Me detive onde há 20 anos um glaciar gigante cobria a terra e que agora desapareceu no horizonte. Os especialistas na área nos dizem que 3,5 quilômetros quadrados de gelo se perdem anualmente.
Fiquei sabendo que ao urso polar, ícone do distante Norte, cada vez dá mais trabalho caçar focas devido ao desaparecimento precoce do gelo. Por isso, cada vez menos ursos nascem, e entre aqueles que estão por chegar ao mundo, muitos terão um peso muito baixo ao nascer. Escutar tudo isto dá calafrios.
Enquanto isto, muitos centros de esqui aos pés da montanha, como Kitzbuehl, poderiam estar logo em dificuldades econômicas, devido à pouca neve que cai nas partes altas da montanha. Nos Himalaias, nossos cientistas detectaram com precisão 50 lagos que há alguns anos eram menos que charcos. Eles se formam rapidamente quando se derretem os glaciares e poderiam transbordar a qualquer momento, enviando torrentes de água aos vales pondo em risco a vida de centenas ou milhares de pessoas.
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