Luiz Pereira de Brito(*), Dinarte Aéda da Silva(*) e Manoel Lucas Filho(*)
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN em parceria com a Companhia de Águas Esgotos do RN/CAERN vem desenvolvendo há dois anos pesquisa em escala real, na Cidade de Parelhas/RN, visando à reutilização dos esgotos tratados na agricultura irrigada.
O campo experimental está localizado em área de assentados vizinha à estação de tratamento de esgotos principal daquela cidade seridoense. O projeto recebe o apoio financeiro do CNPq até abril de 2004, estando prevista sua continuidade dentro do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico- PROSAB, Edital 04 CTHidro MCT/FINEP.
O tratamento dos esgotos sanitários é realizado por meio de uma unidade de tratamento preliminar seguida de uma lagoa facultativa primária e de duas unidades de pós-tratamento dispostas em paralelo: um wetland (alagado) construído de fluxo subsuperficial e um filtro anaeróbio de fluxo descendente.
A lagoa de estabilização é uma tecnologia de tratamento biológico de esgotos bastante difundida e adequada à realidade brasileira: trata-se de um processo biológico, sem mecanização, sem consumo de energia elétrica e sem adição de produtos químicos, de construção e operação simples, e custos baixos. Entretanto, necessita de pós-tratamento para a utilização agrícola de seu efluente, dada às elevadas concentrações de sólidos suspensos presentes no mesmo devido à grande produção de algas no processo.
As unidades de pós-tratamento adotadas na pesquisa mantêm as vantagens das lagoas de estabilização. O Wetland construído e o filtro anaeróbio têm se apresentado como alternativas viáveis tanto técnica quanto economicamente, sobretudo para pequenas comunidades, como é o caso de Parelhas/RN, por se constituírem em tratamentos de baixo custo em termos de capital de investimento, operação e manutenção.
Os sistemas wetland construídos vêm sendo utilizados amplamente na Europa, Estados Unidos e Austrália para o pós-tratamento de esgotos domésticos, no tratamento de águas com baixa contaminação e são considerados eficientes no polimento final de efluentes. Pesquisadores em Brasília experimentaram comparativamente várias alternativas para polimento de efluentes de lagoas de estabilização e as que propiciaram maior remoção de sólidos suspensos foram o filtro anaeróbio de pedra e o wetland construído de fluxo subsuperficial.
Em nossa pesquisa, tanto o wetland quanto o filtro anaeróbio de fluxo descendente funcionam a rigor como unidades de tratamento secundário, fato que constitui uma inovação, principalmente no caso do wetland, considerando-se que é um sistema usualmente projetado para pós-tratamento de efluentes secundários. Outro aspecto a ser considerado, de grande relevância ambiental, é a utilização de rejeito da indústria de cerâmica vermelha (caco de telha) como substrato ou leito suporte do wetland em substituição à areia grossa, brita ou cascalho, estes, materiais escassos na cidade e aquele encontrado com facilidade tendo em vista à presença de várias indústrias cerâmicas na região e do grande volume de rejeito gerado pelas mesmas.
A primeira cultura pesquisada foi o milho híbrido (Zea mays), variedade AG-1051 da AGROCERES, plantada em uma área de aproximadamente 0,5 ha (62,00×80,00m). O preparo do solo constituiu-se de aração, gradagem, nivelamento e confecção de sulcos com espaçamento de 1,00m entre eles. O sistema de irrigação empregado foi do tipo escoamento superficial em sulcos, que utilizou os efluentes pós-tratados nas unidades de tratamento já mencionadas.
As plantas atingiram alturas médias de 1,29m e 1,87m, com idades de 43 e 58 dias após o plantio, respectivamente. Foram colhidas 293 espigas numa área amostral de 60,00 m2 (três sub-áreas de 20,00 m2), projetando-se um total de aproximadamente 24.220 espigas nos 4960,00 m2 cultivados. As espigas apresentaram, em média, comprimento de 13,5 cm e 450 grãos. A produtividade média alcançada foi da ordem de 4800 kg de milho seco/hectare.
Os resultados obtidos nesta primeira etapa foram bastante animadores, entretanto fazem-se necessárias repetições de plantios e pesquisa de outras culturas para que se possa continuar avaliando os diferentes aspectos relacionados com a reutilização de efluentes tratados tais como: eficiência dos sistemas de tratamento dos esgotos e qualidade da água de irrigação, controle da salinidade do solo, nutrição das plantas, manejo da irrigação, aspectos sanitários, impactos ambientais. Neste sentido a inclusão do projeto no Programa de Saneamento Básico é uma medida acertada.
A escassez do semi-árido
A água é um bem precioso em qualquer parte do mundo e nas regiões semi-áridas ganha importância ainda maior pela imensa dificuldade de obtê-la. O reúso planejado dos esgotos sanitários associa às vantagens inegáveis da reciclagem de nutrientes pelas plantas, o fato de funcionar como barreira contra a contaminação ambiental.
O lançamento de efluentes diretamente nos leitos dos rios (geralmente secos) no semi-árido nordestino contribui para poluição das reservas aluviais, as quais, via de regra, constituem-se na única fonte de água para habitantes que vivem nas proximidades das áreas de despejos.
Tecnologia simples
Os pesquisadores adotaram a diretriz norteadora de todas as iniciativas relacionadas com a reutilização de águas: a política de gestão de recursos hídricos para áreas de escassez estabelecida pela Organização das Nações Unidas, segundo a qual “nenhuma água de boa qualidade deve ser utilizada para usos que tolerem águas com qualidade inferior”.
A pesquisa tem como objetivo geral desenvolver tecnologia simples, eficaz e de baixo custo para tratamento de esgotos sanitários e utilização dos efluentes em irrigação de culturas não consumidas cruas (milho, arroz, feijão,…) e na produção de forragem animal (capim elefante, sorgo, oleaginosas,…).
Autores
(*) Professores/pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Sanitária da UFRN.
E-mails: lbrito@ct.ufrn.br; aeda@ct.ufrn.br; lucas@ct.ufrn.br
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