Mark Sommer – Tierramerica
Berkeley – Nas nações industrializadas avançadas passamos 90% de nossas vidas dentro de casa, com poucas conexões com o grande mundo ao ar livre. As modernas técnicas de construção têm nos protegido exitosamente da “mão natureza” – e de outras pessoas -, mas às custas de nosso próprio bem-estar.
Mas nem sempre foi assim. Basta olhar como eram as cidades medievais da Europa ou as características da arquitetura dos povos indígenas para se dar conta de que em outros tempos as pessoas construíam com uma atitude muito mais amistosa para outras pessoas e espécies.
Por que, então, tantas estruturas que construímos em décadas recentes freqüentemente segregantes e inumanas? Por que também às vezes nos causam doenças?
“Casas doenças”, edificadas com materiais que contém substâncias tóxicas, são sintomas de uma estranha síndrome pela qual deixamos que os benefícios a curto prazo e as construções a preços reduzidos se sobreponham à habitabilidade e a durabilidade a longo prazo.
Grande parte do ambiente moderno fabricado pelo homem parece estar planejado para negar toda a relação com a natureza, enquanto ignora a realidade contemporânea dos recursos limitados.
Em resposta a este problema está emergindo uma nova geração de arquitetos e planejadores com uma visão e uma estratégia diferentes. Eles qualificam de “verde” a seu modo de construir, chamam as casas que constróem de “edifícios sustentáveis” e estão estabelecendo novos parâmetros para a construção, baseados em princípios que tendem a unir os seres humanos com seus vizinhos e a natureza.
A pobreza, o desemprego, a emigração para cidades já superpovoadas e os inadequados serviços públicos se combinam em supercidades como São Paulo, Cairo, Manila e Lagos para criar vastos bairros marginais sem serviços de água encanada, eletricidade esgoto, assim como sem possibilidades de emprego, educação e cuidados da saúde.
Com milhões de pessoas sem teto e dezenas de milhões que vivem em casebre de papelão e lata, os arquitetos urbanistas se inclinam a adoção dos materiais tradicionais e fáceis de conseguir como o barro e a palha que têm servido eficazmente durante milhares de anos.
O movimento pós-moderno em favor de casas sustentáveis enfatiza a conservação dos recursos e a reconexão entre as pessoas e a natureza superando um isolamento privilegiado e de lucro privado.
Mas para que seja adotada amplamente essa alternativa deverá também resolver o cerne do assunto, isto é, a necessidade de dar maior valor aos benefícios sociais e ambientais. Os arquitetos urbanistas têm pela frente uma tarefa crucial: levar nas próximas décadas os projetos verdes para além de um negócio da construção sofisticada.
O autor é colunista estadunidense.
Em busca da sustentabilidade
Os edifícios verdes combinam a técnica e a eficiência do projeto de alta tecnologia com materiais de construção naturais como a palha, a pedra e o barro ou a argila. Utilizam também energia solar e eólica e planejamento urbano com distritos livres de carros, ruas de trânsito lento e praças espaçosas que integram as pessoas em uma revitalizada vida social comum.
Enquanto a maioria dos construtores verdes trabalha em escala modesta, alguns aspiram a planejar de novo cidades inteiras segundo os princípios do “novo urbanismo” e inclusive já estão fazendo isto.
Peter Calthorpe, um visionário arquiteto estadunidense, tem conduzido processos coletivos de projetos públicos em seu país para Chicago, Los Ângeles e todo o Estado de Utah.
Ao argumentar que não é necessário reconstruir por completo uma cidade, ele advoga o “preenchimento” de espaços vazios em áreas deprimidas, a favor do projeto para usos e ocupações mistas que impulsionem a interação social entre classes e etnias, e que diminuam o tráfego local a fim de criar “bairros onde se possa caminhar”.
A cidade brasileira de Curitiba, planejada de novo durante as últimas décadas pelo prefeito Jaime Lerner e uma equipe de arquitetos urbanistas, demonstrando de que modo os sistemas inteligentes de transporte urbano podem catalisar uma revitalização da cidade. Mas os desafios que os arquitetos urbanistas enfrentam no mundo em desenvolvimento são muito maiores do que no mundo industrializado.
Leave a Reply