
Pereira de Brito(*), Manoel Lucas Filho(*) e Micheline Dias Moreira(**)
Natal/RN conta com uma experiência extremamente inovadora em termos de uso racional de água. Trata-se de pesquisa realizada no edifício residencial Josefa B. Medeiros, situado, à Rua Professora Dirce Coutinho, S/N, no bairro de Capim Macio, projetado e construído para permitir a reciclagem das águas servidas. Estão à frente desta iniciativa os professores do Programa de Pós-graduação em Engenharia Sanitária da UFRN Manoel Lucas Filho, Luiz Pereira de Brito e a Engª Micheline Dias Moreira, que defendeu sua dissertação de mestrado neste tema.
Os fundamentos de partida dos pesquisadores da UFRN foram os estudos apresentados durante a Habitat 2, a Conferência das Nações Unidas em Istambul (Turquia), divulgados pela SABESP-Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, através do seu Programa de Economia de Água em Edifícios. Segundo estes estudos, metade da água potável dos países em desenvolvimento é ilegalmente desviada ou desperdiçada.
Os desperdícios ocorrem na captação, distribuição e principalmente ao chegar ao destino final (consumidores).Para os pesquisadores, se perdas de água na rede pública já são consideradas de difícil controle, as que ocorrem dentro das residências não podem sequer ser medidas. Para se ter uma idéia, num banho tomado em 15 minutos, são gastos em média 242 litros de água potável, quando é possível gastar-se somente 81 litros. As maiores vilãs dos desperdícios domésticos são, porém, as válvulas de descarga das bacias sanitárias.
De acordo com pesquisa realizada pela Companhia de Saneamento de São Paulo (Sabesp), que levou em conta as particularidades de cada família analisada, seu poder econômico, bem como o local no qual a mesma está inserida, constatou-se que a peça que apresenta um maior consumo em uma residência é a bacia sanitária (de 30 a 40% do total da água), seguida do chuveiro (20 a 30%), lavadora de roupas e tanque (10 a 20%) e lavatório (8 a 15%).
O edifício modelo encontra-se hoje totalmente habitado e projeta-se uma economia do consumo de água potável no mesmo em torno de 2,88 m3/dia, 86,4 m3/mês e de 1.036,8 m3/ano, admitindo-se que as bacias sanitárias gastam 36% do total geral, considerando-se cinco pessoas por apartamento e o consumo de 200 litros/pessoa.dia.
Desta forma, o investimento na infra-estrutura para permitir a nova concepção de instalação predial, da ordem de 0,48% do custo final da obra, deverá ter retorno no final do terceiro ano.
Para a infra-estrutura pública de tratamento e distribuição de água, dentro de um cenário futurista, projetam-se resultados muito favoráveis em termos de economia de recursos hídricos e materiais, quando sistemas como o do edifício “Josefa B. Medeiros” forem implantados em larga escala nas cidades brasileiras. Os benefícios para o meio ambiente também serão sentidos, na medida em que se reduzirão significativamente o consumo de água potável e conseqüentemente de geração de águas residuárias.
O projeto, que recebe apoio financeiro do CNPq, estabelece, portanto, as bases para implantação de uma cultura de uso racional de água em edifícios, evitando os desperdícios e introduzindo o costume da reciclagem da água em consonância com a política de gestão para áreas carentes de recursos hídricos, formulada desde 1958 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas: “a não ser que exista grande disponibilidade, nenhuma água de boa qualidade deve ser utilizada para usos que tolerem águas com qualidade inferior”.
Desperdício
O custo da água tratada é elevado. Utilizar-se em torno de 35% de toda água potável disponível numa edificação com descarga de bacias sanitárias, é considerado um grande desperdício de recursos naturais e financeiros, uma vez que este uso não exige água com este nível de qualidade e, em edificações residenciais, pode ser disponibilizada toda água utilizada nos lavatórios, chuveiros, tanque e máquinas de lavar roupa para esse fim.
Adequações
Para a realização da pesquisa, foram necessárias adequações nas instalações hidrossanitárias, executadas na fase de construção do edifício “Josefa B. Medeiros”, constituído de cinco pavimentos (pilotis mais quatro pavimentos tipo), dois apartamentos por andar, perfazendo um total de oito unidades unifamiliares.
Estas adequações visaram à coleta das águas provenientes dos chuveiros, lavatórios, tanques, máquinas de lavar roupa, bem como das águas pluviais e o armazenamento dessas em tanque de recirculação e filtragem com rebombeamento para reservatório superior construído abaixo do reservatório de água potável.
Contemplaram também as possibilidades de alimentar todas as válvulas de descarga das bacias sanitárias ora com água reciclada ora com água potável, conforme a necessidade/vontade do condomínio.
Autores
(*) Professores/pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Sanitária da UFRN.
(**) Engenheira Civil e Mestre em Engenharia Sanitária, Bolsista DTI-7E do CNPq.
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