Marcos Terena
Agora que estamos começando um novo ano e vivendo a realidade do Século XXI, como povos pantaneiros, devemos buscar uma nova aliança e uma nova consciência sobre a realidade do Pantanal como ponto estratégico e valioso para o bem estar da ecologia e da humanidade, principalmente, diante da aproximação da grande crise gerada pela modernidade e novas tecnologias, que é a falta, a escassez da água potável, a água de beber.
Como Índio Pantaneiro, sempre consideramos os valores da nossa região como os animais e o homem nativo e aqueles que para cá vieram em busca do bem viver como a os vaqueiros, os camponeses, a estrada de ferro, as fazendas e as cidades circunvizinhas, pois todos passaram a viver e a sobreviver exclusivamente da respiração do Pantanal, como o tempo da chuva e o tempo da seca, ou seja, todos se tornaram partes dessas terras e dessas águas.
Um detalhe muito importante era o engajamento voluntário, participativo de todos os pantaneiros, sem um conceito de educação ambiental ou política pública gerada pelos observadores, mas de uma sabedoria e ciência na convivência com a natureza, de usufruto sem devastação, conhecimentos apenas daqueles que respiram, dormem e acordam sob as estrelas dessa região.
Por outro lado, não podemos desconsiderar a linguagem da modernidade, a linguagem do futuro, como a mídia, imprensa, rádio, televisão e internet, como fatores de um novo diálogo através da música, da poesia e da notícia, tipicamente regional que fortalece essas relações num momento em que toda a humanidade usa a tecnologia para impor a paz através da guerra, enquanto buscamos a paz e o respeito mútuo com a proteção das águas, dos rios, da terra e a biodiversidade.
Por isso, quando olhamos em direção ao futuro, não podemos esquecer dos rastros de nossos antepassados e nem descartar os novos conhecimentos, pois tudo o que ocorre ao Pantanal, torna-se um ato de responsabilidade para nossos filhos, netos e as futuras gerações.
Assim, temos o compromisso de vigiar, de educar, inclusive os sistemas de governos, para o verdadeiro sentido de proteção da vida pantaneira, e nós os Índios, os grandes mudos da história, queremos contribuir na busca de uma nova aliança que supere o preconceito e a exclusão, afinal o bem viver, como povos irmãos, não pode ser decidido por andarilhos e estrangeiros, que nem sabe discernir um pacu de um lambari, somos nós.
Valores
Talvez, os Povos Indígenas que ao longo do tempo souberam cultivar a cultura, a espiritualidade do Pantanal, tenham se transformados em pobres, reduzidos a pequenos territórios sem qualquer condição de desenvolvimento econômico e sustentável, mas souberam suportar o peso dessa fatalidade, mantendo línguas e tradições que hoje, soam como valores importantes para a sobrevivência de toda a Terra, e isso, não é um privilégio apenas dos Índios, mas que deve ser compartilhado como a roda do mate, por todos os que nascem, vivem e morrem para alimentar esse território doado pelo Criador.
Autor
Marcos Terena é Índio do Pantanal do Mato Grosso do Sul e articulador dos direitos indígenas e ambientais junto à ONU. E-mail: marcosterena@uol.com.br
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