“Te vejo em 2080”

M. Fehr, fehrsilva@lycos.com

Os leigos do assunto não sabem, mas o momento de verdade para a comunidade internacional da gestão ambiental ocorrerá em 2080. Conforme os prognósticos de crescimento demográfico, nesse ano a população terrestre atingirá o patamar constante de 10 bilhões de pessoas. O pragmatismo jornalístico da revista americana Scientific American objetivamente colocou a expectativa no papel já em 1997 (março, p. 20). Uma reportagem da revista alemã Der Spiegel indagou em 2000 sobre a conseqüência do citado patamar para a distribuição da qualidade de vida e das riquezas naturais no mundo (No 20 pp. 141-168).

Em termos mundiais a interpretação é uma só, e todo gestor ambiental a conhece: Uma vez atingido o patamar, por cada pessoa que nascer, outra morrerá simplesmente porque a capacidade de suporte da Terra foi ultrapassada. O gestor ambiental também sabe que há vários cenários possíveis da situação da humanidade em 2080.

O espaço aqui permite apenas esboçar o cenário geral que aceita a igualdade de oportunidades e comportamentos de todos os seres humanos. Outros cenários que admitem uma estratificação social dessas mesmas oportunidades e comportamentos são possíveis, muito embora sua caracterização seja mais complexa e mais subjetiva.

O que segue procura esboçar as perspectivas em termos de água potável, de área cultivável ou asfaltável e de resíduos sólidos urbanos (RSU), três das principais pegadas ecológicas, para nosso encontro de 2080.

O exemplo das pegadas ecológicas impressiona: Em 2000 cada pessoa dispunha de 6000 m² de área cultivável para se alimentar. Em 2080, disporia de 3600 m². Só uma agricultura mais eficiente poderia atender a necessidade. Esse ponto por si só já abre discussões pertinentes sobre mecanização e sementes mais resistentes. A população urbana viveria em áreas menores. Ao invés dos 300 m² em 2000 cada cidadão disporia de apenas 180 m² em 2080.

A pegada ecológica de uma pessoa ou de uma comunidade é a superfície terrestre que precisa para se alimentar e manter seu estilo de vida. A extrapolação de 2003 (hoje) até 2080 pode ser feita por um pequeno exercício aritmético.

O cálculo pragmático supõe que as pegadas ecológicas da humanidade atingiram já em 2000 seu valor máximo possível. Isso significa que a oferta de água potável e de solo cultivável e asfaltável não mais podia ser aumentada. Aqueles que comparecessem ao nosso encontro, relatariam a evolução do cenário geral.

A base de cálculo referente à água potável já foi explicada na edição 146 da Águaonline (www.aguaonline.com.br (edição 146, fevereiro de 2003, p.1).

Em 2000, cada um dos 6 bilhões (6×109) habitantes da Terra consumia 120 litros/dia, fato que esgotou a oferta mundial de 720 bilhões (720×109) litros/dia de água potável. Considera-se que em 2000 dos 511,2 milhões de km² de superfície terrestre, 7% ou 36 milhões de km² estavam disponíveis para cultivo, industrialização e moradia, fato que esgotou a oferta mundial de terreno utilizável.

As áreas urbanas ocupavam 5% ou 1,8 milhão de km² desse terreno utilizável e os aterros de RSU ocupavam 1% das áreas urbanas ou 18.000 km². O crescimento demográfico de 0,6406 % por ano elevaria a população mundial de 6 a 10 bilhões de 2000 a 2080 (6×1,006406 (80) = 10).

No mesmo período o aumento de geração de RSU provocado pelo crescimento demográfico e pelos hábitos induzidos de consumo obrigaria as cidades a construírem 1 aterro a cada 16 anos. Tal fato elevaria a área ocupada por aterros a 1+80/16 = 6% das áreas urbanas.

A tabela a seguir compara as situações de 2000 e 2080 em base de modelos de crescimento e de gestão de resíduos constantes.

 

Ano

2000

Ano

2080

Número

de habitantes terrestres

6

bilhões (6×109)

10

bilhões (10×109)

Água

potável disponível por habitante por dia

120

litros

72

litros (120x(6/10))

Água

potável total disponível (120x6x109)

720

bilhões de litros por dia

720

bilhões de litros por dia, inalterado

Terreno

cultivável e asfaltável total disponível

36

milhões de km2 (36×106)

36

milhões de km2, inalterado

Terreno

urbano = 5% disso

1,8

milhões de km2 (36x106x0,05)

1,8

milhões de km2, inalterado

Terreno

cultivável e asfaltável disponível por habitante

6000

m2 (36×106/6×109)

3600

m2 (6000x(6/10))

Terreno

urbano por habitante = 5% disso

300

m2 (6000×0,05)

180

m2 (300x(6/10))

Terreno

urbano livre em % do disponível que é 1,8 milhões de km2

1,782

milhões de km2 (99% do disponível 1,8x106x0,99)

1,692

milhões de km2

(94%

do disponível 1,8x106x0,94)

Terreno

urbano ocupado por aterros

18000

km2 (1% do disponível 1,8x106x0,01)

108000

km2 (6% do disponível 1,8x106x0,06)

Terreno

urbano livre por habitante

297

m2 (1,782×106/6×109)

169

m2 (1,692×106/10×109)

Terreno

urbano ocupado por aterros por habitante

3

m2 (18000/6×109)

11

m2 (108000/10×109)

Nosso encontro ainda não aconteceu. Muitas condicionantes ainda serão invocadas para modificar os cálculos gerais aqui apresentados. Mesmo assim, o panorama esboçado abre uma perspectiva pragmática sobre a vida em 2080.

80 anos representam aproximadamente 3 gerações. Dependendo de sua idade, seus netos ou seus bisnetos comporiam os 10 bilhões de habitantes terrestres de 2080.

Caberia encerrar com três perguntas ao leitor:

Você gostaria de viver em 2080?

Você considera válido o esforço da gestão pró-ativa de RSU e participaria espontaneamente?

Quais são os ensinamentos e os valores que Você pretende transmitir a eles em preparação ao grande encontro?

Fatalidade e esperanças

Os participantes do nosso encontro admitiriam as fatalidades e as esperanças inerentes no quadro ao lado. As fatalidades se referem ao crescimento demográfico, à disponibilidade de água potável e à disponibilidade de área cultivável e asfaltável.

Nos 80 anos corridos não teria sido possível alterar nenhum desses três parâmetros por vontade humana. A Mãe Terra teria tido que encontrar seu equilíbrio natural que a partir de 2080, com população constante, seria mantido.

Cada habitante disporia de 72 litros por dia de água potável, de 3600 m² de terreno para cultivar seus alimentos e construir sua moradia, de 169 m² de terreno urbano para ganhar seu sustento e curtir seu estilo de vida e de 11 m² para depositar seus dejetos. O modelo supõe que todo esgoto seria tratado e devolvido ao respectivo curso de água.

As esperanças se referem à gestão de RSU que é a única situação não fatal do contexto descrito. Representantes de algumas cidades pioneiras relatariam experiências bem sucedidas com a gestão pró-ativa e participativa dos RSU que modificaria a relação entre o terreno urbano disponível e o terreno urbano indisponibilizado por aterros.

A fatalidade da área urbana indica para 2080 um total de 180 m² por pessoa. No modelo clássico de gestão todos os RSU são aterrados, e a área se divide em 169 m² de terreno disponível e 11 m² de aterros. Essa relação se modificaria anualmente pela continuada geração de RSU.

No modelo pró-ativo, 80% dos RSU são desviados do aterro. Conseqüentemente, apenas 11*(1-0,8) = 2 m² são ocupados pelo aterro, e 180-2 = 178 m² são disponíveis para fins nobres. O resultado mostra que com a gestão correta de RSU, a área ocupada por aterros seria mantida constante em 1% do terreno urbano nos 80 anos corridos (3 / 300 ~ 2 / 180). A fatalidade seria desafiada e vencida.

Autor

Manfred Fehr é professor da Universidade Federal de Uberlândia. Desenvolve modelos gerenciais que permitam tornar nossas cidades sustentáveis. Modelos já construídos incluem a gestão pró-ativa da água potável e dos resíduos sólidos urbanos. Publicou mais de 200 trabalhos e é citado em mais de 40 enciclopédias biográficas internacionais.

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