Empresas de saneamento destroem valor

Os pesquisadores Francisco Mendes de Alencar Filho , Tito Belchior Silva Moreira e Paulo Roberto Amorim Loureiro, da Universidade Católica de Brasília – UCB, desenvolveram um trabalho com o objetivo de avaliar o desempenho das Companhias Estaduais de Saneamento Básico (CESBs), por meio da metodologia denominada Valor Econômico Agregado (EVA), que é compatível com o modelo de Fluxo de Caixa Descontado, aceito, universalmente, para avaliar o desempenho financeiro de empresas que atuam em setores da economia formal.

Como forma de validar a consistência dos resultados gerados pelo EVA foi desenvolvido o Índice de Performance Agregado, para medir o desempenho de gestão operacional da empresa. Foram utilizados dados coletados, nos demonstrativos financeiros de 26 empresas concernentes aos exercícios de 1998 a 2001; sendo, então, realizado um estudo comparativo entre o Índice de Performance, montado com os dados de gestão operacional, considerando os números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), e os dados econômico-financeiros para a confecção do EVA.

Nesta pesquisa a proposta foi avaliar o desempenho das companhias de saneamento, sustentado na concepção de Criação de Valor. Nessa abordagem são consideradas as variáveis fundamentais de rentabilidade, o risco e o custo de oportunidade dos acionistas, fundamentais para apurar o Valor Econômico Agregado (EVA), e, ainda, para mensurar as estratégias adotadas pela empresa que contribuíram para a criação ou a destruição de valor. “Este trabalho não analisa a relação custo-benefício das atividades das Companhias de Saneamento Básico (CESBs), nem as suas possíveis externalidades, sejam elas positivas ou negativas”explica Francisco Alencar Filho.

Os pesquisadores destacam que o estudo pretende ser uma contribuição para a orientação das políticas públicas no setor de saneamento do Brasil. Ficou demonstrado por meio da pesquisa, que o desempenho setorial das CESBs, medido pelo Valor Econômico Agregado (EVA), no período de 1998 a 2001, foi inferior, relativamente, à média de 1998. Este resultado pode ser explicado pelos baixos retornos sobre o capital investido e pelo seu elevado custo médio ponderado, resultando em um spread de rentabilidade econômica negativo.

Para avaliar a consistência do resultado do EVA, foi aplicado o índice de performance agregado, que é resultante da situação econômica e operacional das CESBs e comprovou-se que o desempenho de gestão das companhias decresceu em relação ao ano de 1998. Conclui-se, assim, que os resultados obtidos pelo EVA foram corroborados pelos resultados observados a partir dos indicadores de performance. A evolução dos dois indicadores pode ser observada no gráfico 1.

Diante dos resultados apresentados, os pesquisadores sugerem uma reformulação mais profunda no modelo de gestão, em particular quanto aos aspectos operacional e financeiro. Esta reformulação pode ser efetuada a partir da definição de estratégias explícitas que permitam otimizar o processo setorial compreendendo objetivos, orçamentos, programas e pré-definição dos planos operacionais, associado com maior inversão de capital. Este seria, então, direcionado para incrementar o desempenho operacional das CESBs.

Segundo avaliam, desta forma, procurar-se-ia reduzir as perdas operacionais (definidas pela diferença entre o volume de água produzido e o volume de água faturado). Outra providência seria a elevação da produtividade, que poderia ser alcançada a partir do aperfeiçoamento das técnicas inerentes ao “modus operandi” quanto ao tratamento de água e ao esgoto coletado, perseguindo a redução dos custos operacionais, que hoje situam-se em patamares elevados.

Efetuada a reformulação esboçada, o Poder Público, poderia desdobrar o contexto de benefícios sociais à população, não só quanto ao número de famílias atendidas, mas também quanto à qualidade do serviço oferecido sem, contudo, prejudicar o objetivo básico de maximização de lucro de uma empresa competitiva.

Empresas de saneamento

destroem valorGráfico

1 – Índice medido pelo EVA e pela Performance de Gestão

 

APÊNDICES

– TABELAS APÊNDICE A –

Tabela

1. EVA por Companhia, 1998 – 2001(em milhares de reais)

Empresas

1998

1999

2000

2001

Sabesp

(SP)

-1.238.045

-2.435.965

-1.218.310

-2.040.465

Agespisa

(PI)

-84.767

-133.551

-99.245

-111.984

Caema

(MA)

-197.811

-328.419

-236.951

-272.796

Caer

(RO)

-20.403

-24.311

-24.756

-35.842

Caerd

(RD)

-28.746

-44.998

-27.460

-97.326

Caern

(RN)

-37.417

-49.945

-43.166

-48.362

Caesa

(AP)

-17.611

-21.773

-18.139

-19.284

Caesb

(DF)

-91.374

-134.593

-90.297

-125.091

Cagepa

(PB)

-49.995

-113.291

-79.365

-99.860

Cagece

(CE)

-117.142

-165.216

-120.889

-171.151

Casal

(AL)

-35.800

-35.993

-39.969

-55.098

Casan

(SC)

-134.739

-218.795

-159.359

-184.597

Cedae

(RJ)

-275.968

-492.857

-327.898

-423.142

Cesan

(ES)

-85.632

-129.466

-85.263

-126.526

Cempesa

(PE)

-116.154

-197.894

-189.675

-220.552

Copasa

(MG)

-325.998

-457.080

-292.896

-367.150

Corsan

(RS)

-155.338

-209.974

-112.119

-122.675

Cosama

(AM)

-98.736

-155.121

-55.973

-21.375

Cosanpa

(PA)

-131.934

-233.065

-169.741

-203.225

Deso

(SE)

-62.037

-101.788

-77.007

-101.472

Embasa

(BA)

-403.802

-665.821

-506.366

-663.153

Sanacre

(AC)

-13.543

-32.472

-9.807

-14.766

Saneago

(GO)

-380.625

-386.226

-280.508

-418.094

Saneatins

(TO)

-22.962

-43.025

-28.795

-34.010

Sanepar

(PR)

-167.501

-283.853

-188.428

-270.745

Sanesul

(MS)

-55.625

-59.742

-31.674

-18.521

Tabela 2. Índice Agregado de Performance, de 1998 a 2001,comparativamente à mediana

de 1998

Empresas

1998

1998

1999

1999

2000

2000

2001

2001

 

Índice

(a)

Índice

(b)

Índice

(a)

Índice

(b)

Índice

(a)

Índice

(b)

Índice

(a)

Índice

(b)

Sabesp

(SP)

0,08

0,0194

0,0078

0,0019

-0,0040

-0,0010

0,0017

0,0004

Agespisa

(PI)

-0,24

-0,0034

-0,3173

-0,0045

-0,3503

-0,0051

-0,3603

-0,0052

Caema

(MA)

-0,39

-0,0055

-0,5309

-0,0077

-0,5946

-0,0088

-0,4103

-0,0064

Caer

(RO)

-0,39

-0,0008

-0,4732

-0,0010

-0,4940

-0,0011

-0,5028

-0,0012

Caerd

(RD)

-0,41

-0,0013

-0,4693

-0,0014

-0,4183

-0,0013

-0,6409

-0,0018

Caern

(RN)

-0,22

-0,0037

-0,3155

-0,0051

-0,2938

-0,0049

-0,2863

-0,0049

Caesa

(AP)

-0,46

-0,0008

-0,5208

-0,0009

-0,5015

-0,0009

-0,4803

-0,0009

Caesb

(DF)

-0,07

-0,0018

-0,1503

-0,0037

-0,1653

-0,0032

-0,1831

-0,0036

Cagepa

(PB)

-0,20

-0,0040

-0,2722

-0,0054

-0,2396

-0,0049

-0,2340

-0,0048

Cagece

(CE)

-0,03

-0,0009

-0,0106

-0,0003

-0,0185

-0,0006

-0,0659

-0,0022

Casal

(AL)

-0,33

-0,0034

-0,4335

-0,0044

-0,3703

-0,0037

-0,3850

-0,0039

Casan

(SC)

-0,09

-0,0034

-0,1429

-0,0055

-0,1351

-0,0053

-0,1039

-0,0041

Cedae

(RJ)

-0,09

-0,0101

-0,1624

-0,0170

-0,1920

-0,0200

-0,1774

-0,0171

Cesan

(ES)

-0,11

-0,0023

-0,1381

-0,0029

-0,1507

-0,0031

-0,1562

-0,0032

Cempesa

(PE)

-0,26

-0,0134

-0,3837

-0,0175

-0,3158

-0,0166

-0,2758

-0,0141

Copasa

(MG)

-0,07

-0,0080

-0,1571

-0,0171

-0,1356

-0,0152

-0,1214

-0,0138

Corsan

(RS)

-0,14

-0,0096

-0,2031

-0,0128

-0,1834

-0,0114

-0,2583

-0,0161

Cosama

(AM)

-0,38

-0,0039

-0,4693

-0,0050

-1,2781

-0,0019

-0,9305

-0,0013

Cosanpa

(PA)

-0,28

-0,0039

-0,3376

-0,0047

-0,3400

-0,0047

-0,3186

-0,0043

Deso

(SE)

-0,22

-0,0026

-0,2689

-0,0033

-0,2662

-0,0032

-0,2840

-0,0034

Embasa

(BA)

-0,18

-0,0117

-0,2390

-0,0158

-0,2881

-0,0183

-0,1856

-0,0121

Sanacre

(AC)

-1,73

-0,0007

-1,5754

-0,0007

-0,6657

-0,0003

-0,7536

-0,0004

Saneago

(GO)

-0,23

-0,0087

-0,2484

-0,0097

-0,1649

-0,0067

-0,2074

-0,0086

Saneatins

(TO)

-0,24

-0,0014

-0,3040

-0,0018

-0,3590

-0,0023

-0,3151

-0,0021

Sanepar

(PR)

-0,03

-0,0022

-0,1192

-0,0098

-0,0396

-0,0033

-0,0068

-0,0006

Sanesul

(MS)

-0,23

-0,0023

-0,2870

-0,0028

-0,2369

-0,0023

-0,2156

-0,0021

Índice

Agreg.

 

-0,0904

 

-0,1590

 

-0,1501

 

-0,1378

(a)   Índice de performance de gestão por empresa(b)  

Índice de performance de gestão por empresa ponderado pela participação setorial

Indicador

O uso desse indicador, segundo relatam os pesquisadores, foi descrito por Salazar et al. (1999), no artigo “Criação e destruição de valor nas empresas de agronegócios”, em que foi avaliado se as empresas do setor estavam agregando ou destruindo valor. A metodologia EVA foi aplicada para as empresas do setor de gado bovino de leite, laticínios e industrialização do café, em função dos demonstrativos contábeis. Os autores concluíram que a maioria das empresas destrói o valor, por causa da excessiva dependência da atividade operacional, para gerar o valor compatível com a expectativa de seus proprietários.

Tabelas

A tabela nº 01 representa a perda de riqueza efetiva em cada ano. Por exemplo, o somatório de cada ano representa a destruição de valor econômico naquele ano. Demonstra que as empresas de saneamento, todas elas, não construíram riqueza. Trata-se de um indicador dinâmico, que tem por objetivo, possibilitar ao gestor, após conhecimento da situação real da empresa, agir no sentido de potencializar a geração de riqueza. O EVA está demonstrando a ineficiência das empresas de saneamento em termos de uso do capital. Deixa evidente a necessidade de se demonstrar compromentimento com a geração de valor. Todo o corpo funcional tem que ser envolvido. As propostas devem ser aprovadas se efetivamente gerarem valor. O EVA não é simplesmente uma ferramenta financeira, mas um objetivo a ser perseguido.

O EVA e o índice de gestão demonstram a necessidade de recuperação do setor. Não adianta simplesmente liberar crédito para execução de obras. Faz-se urgente um planejamento (plano diretor) que vise à recuperação das empresas, perseguindo a redução dos custos operacionais, perda de faturamento, evasão de receita e aumento de produtividade. O ente público deve estabelecer processos, atuar nos processos, eliminar os gargalos, aí sim, descontigenciar o crédito, mediante um compromisso de metas.

Tabela 2

Quanto maior o índice, melhor o desempenho da empresa. Um dos objetivos foi criar um índice setorial. É claro que as empresas com maior market share, tem maior influência no índice agregado. No entanto, na tabela, está o desempenho individual, independente da fatia de mercado ocupada pela CESB.

Por exemplo: a CAER em sua estratégia tem que considerar o desempenho da empresa líder que é a SABESP. A título de ilustração: não se pode comparar o PIB do Brasil com o PIB americano em termos absolutos, mas pode-se comparar o dado relativizado, ou seja, o PIB per capita dos dois países.

Decodificando

Em linhas gerais, o EVA é igual ao lucro líquido menos o custo do capita do acionista. É utilizado para indicar se a remuneração do dinheiro aplicado pelo acionista, (donos do negócio), foi superior ao retorno mínimo exigido. O custo médio ponderado de capital é resultante da participação do custo do empréstimo oneroso adicionado a participação o custo do capital próprio. As empresas de saneamento apresentam elevado custo médio ponderado de capital. As empresas de saneamento são intensivas em capital e não tem muita dimensão do capital alocado. As empresas de saneamento possuem sem exceção retorno muito baixo, sendo que a maioria apresenta retorno negativo.

O Índice de Performance de Gestão foi construído a partir dos seguintes indicadores:

margem operacional,

margem de despesa de exploração,

grau de endividamento

índice de perda de faturamento

índice de evasão de receita

índice de produtividade

Cada índice acima teve sua ponderação na construção do índice de performance individual das empresas, que foi em seguida ponderado pelo market share para confecção do índice agregado. As CESB’s foram selecionadas em dois grupos: grupo 1 – as que mais contribuíram para reduzir a má performance setorial e grupo 2 – as que mais contribuíram para agravar a má performance.

A título de ilustração os autores citam as companhias Casal/AL, Sanacre/AC, Caerd/RD, Cosama/AM, Caesa/AP, Caema/MA, Agespisa/PI, Caer/RR, Caern/RN, Cosanpa/PA, Deso/SE e Saneatins/TO, que tiveram, no ano de 2001, o desempenho individual inferior ao da companhia de pior desempenho do conjunto de empresas do Grupo 2 – a Compesa/PE –, porém contribuíram para melhorar a performance agregada do setor no ano referenciado, devido ao pequeno impacto provocado pela má performance no resultado setorial, dado que o conjunto dessas empresas responde por uma participação setorial de 10%.

Contrariamente, as companhias Cedae/RJ, Compesa/PE, Copasa/MG, Corsan/RS e Embasa/BA, obtiveram melhores performances individuais, em relação ao conjunto de empresas anteriormente citado, porém, não o suficiente para reduzir a má performance setorial do ano de 2001 comparativamente a 1998, devido ao maior peso setorial, no qual responderam por uma participação conjunta de 39% no setor.

Ressaltam, ainda, que no ano de 2001, as empresas Casan (SC), Cagece (CE), Sabesp (SP) e Sanepar(PR), listadas no grupo 1, foram as únicas a obter um desempenho individual superior a qualquer empresa do grupo 2.

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