NASA descobre novo microorganismo

Lago Mono visto da órbita da Terra

Mark Twain nunca teve uma opinião favorável sobre o Lago Mono, na Califórnia. Dizia que ele estava em um deserto oculto e que não tinha vida nem vegetação, conforme escreveu em seu diário de viagens de 1872, Vivendo sem Conforto. “Este solene, silencioso e inavegável mar – este solitário inquilino do mais solitário rincão da Terra – é também isento de qualquer beleza pictórica”.

O astrobiólogo Richard Hoover, do Centro Nacional de Ciências Espaciais e Tecnologia da NASA (NSSTC), em Huntsville, Alabama, tem um conceito diferente: “É formoso,” diz.

Este lago parece um mundo extraterrestre. Estranhas agulhas nodosas chamadas “tufas” sobressaem da água uns poucos metros. A própria água está saturada com milhões de criaturas flutuantes: os crustáceos da salmoura. O lago é em realidade a bacia de um vulcão com cerca de 22 km de diâmetro. A água flui para ele desde os arroios da serra, mas não existe saída salvo a evaporação – um processo que incrementa constantemente a concentração de sais e minerais. As “venenosas águas são quase inteiramente soda cáustica e têm duas vezes mais sal do que a água do mar”, se queixava Twain. “Não há peixes no Lago Mono – não há rãs, nem girinos – nada que tenha a vida placentária”.

“Na realidade,” aponta Hoover, “há ali muitas coisas vivas”. Os crustáceos são apenas um exemplo. Existe também uma espécie de mosca mergulhadora que habita principalmente as margens, mas que às vezes também sulca as águas, navegando no lago a bordo de diminutas borbulhas de ar submarino. O lago também serve de lar para microorganismos como as diatomáceas, cianobactérias e algas filamentosas.

A diversidade de seres vivos em um lugar tão estranho começou a atrair os astrobiólogos. Em setembro do ano 2000 Hoover viajou ao Lago Mono para descobrir que outras coisas poderiam viver ali.

Estava particularmente interessado nos micróbios. Muitos microorganismos são “extremófilos” (do inglês extremophiles) – que significa que crescem em lugares que poderiam matar a formas de vida maiores como os peixes ou as pessoas. “Através do estudo dos microorganismos encontrados em lugares extremos da Terra, como o Lago Mono, começamos a entender como poderia ser a vida existente em Marte ou outros mundos,” explica Hoover.

Foi uma visita rápida – só um dia no lago para colher amostras de água e lodo, e logo estava de volta ao laboratório em Huntsville, Alabama, para sua análise. Mas foi o suficiente para a descoberta. Nas profundezas do lago, no lodo alcalino e salino aonde não chega o oxigênio, ele descobriu uma nova espécie de bactéria: a Spirochaeta americana.

“Esta esbelta e extremadamente delgada bactéria se move de maneira elegante”, diz maravilhada a microbióloga Elena Pikuta, do NSSTC, quem cultivou as amostras. “Suas paredes celulares são muito delicadas, e é muito difícil mantê-las com vida no laboratório durante longos períodos”.

O laboratório é provavelmente demasiado confortável para qualquer ser que seja bastante “casca grossa” para viver no Lago Mono – ou algo assim teria dito Twain. O raro dom de Pikuta para isolar e cultivar tais micróbios em laboratório foi crucial para a descoberta, anota Hoover.

As figuras em forma de espirais vermelhas são células mortas; as verdes são as vivas. Crédito: Richard B. Hoover, Elena Pikuta e Asim Bej, NASA/NSSTC Universidade de Alabama em Huntsville, e a Universidade de Alabama, em Birmingham.

Semelhança com Marte

Leave a Reply

Your email address will not be published.