Especial para a Rede de Jornalismo Ambiental da América Latina e Caribe.
Walberto Caballero
Fotos: Pedro Mendez – Diario ABC Color
(Jakuéke Paraguai – terça-feira – 15 de julho de 2003) Os países desenvolvidos se desfazem de seu lixo tóxico entregando-o como doação aos países subdesenvolvidos, como o Paraguai. Esta foi a denúncia de José Achucarro, do Partido Verde paraguaio, ao se referir aos milhares de litros de praguicidas, herbicidas e demais tóxicos que chegam a seu país como doação, mas que estão muito distantes de serem considerados de utilidade para os produtores agrícolas. Ao contrário, só produzem danos ao meio ambiente e à saúde das pessoas e animais. Nesse sentido, José questionou duramente as autoridades do governo nacional por aceitarem este tipo de doações que prejudicam o país.
Disse também que existe uma espécie de associação ilícita para delinqüir encrustrada no Estado, que se encarrega de traficar com lixo tóxico de países do Primeiro Mundo. “Já em 1990 foi importado lixo tóxico da Europa, supostamente para ser utilizado como substituto de combustível. E essa gente segue ainda em seus postos”, criticou.
Chamados também de agroquímicos, venenos químicos ou pesticidas, estes produtos que geralmente são utilizados no campo para as pulverizações dos cultivos agrícolas, já produziram intoxicações de famílias campesinas, como o caso de Repatriação no Departamento de Caaguazú; Bonanza, no distrito de Yatytay; e em Pirapey km. 35 – Itapúa, onde se registrou a morte de um menino de 11 anos, meses atrás.
Segundo os dados divulgados pelos meios de comunicação de Assunção e do Brasil, e pela Rede de Jornalismo Ambiental Latino-americana e do Caribe, a contaminação afetou diretamente em torno de 8.500 pessoas. Desse total 800 foram atendidas com sintomas de intoxicação.
Ao difundir-se o ocorrido, o presidente paraguaio, Luis Gonzalo Macchi, disse à imprensa acreditada no Palácio do Governo que “desconhecia em detalhes o caso”. Também acrescentou, ironicamente, que não havia atendido a nenhum paciente “porque era advogado”. Esta opinião do mandatário paraguaio, cujo local de despachos está a menos de 500 metros do sinistro, fez com que os vizinhos afetados ameaçaram “apedrejá-lo” se decidisse visitar a zona.
ONG argentina critica descaso
A Fundação para a Defesa do Ambiente (FUMAM) enviou notas de alerta ao governo de Formosa e ao governo federal argentino para que sejam tomadas precauções, sobretudo nas localidades ribeirinhas do rio Paraguai, a jusante de Assunção, e que ao mesmo tempo “ofereçam a ajuda técnica que merece um país irmão” segundo revelou o representante da entidade, Raúl Montenegro.
O Dr. Raúl Montenegro antecipou que se entrevistaria em Córdoba, Argentina, com o ministro da Saúde, Roberto Chuit, para informá-lo sobre o ocorrido em Assunção. Aproveitaria também para solicitar ao ministro que gestione a assistência ao Paraguai do CEPROCOR, um laboratório governamental especializado em análises de substâncias químicas, “toda vez e o governo paraguaio ou os vizinhos atingidos requeiram esse serviço”.
“Córdoba não está próxima de Assunção, mas compartilhamos as angústias dos
vizinhos dos bairros de San Felipe, San Vicente e San Pedro, de Assunção”, disse Montenegro.
Ele lembrou que os bombeiros paraguaios utilizaram cerca de 1 milhão de litros de água para apagar o incêndio, e essa água se misturou com os venenos. Parte do líquido contaminado escorreu pelas sarjetas e a rede de esgoto do depósito queimado. Não se descarta a hipótese de que grande parte do veneno tenha chegado ao rio através das canalizações.
O vazamento de agrotóxicos, entre eles organofosforados, terá um efeito mais grave do que o esperado e não será só de momento mas por meses e anos. A gravidade do caso foi destacada pelo biólogo argentino Raúl Montenegro, que advertiu sobre o coquetel de contaminantes químicos que está sendo inalado pela população atingida pelo sinistro.
Montenegro afirmou que “não se pode admitir que o Ministério de Agricultura e Ganadería do Paraguai tivesse um depósito de produtos altamente perigosos junto aos bairros de San Felipe, San Vicente e San Pedro, muito próximo do rio Paraguai. Sua irresponsabilidade gerou um verdadeiro Bhopal sul-americano”.
Fumam: www.fumam.org.ar
Apoio técnico do Brasil
Os dois técnicos da CETESB – Companhia de Saneamento Ambiental – que, a pedido da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), se encontram em Assunção, no Paraguai, continuam orientando o trabalho de remoção e destinação dos resíduos de dez toneladas de pesticidas que queimaram em um incêndio ocorrido na madrugada do último dia 7 de julho.
Trabalhando no caso desde o dia 11 de julho, determinaram a remoção e o acondicionamento temporário dos resíduos em caixas de amianto de 500 litros no terreno da própria OFAT – Oficina Fiscalizadora de Algodão e Tabaco, órgão do Ministério da Agricultura desse país, onde o produto estava armazenado.
Os técnicos Jorge Gouveia e Ronaldo de Oliveira Silva, do Setor de Atendimento a Emergência e Análise de Risco, da CETESB, procederam ainda à coleta de amostras de água na baía de Assunção, que serão analisadas, pois há a possibilidade de que água utilizada no combate ao incêndio, através de canaletas a céu aberto no bairro de São Vicente, tenha atingido o Rio Paraguai que drena para o Atlântico causando preocupação inclusive na Argentina.
Em reunião com os ministros paraguaios da Saúde e Bem-Estar Social, José Mayans, e da Agricultura, Darío Baumgartem, além do secretário do Meio Ambiente, Menandro Grisetti, na segunda-feira (13/7), os técnicos da CETESB fizeram um relato da situação encontrada no local, fazendo as necessárias recomendações para o desenvolvimento dos trabalhos.
Fonte: Cetesb
Edição 167 – 17/07/2003 a 23/07/2003
Coquetel mortal
Segundo Montenegro a queima de 10 toneladas de inseticidas, herbicidas, fungicidas e outros produtos “gera dois tipos de contaminantes: a liberação ao ambiente das substâncias químicas que estavam armazenadas, e dos aditivos e derivados que elas continham. Muitas vezes os derivados químicos podem ser mais tóxicos do que o princípio ativo. Em segundo lugar, novas substâncias químicas, que resultam das reações entre contaminantes primários, ou de mudanças induzidas pelas altas temperaturas. No depósito havia um coquetel de produtos altamente perigosos, e a queima gerou um coquetele muito maior e ainda mais perigoso”.
Raúl Montenegro, que é professor titular de Biologia Evolutiva Humana na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, esclareceu que “seguramente se produziram dioxinas e furanos, dois grupos de substâncias extremamente perigosas, e cuja detecção só pode ser feita em laboratórios especializados.
Segundo ele uma das dioxinas que se produzem por queima de substâncias cloradas é o TCDD, que além de tóxico e mutagênico é um cancerígeno grau 1 para a IARC, isto é, um cancerígeno humano certo”. IARC é a Agência Internacional para o Estudo sobre o Câncer, com sede em Lyon (França). O nome químico abreviado da TCDD é tetracloro-dibenzo-p-dioxina.
O biólogo acrescentou que cada uma das substâncias do coquetel liberado durante o incêndio e depois “tem sua própria lista de efeitos” mas o que mais preocupa “são os efeitos combinados e especialmente, o efeito negativo que muitas substâncias cloradas têm sobre o sistema hormonal. Se havia glifossato e foi eliminado ele é um disruptor endócrino, como as dioxinas. Todos estes compostos têm atividade estrogênica, sem serem estrógenos, e causam distúrbios no delicado sistema hormonal das pessoas.
O presidente da Fumam indicou que “tanto o governo do Paraguai como a Municipalidade de Assunção devem revisar suas normas. Não é possível que se permitam depósitos de resíduos perigosos em zona povoada”. Sustentou que essa revisão deve ir muito mais longe: “Concordamos com a Rede de Ação em Praguicidas da América Latina, com sede no Chile, de que o uso indiscriminado de praguicidas tampouco pode continuar”.

RAP-AL exige solução
A coordenação regional da Rede de Ação em Praguicidas e suas Alternativas para América Latina (RAP-AL), com sede em Santiago do Chile, remeteu um documento pelo qual reclama às autoridades paraguaias por uma solução urgente ao caso grave do vazamento de agrotóxicos, além de pedir a adoção de medidas tendentes a reduzir o uso de praguicidas neste país latino-americano.
“Clamamos às autoridades (paraguaias) a erradicar com urgência os depósitos de praguicidas dos centros urbanos ou densamente povoados. Também a realizar um levantamento e avaliação do problema (atual); a mitigação dos danos ocasionados ao ambiente; e uma vigilância epidemiológica para os habitantes do setor afetado. Clamamos à redução do uso de praguicidas e à adoção práticas agrícolas sustentáveis”, disse o porta-voz da entidade internacional.
RAP-AL qualifica de “Desastre químico” a situação que afeta aos habitantes da área ribeirinha do rio Paraguai. Esta entidade sustenta que o efeito expansivo dos agrotóxicos é de pelo menos três quilômetros ao redor da zona do sinistro. “Como organização regional nos alarma o aumento do uso de agrotóxicos no Paraguai, com altos custos sociais e ambientais”, sustenta RAP-AL.

Leave a Reply