Senior Felipe Mayer Ferraz
A água, de grande importância por representar 70% de nosso corpo e pela questão de manutenção da vida de nosso planeta, também pode e vem sendo cada vez mais analisada como um importante fornecedor de saúde, não só pela hidratação que proporciona ao organismo, mas também pelas atividades físicas que podemos desenvolver nesse meio.
Segundo o American College of Sports Medicine, uma das instituições mais respeitadas do mundo da atividade física, três valências são componentes essenciais de um programa de condicionamento físico: força, flexibilidade e condicionamento cardiorrespiratório. Por esta definição, um trabalho bem elaborado por um profissional da Educação Física pode tranqüilamente atingir esse objetivo no meio líquido.
Para que o trabalho esteja bem fundamentado, o profissional deverá ter em mente as propriedades do meio no qual pretende trabalhar seu aluno. Destacam-se:
Flutuação (Princípio de Arquimedes ) – quando um corpo está parcial ou completamente imerso, ele sofre um empuxo (força para cima) igual ao peso do líquido deslocado. Por este princípio, é que nota-se uma diminuição relativa do peso corporal. Dentro d´água nosso peso é de aproximadamente 10% do normal (exemplo: uma pessoa que pesa 70 quilos pesará, dentro da água, 7 quilos), dependendo de sua composição (a flutuação é diretamente proporcional ao percentual de gordura). É este princípio o grande responsável pelo baixo risco de lesões.
Pressão hidrostática (Lei de Pascal ) – a pressão do líquido é exercida sobre todas as áreas da superfície de um corpo imerso em repouso, igualmente, a uma determinada profundidade.
Viscosidade – tipo de atrito que ocorre entre as moléculas de um líquido que oferece resistência ao movimento da água em qualquer direção, provocando uma turbulência maior ou menor de acordo com a velocidade que o movimento for executado. Quanto maior a velocidade, maior a turbulência.
Por este princípio, pessoas de diferentes idades, e, por conseqüência, diferentes capacidades de força podem trabalhar na água em diferentes velocidades, como seria um trabalho com pesos fora d´água respeitando individualmente suas forças.
Tendo em vista estas propriedades físicas do meio, o profissional irá adequar melhor seu trabalho (natação, hidroginástica ) de acordo com seu público (bebês, terceira idade, atletas ).
Tendo em vista as questões levantadas, a atividade na água diminui o risco de lesões, pela aspecto relacionado ao peso corporal, podendo sugerir-se um trabalho de recuperação de lesões ósteo-musculares, ou atividade para obesos, que fora da água apresentariam um risco de lesões bem maior.
Especificamente na questão da pressão hidrostática, o simples fato de a atividade estar sendo desenvolvida com o tórax submerso, só o aumento da caixa toráxica na inspiração, que deverá vencer esta pressão, já é um excelente exercício para a musculatura respiratória.
Ainda sob este enfoque, atividades que exijam uma expiração submersa, como a natação, proporcionarão um desenvolvimento melhor da musculatura expiratória que também deverá vencer esta pressão, o que proporciona a indivíduos com deficiência nesta fase da respiração, como os asmáticos, uma melhora desta atividade funcional e também do retorno venoso do sangue ao coração.
Além disso, há estudos que têm mostrado que de maneira geral, a atividade física na água diminui o estresse, relaxa a musculatura diminuindo suas tensões, acorda, revitaliza e ativa a circulação periférica, entre outros tantos benefícios,
Levando-se em consideração todas estas afirmações, a água pode sim ser vista como um meio de desenvolvimento de atividades que visem ao ganho de condicionamento físico, além de melhoras específicas como as exemplificadas.
Autor
Senior Felipe Mayer Ferraz é professor de Educação Física e pós-graduando em Fisiologia do Exercício (Ufrgs) – seniorferraz@terra.com.br
Um pouco de história
Ninguém sabe ao certo como começou a hidroginástica. A atividade aquática é secular, praticada há mais de 1.000 anos pelos romanos e gregos. Há relatos e livros mencionando esta prática em piscinas públicas onde as pessoas se reuniam para sessões de hidroterapia. Na Grécia antiga isso era tão comum quanto a sauna. Existem alguns relatos de massagens e movimentos feitos por japoneses e chineses em banheiras e piscinas. E por isso, a hidroterapia é tida como mãe da hidroginástica, propriamente dita.
Autores afirmam que a hidroterapia era, freqüentemente, utilizada na recuperação de atletas com problemas musculares, idosos e acidentados, antes do surgimento das sessões com formato de uma aula de Hidroginástica. Outros dizem que tudo começou com o próprio Dr. Kenneth Cooper, que a teria criado no início da década de 60.
A hidroginástica teve a sua ascensão no Brasil e no mundo no início da década de 80 devido ao elevado número de lesões provocado pela prática da ginástica aeróbica. Vários especialistas dos Estados Unidos começaram a estudar os exercícios aquáticos a fim de minimizar o impacto encontrado nas atividades feitas em sala de aula.
Em 1984, Terri Lee lança nos EUA o livro, Aquacises – Terri Lee´s Water Workout Book, tornando-se um manual para a hidroginástica, contendo 210 páginas de exercícios e seqüências para praticantes. Em 1991, Peggy Buchanan, professora credenciada pela IDEA, trouxe para o Brasil seu método de treinamento na água na convenção M2000 em São Paulo, o chamado Aquamotion. Tendo como proposta uma atividade física que prometia eliminar os riscos de lesões, principalmente, das articulações dos joelhos, trabalhando o condicionamento aeróbico com a mesma eficiência de uma aula de ginástica oeróbica, corrida ou natação. Eram pautados em movimentos da própria ginástica aeróbica, coreografados ou não.
Em meados dos 90, estudiosos como o Dr. Luiz Fernando Kruel, coordenador de um Grupo de Pesquisa em Atividade Aquática na UFRGS, Ricardo Mendes e Roberta Rosas, desenvolveram excelentes trabalhos tanto em águas rasas (Shallow-water), quanto em águas profundas (Deep-water), fazendo estourar em todo o Brasil a propagação desta maravilhosa atividade. Tais pesquisas serviram e servem, atualmente, como parâmetro para programas de treinamentos aquáticos com diversos objetivos e vêm cativando milhares de adeptos desde então.
A partir deste momento, no Brasil, diversas variações de hidroginástica foram criadas por profissionais como Mercês Nogueira Paulo, Nino Aborrage, Mônica Marques, Vera Lúcia Gonçalves e muitos outros, para condicionamento cardiorespiratório, emagrecimento, fortalecimento geral e flexibilidade, atraindo cada vez mais hidropraticantes.
Fonte: www.cdof.com.br/hidrosh4htm
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