
Cecy Oliveira – direto de Santiago (Chile)
O acesso à informação e a participação da comunidade nas ações relacionadas com o monitoramento da qualidade e gestão da água foram os pontos de consenso entre professores de Jornalismo, especialistas em água e saneamento e jornalistas que participaram dos painéis do primeiro dia de atividades do IV Seminário Internacional Água, Saúde Ambiental e Comunicações, em Santiago (Chile).
Abordando os vários aspectos da crise da água na América Latina e as Comunicações os conferencista se revezaram na apresentação dos dados do continente no que diz respeito às carências de acesso aos serviços de água ( 80 milhões de pessoas) e esgoto (120 milhões) que afetam as comunidades latino-americanas. O mais grave, como ficou evidente nas apresentações é que mesmo aqueles que têm acesso a abastecimento precário, em sistemas coletivos ou individuais, especialmente em zonas rurais, estão muitas vezes ingerindo água contaminada por coliformes ou com índices elevados de arsênico, este último presente principalmente no Chile, Argentina e Peru.
Vários dos palestrantes abordaram a questão singular da legislação chilena e dos direitos de água, consolidada dentro de uma perspectiva neoliberal e que permite uma verdadeira comercialização desse direito. Os detentores dos direitos podem dispor da água da maneira que desejarem sem se submeter a pré-requisitos ou condições da bacia hidrográfica. O representante do Greenpeace, engenheiro Juan Carlos Cuchacovich, chegou a dizer que no Chile “é um bem de acumulação e especulação” e que está na hora de o país dar um passo decisivo no sentido de adotar a administração por bacias hidrográficas.
Água não é mercadoria
Uma outra crítica contundente veio do diretor do Instituto de Ecologia Política do Chile, Manuel Baquedano, ao dizer que a partir da reunião do Fórum Mundial da Água alternativo, realizada em Florença, na mesma época do Fórum de Quioto, a orientação será buscar a implantação de um novo modelo de gestão que tenha como premissa a consideração da água como um direito humano e não como um bem econômico como defendem os países industriais. “’Agua e ar não podem ser encarados como mercadoria”, disse.
Ele advertiu que o acordo bilateral de comércio acertado entre o Chile e a Bolívia na recente reunião do Mercosul tem nas entrelinhas um acerto que vai permitir à Bolívia entrar no negócio de exportação da água. Anunciou também que em Florença foi aprovada a proposta de criar uma certificação da água a partir de experiências bem sucedidas de gestões locais.
Nesta mesma linha foi o depoimento do representante da Consumers internacional que relatou casos de mobilizações populares, como as que aconteceram em Santa Fé (Argentina) e Cochabamba (Bolívia) e que culminaram com a reversão de privatizações de sistemas de água e esgoto.
O jornalista Walberto Caballero, do jornal ABC Color, do Paraguai, deu ênfase ao papel dos meios de comunicação na disseminação de informações que facilitem a mobilização das comunidades em torno dos temas ambientais, principalmente os relacionados com a preservação dos recursos hídricos. E lembrou que o impacto ambiental, cedo ou tarde, repercute em toda a comunidade.
Sensacionalismo
A imprensa não escapou das críticas de sensacionalismo e superficialidade no trato dos temas relacionados com a água. Em um levantamento feito professor Karl Bôhmer, diretor do Programa de Estudos Ambientais da Universidade Arcis, do Chile, de 20 notícias publicada no mês de junho de 2001 no jornal chileno El Mercúrio, 17 delas abordavam aspectos negativos.

Eficiência
O especialista da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) Andrei Jouravlev foi enfático ao responder a uma indagação sobre quem é mais eficiente na gestão dos serviços de água e esgoto: as empresas públicas ou as privadas. Ele disse que nos Estados Unidos, único país onde se desenvolveram estudos sobre esse tema, a conclusão foi de que não existe diferença fundamental entre esses dois modelos. O que, de certa forma, põe por terra um argumento contundente em favor da privatização.

Bases americanas
O diretor geral de Águas do Ministério de Obras Públicas do Chile, Humberto Peña Torrealba, lembrou que a água é um assunto subjacente em motivações de guerra, como aconteceu com o conflito no Iraque e alertou para a incrível coincidência de que as principais bases norte-americanas estejam em locais que são ou estão próximos de grandes reserva hídricas.
Mas, em sua opinião, o aspecto que deveria ser relevante é o de que a água pode ser uma importante ferramenta para a construção da paz.

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