M. Fehr (fehrsilva@lycos.com)
O evento chamado de WSSD (World Summit on Sustainable Development) ocorreu em Joanesburgo em agosto de 2002 com a presença de representantes de 185 países. Os organizadores orgulharam-se do resultado: metas quantificadas para melhorar as chances de sobrevivência humana no Planeta Terra.
A meta específica que diz respeito à água potável foi a seguinte:Reduzir pela metade a proporção de gente sem acesso à água potável, até 2015.
É objetivo desta comunicação, quantificar e detalhar a pretensão, e esboçar a exigência que ela traz para cada consumidor de água potável no futuro próximo.
De 2002 até 2015 são 13 anos. Qual é a expectativa de crescimento demográfico nestes 13 anos? A população da Terra cresce em média 0,72% por ano (1). Em 13 anos terá crescido por um fator (1,0072)13 = 1,098 ou 9,8%. Em 2002, 40% da população mundial não tinham acesso à água potável (2). A pretensão é reduzir essa proporção pela metade, para 20%, até 2015. Em 2002, em cada 100 pessoas, 60 tinham acesso à água potável, e 40 não tinham.
Em 2015, a amostra de 100 pessoas terá crescido para 109,8, dos quais 80% ou 87,8 com acesso à água potável pretendido, e apenas 20% ou 22,0 sem acesso.
Em números absolutos, a situação toma a seguinte forma: a população mundial em 2002 era de 6,0*109 pessoas, dos quais 40% ou 2,4*109 pessoas não tinham acesso à água potável. Em 2015, a população mundial será de 6,0*109*1,098 = 6,6*109 pessoas.
O seguinte quadro mostra a evolução do atendimento:
Pessoas
com água
2002
60%
3,6*109
2015
80%
5,3*109
aumento:
1,7*109
Pessoas
sem água
2002
40%
2,4*109
2015
20%
1,3*109
redução:
1,1*109
A notar que em termos absolutos, nos 13 anos a redução do número de pessoas sem água será de 1,1 / 2,4 = 0,46 ou 46%, muito embora a proporção será reduzida pela metade, de 40% para 20%.
Até aqui os cálculos se referiam a pessoas. A pergunta seguinte é:
Quanta mais água será necessária em 2015 e de onde virá? O quadro anterior evidencia que em 2015 haverá 1,7*109 pessoas adicionais consumindo água. Quanta água? Em termos atuais, cada cidadão do mundo civilizado consome em média 200 litros por dia. Resultado: o aumento da oferta de água terá de ser 1,7*109*0,200 = 340 milhões de metros cúbicos por dia. De onde virá essa água?
O seguinte cálculo é hipotético por causa das enormes variações da disponibilidade de água em função da geografia. Se o mundo fosse homogêneo com respeito à disponibilidade de água, e se a oferta total não pudesse ser aumentada, cada cidadão teria de reduzir seu consumo para atender a meta indicada.
Qual seria a exigência de contenção de consumo? Na verdade, o modelo correspondente já foi publicado recentemente (3). A seguir se indica a aritmética inerente.
Ano 2002: 3,6*109 habitantes com água
consumo individual 200 litros por habitante por dia
consumo total 720*109 litros por dia
esta quantia não pode ser aumentada por falta de mais fontes.
Ano 2015: 5,3*109 habitantes com água
consumo individual 136 litros por habitante por dia
consumo total 720*109 litros por dia, exigência atendida.
Crescimento da população atendida com água de 2002 a 2015: 3,6*109*1,030213 = 5,3*109 ou 3,02%.
Fator de redução do consumo individual exigido: 1 / 1,0302 = 0,9707.
Isso significa que a cada ano, cada cidadão consumiria 97,07% da água que consumia no ano anterior, no período de 2002 a 2015.
A economia de cada um
O quadro a seguir ilustra a contribuição que cada cidadão teria de dar para garantir nossa água de cada dia até 2015.
Ano 2002 ………….. consumo 200 litro por habitante por dia
Ano 2003 ………….. consumo 200*0,9707=194 litros por habitante por dia
Ano 2004 ………….. consumo 200*0,97072=188 litros por habitante por dia
Ano 2005 ………….. consumo 200*0,97073=183 litros por habitante por dia
…………………………………………..
Ano 2015 ………….. consumo 200*0,970713=136 litros por habitante por dia.

Conclusão e referências
A pretensão da Cúpula pode ser realizada em um mundo homogêneo, se cada cidadão reduzir seu consumo de água em 3% por ano durante os próximos 13 anos. Não haverá necessidade de prover os 340 milhões de metros cúbicos por dia adicionais calculados no início. Agora, com os números em mãos, cada um pode se perguntar se o sacrifício é possível, se vale a pena e se está disposto a fazê-lo. Fato surpreendente: Com esse modelo se chegaria além da Cúpula Joanesburgo +10 que acontecerá em 2012. Como não há necessidade de procurar e fornecer mais água, o decênio poderia ser dedicado integralmente à educação ambiental e à cidadania de água. Não é uma tarefa nobre?
Referências citadas:
(1) Scientific American vol. 276 No 3 p. 20 (1997)
(2) Vértice Informativo do CREA-MG vol. 6 No 66 p. 4 (2002)
(3) BIO Revista Brasileira de Saneamento e Meio Ambiente vol. 11 No 21 p. 7 (2002)
Autor
M. Fehr é professor da Universidade Federal de Uberlândia (MG).
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