Christopher Flavin
A idade do petróleo dominou de tal forma as tendências sociais e econômicas durante os últimos 100 anos, que a maioria de nós tem dificuldade em imaginar um mundo sem ele. O petróleo é barato, abundante e conveniente – fácil de transportar por meio mundo num super petroleiro, ou pela cidade no tanque de um utilitário da família. Do consumidor comum até os economistas PhD em energia empregados por governos e corporações, temos a tendência de pensar que iremos queimar combustíveis fósseis até se esgotarem, e que a transição final será dolorosa e dispendiosa.
Porém, se invertermos o problema, nossa situação energética assume um aspecto diferente: sob uma perspectiva ecológica, a continuidade de nossa dependência em combustíveis fósseis, mesmo por mais 50 anos – sem falar no século ou dois que poderá levar para exauri-los – é um absurdo. Com o novo século iniciando, as 6 bilhões de pessoas vivem ainda com o sombrio legado de um sistema energético altamente poluído que moveu o século. É um legado que inclui lagos e estuários empobrecidos, florestas degradadas e milhões de pulmões humanos prejudicados.
A queima de combustíveis fósseis está ao mesmo tempo adicionando bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, a cada ano, uma escalada inexorável que precisa terminar logo, ou desequilibraremos praticamente todos os ecossistemas e economias do planeta.
Uma transição energética no novo século, portanto, é não somente ecologicamente necessária quanto economicamente lógica. A mesma revolução tecnológica que criou a Internet e tantas outras maravilhas para o século XXI, pode ser utilizada para dominar e armazenar eficientemente a gigantesca oferta de vento, biomassa e outras formas de energia solar do mundo – que são 6.000 vezes tão abundantes, numa base anual, quanto os combustíveis que consumimos hoje. Esses novos dispositivos de conversão de energia podem transformar esses fluxos abundantes, porém difusos, de energia renovável em eletricidade e hidrogênio concentrados, que podem ser utilizados para mover indústrias, lares, carros e aviões.
Uma série de tecnologias revolucionárias, inclusive células solares, células de combustível e turbinas eólicas, ocupam praticamente a mesma posição na economia hoje que o motor de combustão interna e o gerador eletromagnético detinham no fim do século XIX. Essas importantes tecnologias viabilizadoras já foram desenvolvidas e comercializadas, mas ocupam apenas pequenos nichos de mercado – e sua importância potencial futura ainda não é amplamente apreciada. Como ocorreu com o automóvel e a lâmpada incandescente anteriormente, a célula solar e o carro elétrico a hidrogênio estão lentamente conquistando participação de mercado – e poderão em breve estar prontos a contribuir para uma terceira revolução energética.
Poderiam fomentar uma nova geração de máquinas produzidas em massa que proporcionassem de forma eficaz e limpa, a energia necessária para se tomar um banho chuveiro quente, uma cerveja gelada ou surfar na Internet.
Graças a uma combinação possante de tecnologia avançada e incentivos governamentais, motivados em grande parte por preocupações ambientais, os mercados energéticos anteriormente insensíveis estão agora mudando. Durante a década de 90, a energia eólica cresceu a uma taxa de 26% ao ano, enquanto a energia solar elevou-se em 17% ao ano. Durante o mesmo período, a fonte dominante de energia mundial o petróleo – cresceu apenas 1,4% ao ano.
, em gigantescas fazendas eólicas, indústrias solares e no desenvolvimento da célula de combustível.
A indústria de energia “alternativa” está começando a ter o mesmo tipo de excitação que cercou a ampliação febril de John D. Rockefeller da indústria do petróleo em torno de 1880 – ou os primeiros passos de Bill Gates no negócio de software, na década de 80. Em janeiro deste ano, as ações de empresas de células solares e de combustível subiram repetidamente em um mês, seguindo o padrão das ações da Internet.
O Dia da Terra – com seu tema central, “Energia Limpa Agora!” – proporciona um momento oportuno para os cidadãos expressarem seu desejo de um novo sistema energético, e para insistirem que seus dirigentes eleitos implementem as mudanças políticas necessárias. Agindo assim, chaminés e carros poderão em breve se tornar tão antiquados quanto as máquinas de escrever manuais e as carruagens.
Século reformulado
O século XXI poderá ser tão profundamente reformulado pelo abandono dos combustíveis fósseis, como o século XX foi moldado por eles. Os mercados energéticos, por exemplo, poderão mudar subitamente, paralisando as vendas de usinas convencionais e carros numa questão de anos e influenciando os preços das ações de dezenas de empresas. A saúde econômica – e a força política – das nações poderão ser incrementadas ou, no caso do Oriente Médio, severamente afetadas. E nossas economias e estilos de vida provavelmente se tornarão mais descentralizados com o advento de novas fontes de energia que proporcionem sua própria rede de transmissão – por exemplo, a luz solar que já atinge nossos telhados.
A rapidez com que a economia energética mundial será transformada dependerá, em parte, nos preços dos combustíveis fósseis permanecerem baixos e na superação da oposição de tantas empresas de petróleo e de energia a um novo sistema. O ritmo da mudança será influenciado em grande parte pelo ritmo das negociações internacionais sobre a mudança climática e dos planos nacionais de implementação que se sigam. Na década de 80, a Califórnia concedeu incentivos fiscais e acesso à grade energética para novas fontes de energia, que possibilitou ao estado dominar os mercados de energia renovável, mundialmente. Incentivos e acesso semelhantes provocaram um rápido crescimento de mercado em vários países europeus na década de 90. Essas medidas começaram a reduzir o ímpeto dos investimentos de um século em combustíveis fósseis.
A energia eólica e solar atualmente geram menos de 1% da energia mundial. porém, como a indústria da informática descobriu há tempos atrás, o crescimento em dois dígitos pode rapidamente transformar um minúsculo setor num gigante. Nos últimos dois anos, cerca de uma dúzia de grandes corporações se uniram à Royal Dutch Shell, anunciando investimentos novos, de porte
Autor
Christopher Flavin é presidente do WWI-Worldwatch Institute.
Fonte: http://www.wwiuma.org.br
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