Lata D´Água na Cabeça

Serrano Neves

Lata d´água na cabeça

Lá vai Maria

Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão

Leva a criança

Lá vai Maria

A marchinha de Luís Antonio e J. Júnior lembra os bons carnavais do Rio de Janeiro. Digo, os bons tempos nos quais alguma fonte de água fresca e limpa era acessível na zona urbana pois, atualmente, por este País afora, as fontes naturais correm fétidas e imundas, sem vida e impróprias para a vida.

O sentimento de abundância e inesgotabilidade é próprio dos que nunca carregaram uma lata d´água na cabeça.

Os hábitos de uso da água são formados em função da disponibilidade. Esta é uma conclusão imediata e contempla apenas o instinto, dado que não sensível nos que detém informação formarem uma massa crítica de usuários racionais.

Doutrinar sobre o uso racional da água é fácil, usar a água racionalmente é que é difícil, pois cada um tem o tal do “eu preciso”.

A relação de cuidado e poupança é uma razão direta, intuitiva, que tanto pode ser positiva, derivada da proximidade de uma fonte pequena ou não perene quanto de uma torneira que insiste em não jorrar, mas o problema está em que o aprendizado da caixa que não enche só acontece depois que a torneira seca.

A fonte natural distante, a caixa d´água oculta no telhado ou inacessível, e a água sempre jorrando da torneira, diminuem em tal proporção o senso de administração do recurso que a expressão “acabou a água”, que é preparatória de xingar o governo, sai da boca com a surpresa de quem parece não ter uma caixa própria a partir da qual poderia administrar o consumo.

O cidadão urbano se move em torno de necessidades de consumo que julga deverem ser satisfeitas pelos outros e pelo governo, como se a natureza fizesse jorrar água por decreto ou brotasse feijão por medida provisória.

A escassez de água não é responsabilidade só do governo, no caso em que suas políticas públicas sejam ausentes ou falhas, porque o governo não bebe água.

Quem bebe água são as pessoas.

Os pobres neste País são maioria. Ser maioria num País democrático significa ter o poder e isto exige resposta para uma pergunta: “Quem é o dono da água?”

A resposta é simples: todos.

A simplicidade da resposta não inclui que quem pode pagar possa consumir o quanto quiser, reduzindo a disponibilidade de água para “todos”, nem inclui que esse pagador compre seu último copo d´água no meio dos cadáveres do que já morreram de sede.

Assim, uma proposta de “Educação para a Água” deve ter caráter sócio-ambiental, contemplando o respeito dos moradores do andar de cima pelos moradores dos andares de baixo – incluído o porão, e vice-versa, numa relação na qual – mesmo sem verem a cara um do outro, o consumo e a conservação sejam feitos numa razoável

divisão de tarefas, resultando água fresca e limpa para todos.

Conservar e usar racionalmente a água da Terra é como conservar e usar

racionalmente o sangue do Corpo.

Uma sangria desatada pode enfraquecer e matar.

Água fresca e limpa, já !

Culturas

A “cultura da torneira” substituiu a “cultura da fonte natural” na mesma velocidade com que a cultura dos aglomerados urbanos substituiu a cultura dos aglomerados naturais (ou rurais). Também, os números que revelam a quantidade de água que precisa ser tratada e a complexidade dos sistemas de distribuição tornam-se incompreensíveis quando uma mega-sena de uns reles cinco milhões de dólares já assusta as pessoas.

A cultura da torneira acaba por formar um direito de consumir sem nenhum dever correspondente de preservar ou de poupar, e esse direito de consumir se transforma em um grande complicador quando a chuva, para a população urbana, é vista como um transtorno ou prenúncio de desastres.

O cidadão urbano pode ter a informação, mas lhe faltará o sentimento de que a chuva repõe os mananciais e irriga as plantações, pois a sua reserva de água está em garrafas e seu feijão em sacos plásticos, ambos no supermercado da esquina.

Excesso e escassez

Excesso e escassez

O “deus da chuva” pode estar irado com o que as pessoas vem cortando na

“mãe natureza”, e está se vingando na mesma moeda, lembrando o antigo Regulador Xavier: número 1 – excesso, e as enchentes varrem as cidades; número 2 – escassez, e as torneiras secam.

A escassez de uma mercadoria faz seu valor aumentar, e quando isto acontecer com a água o pobre será o primeiro a não poder pagar.

O uso racional e a conservação por quem pode pagar constitui autodefesa pois, não só garante que ele, o pagador, e seus filhos e netos terão água no futuro, como seus lixeiros e empregada domésticas – sem os quais não vivem – estarão vivos para serví-los.

A única forma que o hipo-suficiente tem para retribuir a “nobreza” de sentimentos do pagador é sendo um conservador de água, pois isto só exige do pobre recursos de consciência, e o processo de conservação pode começar com um simples grito

“Pare de jogar lixo na minha água seu pagador-porcalhão.

ou poluidor-pagador como preferem os técnicos.

Imaginemos que uma greve de pagadores-poluidores seria até benéfica, mas uma greve de conservadores poderia ser desastrosa.

Autor

Serrano Neves é procurador de Justiça Criminal de Goiás –

http://www.serrano.neves.nom.br,

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