Vítimas da sede

José Eduardo Rocha

O uso racional da água já não é uma recomendação, é uma exigência. “Vítimas da sede”, aliadas às já comuns “vítimas da seca” e “vítimas da fome”, poderá ser uma frase comum em TVs, rádios e jornais dentro de alguns anos, se nada for feito para salvar o que resta das reservas mundiais de água potável.

A saída é economizar, combater a poluição e cada vez mais investir em minimizar a geração de efluentes.

No momento, a não ser por algumas imagens recorrentes de pessoas transportando água em baldes sobre a cabeça no interior do Nordeste, falar em “vítimas da sede” ainda soa estranho em um país rico em rios e mananciais. Mas o racionamento de energia, no ano passado, provocado pela falta de chuvas (e de planejamento), serviu como um alerta. A luz amarela acendeu. Um problema que, por enquanto, afeta ciclicamente o sertão nordestino passou a ser sentido em todo o país, com exceção da Amazônia.

Neste início de ano, uma grave seca atingiu os Estados do Sul, acostumados com a abundância de água, com sérios prejuízos para a agricultura, suinocultura e avicultura. Nascentes que pareciam eternas secaram e muitos fazendeiros sobreviveram graças aos poços artesianos, estes também de reservas finitas.

Portanto, como aprendeu a economizar energia, por força de um fenômeno climático temporário, o brasileiro terá que se acostumar a poupar água, um bem que, dentro de alguns anos, se tornará mais precioso do que é hoje o petróleo.

O problema, já grave em alguns países do Oriente Médio, da África e da Ásia, pode chegar rapidamente às nossas portas.

Do total da água do planeta, 97,6% são águas salgadas de mares e oceanos e apenas 2,4% são água doce. Mesmo desses 2,4%, somente uma parcela ínfima forma rios, lagos e pântanos ou está presente no ar. O restante está no subsolo ou congelado nas calotas polares.

Em escala mundial, é crescente a preocupação diante dessa realidade e do impacto da poluição ambiental sobre a qualidade da água. No Brasil, o debate também vem ganhando força com a atuação mais firme do Ministério do Meio Ambiente e da Agência Nacional de Água (ANA). Esta lançou o programa de cobrança da água captada por empresas em rios e pelos efluentes não-tratados despejados nesses mesmos rios. A primeira bacia a ter o uso da água cobrado será a do Paraíba do Sul (SP, MG e RJ).

Os recursos levantados, aliados a outros investimentos municipais, de empresas de saneamento e da ANA, têm como principal objetivo a despoluição dos rios. Outras bacias onde a água também deverá ser cobrada são as do rio Doce (MG e ES) e do rio Paranaíba (SP, MS, GO e MG). Mais do que pelos recursos arrecadados, a cobrança pelo uso da água é educativa.

Quem polui mais, pagará mais. Empresas e consumidores sairão ganhando com o uso racional da água. Nossos netos e bisnetos agradecem antecipadamente essa herança ecológica.

Cobrança

A cobrança deve começar em novembro – R$ 0,008 por metro cúbico captado e R$ 0,02 por metro cúbico de efluente não-tratado. Cerca de 8 mil empresas serão atingidas pela medida.

De acordo com a nova legislação para as bacias federais, também estão adiantadas as providências para a cobrança na bacia do Piracicaba, rio que nasce em Minas Gerais e deságua em São Paulo, tendo como principais afluentes o Jundiaí e o Capivari.

Na região banhada por esses rios estão instaladas cerca de três mil indústrias, abrangendo, entre outros, os municípios de Campinas, Bragança Paulista, Sumaré e Piracicaba. A bacia é responsável por 27% dos efluentes industriais não-tratados do Estado de São Paulo (contra 37% da região metropolitana da capital).

Escassez

De acordo com os números da Organização das Nações Unidas, apenas 0,8% do total de água doce existente no mundo é potável. Estima-se que cerca de 1,2 bilhão dos mais de 6 bilhões de habitantes do planeta não tenham acesso à água limpa.

Em 2050, a população mundial deverá ser de aproximadamente 9,5 bilhões, sendo necessária a utilização de 100% das reservas de água doce (hoje, são utilizados 54% dessas reservas). Não haverá espaço para desperdícios. A utilização da água na agricultura, através da irrigação, terá de ser repensada.

Autor

José Eduardo Rocha é engenheiro e gerente geral da Fluid Brasil, empresa que implanta sistemas de tratamento, purificação e movimentação de águas e efluentes.

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