Heitor Reis
A democracia ambiental será conseqüência da democracia no sentido mais amplo, geral e irrestrito. É quase impossível que haja democracia num sentido, sem que haja em outro. Enquanto houver o totalitarismo político, como sempre submisso ao econômico, ele estender-se-á a toda e qualquer outra forma relevante de interesse público.
A única motivação da plutocracia (*) é o lucro e um lucro seguro. Sua ansiedade neste sentido é tão grande, que acaba tornando-se, naturalmente, uma cleptocracia (**), coisa que fica patente em cada noticiário da TV, graças à privatização do Estado por esta classe superior, em termos materiais, mas miserável, ética, moral e ambientalmente. Como está no poder há milênios, ela possui técnicas sofisticadíssimas para alcançar seu alvo.
No caso do Brasil, os ricos são uns dois milhões, segundo o Banco Mundial. Sua capacidade de organização é tão produtiva, que dominam todo o restante do país, que gira hoje em torno de 168 milhões de habitantes, dos quais quase 120 milhões são miseráveis, pobres e quase pobres, alcançando um dos maiores percentuais de concentração de riqueza em suas mãos, em termos planetários, ficando atrás somente de dois países africanos. (Jornal do Brasil, 18 de junho de 2000)
A questão ambiental, como todas as outras, somente será devidamente tratada quando houver oportunidade da população participar democraticamente das decisões.
Enquanto o povo permanecer distante do poder, tendo apenas o direito de ser massa de manobra para votar nos candidatos maquiados e marquetados pelo ouro hollywoodiano, cujo brilho ofusca aqueles que não são tão iguais perante à lei, por não terem um centavo sequer para investir na campanha de ninguém, tudo ficará como antes.
Sendo o interesse da classe dominante exclusivamente o lucro seguro e prolongado, ela somente concederá que outro entre efetivamente na pauta, quando estiver dentro de seu propósito natural ou quando não tiver outra alternativa. Não há nada que as oligarquias brasileiras e internacionais temam mais do que a organização do povo, quando este acredita que seu país deva ser uma verdadeira democracia e não apenas uma formalidade para inglês ver. Naturalmente, fazem de tudo para que tal coisa jamais ocorra, adotando a estratégia milenar de dividir para conquistar.
Os militantes do ambientalismo devem buscar com ardor o apoio popular, inclusive junto aos sem-terra, sem o qual este planeta poderá ser aniquilado. Mas, por outro lado, é importante também tentar demonstrar que, a longo prazo, até mesmo o lucro dos capitalistas selvagens estará comprometido, caso não considerem que a natureza necessita de tempo para recuperar-se de seus vorazes ataques. Sua natural ansiedade, mesquinhez e insensibilidade, dificilmente permitirá recomposição em tempo hábil para evitar-se a catástrofe que nos avoluma no horizonte.
Voltemos, então ao povo, um grande número de pessoas plenamente analfabetas, outras apenas funcionalmente e, outras mais, incapazes de se concentrarem em outra coisa que não seja o trabalho e o pouco lazer, às vezes, de gosto duvidoso, que ele pode proporcionar. Não devemos nos esquecer de nossos 50 milhões de famintos e dos 15 milhões de desempregados.
Não é coincidência o aumento exponencial do lucro dos bancos no Brasil especialmente, que é um dos maiores do mundo, ocorrer exatamente enquanto a miséria de nosso povo atinge elevada grandeza. Se a classe média, que tem alguma consciência dos fatos ambientais, utilizando sua condição de formadora de opinião e intermediária dos interesses dos grandes, não trabalhar, unindo-se aos excluídos, de tal forma a demonstrar as conseqüências sobre a natureza da alienação política, da reprodução prematura e excessiva, nossas esperanças ficam ainda mais reduzidas.
A Taxa Tobin (uma CPMF internacional), defendida pelo movimento ATTAC (www.attac.org) como forma para redução das desigualdades sociais é uma possibilidade interessante, mas ainda distante.
O Jornal Hoje, da Rede Globo, documentou (12/03/2002) o aumento da gestação precoce no país. O que ele não mencionou é que a contribuição da mídia televisiva com sua fixação em temas sexuais promove uma deseducação maior do que aquela, alegada como causa do problema (falta de diálogo com os pais). A revista Isto É publicou anos atrás que a estimativa de adolescentes grávidas no país era em torno de um milhão anualmente.
Somente reduzindo o crescimento populacional (através de campanhas educativas) ainda mais do que já tem sido feito naturalmente, é que eliminaremos a possibilidade de que este número ameaçador de famintos duplique, com todas as suas conseqüência no meio ambiente, já que, na falta de uma atividade produtiva melhor, nosso compatriota do interior irá participar de qualquer atividade extrativista ilegal antes de ir para os grandes centros ser recrutado pelo narcoestado.
A destruição da natureza ocorre graças à inexistência de uma ecologia social.
Mesmo que mantivéssemos o atual estilo de vida poluente, a redução da população já traria benefícios enormes ao meio ambiente. Mas é claro que devemos atacar em todos as frentes de solução possíveis deste gigantesco desafio.
Somente haverá democracia política e ambiental, paz, segurança e vida digna para todos quando a humanidade compreender que este câncer populacional no qual nos tornamos, pode destruir não somente nossa civilização, mas também a frágil biosfera deste planetinha azul, ainda inédito no cosmo, não havendo, no momento, um outro para onde possamos ir.
Portanto, por mais amargo que nos pareça, e, por mais caro que isto possa nos custar, apliquemos urgentemente um tratamento rígido para nos curarmos desta enfermidade.
Antes que a própria natureza o faça…
Funções biológicas
Mesmo a realização das mínimas funções biológicas, faz com que os 6 bi de habitantes do planeta sobrecarreguem o ambiente de tal forma, a ponto de estarmos transformando a maioria de nossos rios em esgotos a céu aberto. E, à tudo isto é acrescido o esgoto industrial, o lixo de ambos, a poluição do ar, a redução da camada de ozona, o aquecimento do planeta, com degelo das calotas polares, a violência urbana, o desemprego, etc.
Além das políticas de desenvolvimento sustentado e um planejamento amplo para a Nação, necessitamos urgentemente equilibrar o crescimento populacional com as possibilidades que a sociedade e a natureza tem de fornecer dignidade e qualidade de vida (segura e àalongo prazo) para os brasileiros e para a humanidade.
Os capitalistas precisam compreender, por mais difícil que seja para eles, a premência de compatibilizarmos o lucro com justiça social, passando necessariamente por justiça ambiental. Este discurso feito até pelos líderes da economia mundial tem de sair do papel e tornar-se algo substancial, enquanto ainda temos tempo.
Como não temos perspectiva alguma a médio prazo de que haverá justiça social, permitindo que todos tenha acesso à educação de qualidade, à informações e recursos que lhes permitam exercer cidadania, a solução mais razoável é o planejamento familiar, nos termos da Constituição (art. 226).
Ou seja, fornecer a cada membro da sociedade condições adequadas para que, como os mais abastados, também determinem o número de filhos que julguem melhor e a época em que devam nascer, conscientes das conseqüência sociais e ambientais desta decisão.
Matematicamente, estaríamos reduzindo a grandeza do denominador na equação que divide a riqueza por todos os brasileiros. Isto é a parte da riqueza que a plutocracia permite que seja dividida pelos demais… Já que ela, além de receber uma renda média 150 vezes maior que a média dos mais pobres, mesmo sendo 1,3% da população, devora 53 % da riqueza nacional (o dobro do que ocorre nos USA). Isto é, sobra apenas 47% para serem divididos por 98,7% de nosso povo. (Jornal do Brasil, 18 de junho de 2000)
Definições
Definições
(*) Plutocracia: Dominação da classe capitalista, detentora dos meios de produção, circulação e distribuição de riquezas, sobre a massa proletária, mediante um sistema político e jurídico, que assegura àquela classe, o controle social e
econômico.
(**) Cleptocracia: Governo dos ladrões.
Autor
Heitor Reis* é Engenheiro Civil e Instrutor do SEBRAE em Belo Horizonte, MG. Experiência em coordenação de planejamento de projetos industriais, da informatização de processos administrativos e da qualidade. E-mail:
heitorreis@brfree.com.br – http://try.at/HeitorReis
Divulgado pela Rede Internacional de Comunicação CTA-JMA – Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
ONG Consultant, Trader and Adviser – Projeto CTA – Sindicato dos Economistas, no Estado de São Paulo – Jornal do Meio Ambiente.
Leave a Reply